Deconstruções e reconstruções de edifícios e de sistemas de concepções
na reorientação simbólica de estados
Reflexões no Mosteiro de S. Miguel em Kiev (Mykhailivskyi zolotoverkhyi monastyr)
Trabalhos da Academia Brasil-Europa relativos ao complexo temático "Leste Europeu e os Estudos Euro-Brasileiros", sob a direção de A.A.Bispo.
Retomada da sessão dedicada às relações Ucrânia-Brasil do Colóquio de Estudos Interculturais realizado em São Paulo, em 2004. Kiev, setembro de 2009
Imagens: Mosteiro de São Miguel, Kiev.
Trabalhos da Academia Brasil-Europa.
Fotos A.A.Bispo 2009
Deconstruções e reconstruções
A questão da reconstrução de edifícios históricos e a da demolição de construções e monumentos, sobretudo daqueles de significado simbólico e de função referencial, coloca-se em diferentes épocas da história e países.
Essa questão envolve, entre muitos outros, aspectos políticos, sociais, patrimoniais, arquitetônicos, urbanísticos e historiográficos. É em geral acompanhada por contraditórias reações emocionais e não raro por discussões e polêmicas. Diz respeito imediato à memória e à imagem de comunidades.
Tarefa de estudos culturais
Tratar adequadamente essa questão e procurar pelas razões e consequências de reconstruções e demolições representam tarefas dos estudos culturais, uma vez que são expressões de situações e transformações sociais e culturais. Constitui também, em particular, tarefa de uma história da arquitetura de orientação teórico-cultural.
Atualidade de de- e reconstruções
Um dos exemplos de maior significado dos últimos anos na Europa é o da reconstrução do antigo Palácio Real de Berlim, para o qual tornou-se necessária a demolição do Palácio da República da antiga República Democrática Alemã. Este, por sua vez, substituíra o Palácio Real, cujas ruínas haviam sido destruídas pelo regime superado. Poucos exemplos poderiam exprimir mais evidentemente as relações entre demolições e reconstruções de edifícios de significado simbólico e transformações políticas (Veja artigo a respeito em edição anterior desta revista). Vários outros exemplos poderiam ser citados, entre êles o da Igreja de Nossa Senhora, em Dresden.
Complexidade de leitura
Em muitos casos, a função original do edifício reconstruído não pode ser recuperada, sendo necessário procurar-se uma outra utilização para o mesmo. Uma singular complexidade de relações entre a expressão visual, a sua inserção na ordenação simbólica e sua modificação derivada da reconstrução e do conteúdo que não coincide com o sentido original passa a dificultar a leitura arquitetônica.
Essa problemática não é desconhecida no Brasil, onde se podem considerar vários casos de demolições e reconstruções que refletem concepções e situações de determinadas épocas. Um exemplo a ser aqui lembrado é o do Pátio do Colégio de São Paulo, demolido no século XIX para dar lugar ao Palácio Presidencial. Este, constituindo importante parte de conjunto arquitetônico, foi projetado para marcar a imagem do núcleo histórico da cidade. No século XX, foi porém demolido, reconstruindo-se o Colégio segundo critérios de um historicismo pitoresco.
Reconstruções no Leste europeu: Kiev
Talvez o mais significativo exemplo de construções e reconstruções por motivos políticos do Leste da Europa é o do Mosteiro de São Miguel de Kiev. Essa construção, que se eleva no alto do barranco que leva da baixada do rio Dniepr ao centro da cidade, oferece-se na atualidade como um contraponto norte-oriental à Catedral de Santa Sofia, constituindo um dos polos de um eixo que marca essa parte central da capital ucraniana.
A localização privilegiada do Mosteiro, a sua integração no conjunto urbano, as características de seu estilo, inclusive na sua forma resultante de reconstruções do período Barroco, não fazem supor que aqui se trata de uma reedificação. O visitante impressiona-se não apenas com a monumental igreja, mas com a grandeza de um areal aberto por portais (1760) e que contém edifícios de valor histórico-artístico como refeitorio de S. João Evangelista (1713) e o campanário (1716-19). Apenas uma observação mais cuidadosa das pinturas murais do exterior da igreja revelam, sobretudo no desenho e no colorido, o trabalho reprodutivo e reconstrutivo de artesãos e artistas.
Refazer a História
Constata-se, não sem surprêsa, que, ao contrário do exemplo acima mencionado do Pátio do Colégio de São Paulo, optou-se aqui não pela reconstrução do edifício original, no caso da Idade Média, mas sim na aparência que recebeu no século XVIII. Da mesma forma, como nessa época conservara-se o interior bizantino, o mesmo foi reconstruído nesse estilo. O intuito da reedificação não foi, portanto, o de recuperar um real ou suposto original, mas sim o de refazer a história, desfazer a sua demolição, apagar um período histórico, suprimir um hiato.
De- e reconstrução de identidades
Uma reconstrução nesse sentido do mosteiro dinamitado em 1936 adquire um significado simbólico de extraordinária relevância para a Ucrânia como país independente. Sob o regime soviético, a demolição havia sido realizada com o intento de ali erigir-se um edifício que marcasse o poder do Estado. Deveria fazer parte de todo um conjunto monumental. Kiev, que apresenta hoje grandes avenidas e praças marcadas pela monumentalidade e homogeneidade ecleticistas do Stalinismo arquitetônico, não viu porém a realização desse plano, do qual uma das poucas concretizações foi o do edifício do atual Ministério das Relações Exteriores.
Valor histórico-artístico e demolições
Um dos argumentos que, na época, foram utilizados para a justificação da destruição do edifício foi o de um menor valor histórico-artístico da arquitetura, deturpada que teria sido na sua originalidade pela reconstrução efetuada no período Barroco.
Apesar das pressões oficiais, alguns eruditos que estavam conscientes do significado do Mosteiro nos primeiros séculos da história da cidade e da própria região, assim como das suas obras de arte, conseguiram salvar, em pouco tempo e em ação quase que desesperada, parte dos mosaicos, afrescos e objetos valiosos. Esses restos encontram-se hoje em parte expostos em salas do andar superior da Catedral de Santa Sofia.
Marco de superação de sistemas
Com a independência da Ucrânia, decidiu-se que o mosteiro seria reconstruído, sendo a catedral consagrada em 1999. Um ano depois, em maio de 2000, completou-se o espaço interno. O mosteiro adquire assim o sentido de marco da superação de um sistema, sentido esse salientado pelo fato de ali existir um memorial às inumeráveis vidas sacrificadas à época da fome de 1933, sob Stalin.
Significados da dedicação a São Miguel
Conhecendo as circunstâncias políticas que levaram à reconstrução da igreja, o programa teológico de sua dedicação e de suas pinturas murais adquire um significado relacionado com a história mais recente do país, sugerindo, por assim dizer, quase que um mistério no vir-a-ser histórico da nação.
Em primeiro lugar, a dedicação da igreja ao Arcanjo São Miguel deve ser considerada como a chave para uma leitura adequada da igreja e de seu sentido teológico-cultural. Como se sabe de outras expressões arquitetônicas do culto ao Arcanjo, igrejas sob o seu patrocínio foram edificadas sobretudo em lugares elevados, tais como o Monte de São Miguel, na França ou aquele próximo a Turim, na Itália (Veja artigo em edição anterior desta revista).
Também em Kiev o mosteiro situa-se em área elevada, localização que apenas pode ser percebida a partir de uma visão da cidade baixa, e a que deveria ser então a mais adequada para a sua interpretação (não a do eixo planejado pelos soviéticos). A razão dessa preferência por lugares altos, que se elevam sobre planícies, justificado pela tradição da manifestação do anjo no Monte Gardano, reside na concepção teológica da proximidade do mundo angelical do Logos ou da Sabedoria divina. Segundo antigas interpretações da Gênesis, as criaturas angelicais tornam-se Luz, à medida que a Êle se voltam, tornam-se porém trevas, à medida que se dirigem à matéria.
O culto a São Miguel está portanto estreitamente vinculado a concepções de Sabedoria, da Luz e iluminação espiritual, o que confere à estruturação central de Kiev coerência lógica e profundidade. Tem-se, nessas concepções, uma justificativa da importância dada na Ortodoxia ao saber, aos conhecimentos, à cultura intelectual orientada pela Sabedoria e ao esplendor do espírito assim iluminado, ou seja, à beleza e à estética.
Significado de concepções angelicais
O significado do culto aos anjos nesse local evidencia-se também nas grandes pinturas murais que contornam a entrada do areal monástico, e na qual a cidade celestial é representada de forma até mesmo placativa, demonstrando os que ali vivem em eternidade e que contemplam, de cima, a cidade terrena e o mundo oposto dos decaídos.
São Miguel, o "Príncipe dos Exércitos Celestes", é representado ao alto do portal de entrada na sua qualidade de combatente vitorioso dos poderes espirituais das trevas, ou seja, dos espíritos voltados ou presos à matéria. Pode-se compreender, assim, que tal simbologia e o edifício de concepções a ela inerente não poderia ser bem vista pelos representantes do Materialismo marxista, compreendendo-se o empenho em destruir esse edifício à época de Stalin. A proximidade do Mosteiro de São Miguel à Catedral de Santa Sofia revela um plano teológico que parece ter determinado a implantação urbana de Kiev.
Santa Bárbara e a simbologia do pneuma no Homem
Sobretudo os brasileiros familiarizados com as tradições religiosas e com a mística surpreendem-se em constatar as várias representações de Santa Bárbara sob as portas dos muros externos da igreja. As imagens são cuidadosamente representadas com os atributos relacionadas com essa virgem e mártir, entre eles o da torre na qual foi encarcerada segundo a tradição e aqueles que indicam a sua iluminação espiritual e renascimento pelo batismo. Santa Bárbara é representada tendo aos fundos uma planície, como se se elevasse das profundezas. Relíquias da santa são agora conservadas na Catedral de S. Wladimir (Veja artigo a respeito nesta edição).
O significado da simbologia de Santa Bárbara no contexto histórico da cristianização de Kiev é imediatamente compreensível, uma vez que também ela tinha pai pagão. Vincula-se assim com a concepção do espírito sem liberdade, do pneuma aprisionado no homem terreno e na cidade material. Assim como Santa Bárbara aprisionada nas trevas, no inverno da humanidade, que renasce e é libertada pela Sabedoria, também o espírito que se manifesta na vontade do homem,deve passar de condição passiva à ativa, ser conduzida aos altos, à verdadeira vida, recuperando uma dignidade perdida. O aprisionamento na matéria poderia ser visto como símbolo da queda na barbárie de uma humanidade que é guiada pela força de um intelecto friamente racional, sem considerar a sabedoria do coração.
A ereção do mosteiro já não se deu em época inicial do processo de conversão do Rus de Kiev, pois não se relaciona com os homens guiados pela força dos sentidos, naturais, mas sim por aqueles já liderados por homens de força intelectual, mas escurecidos e frios. Essa seria a situação à época de sua construção na Idade Média, sob Swjatopolk II Isjaslawytsch. Há, portanto, um estreito relacionamento entre Santa Bárbara e o mundo dos seres espirituais - os anjos - no programa teológico do Mosteiro de São Miguel de Kiev. Pode-se compreender, assim, que também a simbologia relacionada com Santa Bárbara não poderia ser bem vista pelos representantes do Materialismo marxista devido à incompatibilidade do edificio de concepções.
Cooperação intercultural
A produtividade da cooperação intercultural torna-se aqui evidente. Os familiarizados com a linguagem simbólica da mística cristã que pode sobreviver de forma particularmente viva na América Latina, em particular no Brasil, podem oferecer subsídios para a leitura da expressões arquitetônicas de particular significado histórico-cultural para o Leste, tal como o Mosteiro de S. Miguel de Kiev. Vice-versa, a tradição ortodoxa pode contribuir para o aprofundamento e maior compreensão do edifício de concepções ainda vigentes no Brasil, auxiliando uma correção das interpretações de formas tradicionais de cultos brasileiros, em geral mal-compreendidos e mal-interpretados por pesquisadores sem conhecimentos teológicos.
(...)
As discussões terão prosseguimento
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