Veneratio vitae: Relações entre o Homem e os outros seres viventes na Filosofia da Cultura de orientação ética
Significado do pensamento de A. Schweitzer para países de formação colonial
marcados pela destruição da Natureza e extinção de espécies: Brasil e Austrália
Ciclo de estudos da A.B.E. de Cultura e Ética nos Estudos Interculturais, sob a direção de A.A.Bispo. Reflexões na Tasmania/Austrália, Burnie 2009
Fauna em perigo. Parque Natural Wings' Farm, Burnie
Fotos A.A.Bispo 2009
Parque Natural Wings' Farm, Burnie
Fotos A.A.Bispo 2009
Os estudos culturais euro-brasileiros dedicados a relações entre a esfera do Atlântico e a do Pacífico, em particular a contextos que aproximam, vinculam e diferenciam a Austrália e o Brasil exigem, para o seu desenvolvimento, que processos culturais da expansão européia sejam considerados a partir de adequadas perspectivas e em contextos globais, superando ou ampliando visões condicionadas pelos vínculos criados pela história colonial específica das diferentes regiões. Pode-se, assim, constatar paralelos no desenvolvimento e na história cultural de nações que, à primeira vista, pouco teriam em comum.
A partir dos conhecimentos assim alcançados, pode-se esperar não apenas uma aproximação maior e um intercâmbio cultural mais fundamentado no presente, mas sim também a procura de soluções de problemas comuns criados por processos postos em vigência no passado. As nações das diferentes universos culturais não se unem porém apenas positivamente através de suas instituições de pesquisa, museus, universidades e das correntes de pensamento em que se inserem, mas também negativamente, sobretudo na opressão e mesmo extermínio das populações nativas e na destruição da Natureza. Regiões do mundo de extraordinária riqueza natural estão vinculadas entre si por inserirem-se em processos expansivos que levaram e levam a um inconcebível empobrecimento do patrimônio natural da Humanidade e do globo. Experimentaram, de forma crescente a partir do século XIX, um desenvolvimento que levou à extinção de numerosas espécies animais e à destruição da flora de vastas áreas.
O Brasil e a Austrália unem-se assim, de forma lamentável e trágica por surgirem como países onde esse desenvolvimento deterioriador se manifesta de forma mais evidente: um por ter possuído uma riqueza de flora e fauna única no mundo, decantada pelos viajantes do passado, incomparável com a situação atual, outro por ter sobretudo uma vida animal diversificada e singular, com espécies desconhecidas em outras partes do mundo.
A necessidade da procura de novas perspectivas para o tratamento em conjunto desses problemas impõe-se pelo fato de que esse processo não está encerrado, mas continua vigente. Constata-se, assim, não apenas desenvolvimentos positivos no sentido de conscientização dos problemas e na procura de soluções, mas sim também retrocessos quanto à ecologia e à proteção da vida animal. Se a destruição da floresta amazônica e da mata atlântica prossegue em dimensões aceleradas apesar de intenções, dos pronunciamentos e esforços em contrário, também na Austrália critica-se uma delapidação rápida de florestas afamadas pela sua pujança, como as da Tasmania, apesar da existência, também aqui, de parques e reservas naturais, assim como de plantações específicas para a exportação.
No âmbito da vida animal, porém, é que mais se torna sensível a ação destruidora do Homem e as dimensões culturais e éticas de procedimentos sem escrúpulos e embrutecedores. O Museu de Hobart, na Tasmania, apresenta aos visitantes um filme do desespero, do sofrimento e da morte do último Tigre Tasmaniano em zoológico na década de trinta, antes quase que símbolo da região. Outras iniciativas do presente procuram salvar espécimes que se encontram em estágio de exterminínio e que são nativas e próprias da Austrália. Tudo indica, porém, que muitas dessas medidas decorrem de interesses de conservação da diversidade da fauna, por motivos científicos ou outros, não de uma conscientização do valor da vida animal e de uma maior sensibilização e empatia. Observa-se, assim, também aqui retrocessos, graves pelas suas consequências culturais e simbólicas. Se o Brasil no Exterior, sobretudo nos Estados Unidos já não surge tanto com a imagem de uma país de insuperáveis florestas, mas sim quase que exclusivamente como país de „carne na brasa“, a Austrália passa a fomentar o consumo do cangurú - animal símbolo das armas nacionais - sob a alegação de necessidade ecológica.
Em confronto com tais expressões de perda de sensibilidade, de cinismo e de retrocesso quanto ao respeito pela vida animal, com todas as suas consequências culturais e embrutecedoras da sociedade, cumpre dirigir a atenção a iniciativas que, embora de menores dimensões do que aquelas de grandes instituições, deixam entrever a presença de expressões de educação de consciência e de sentimentos, assim como de intuitos de cunho ético.
Parque Natural Wing‘s Farm
Um exemplo dessas iniciativas, - e que demonstra que não deixam de ter significado econômico pelo turismo que fomentam e pela sua contribuição à imagem das regiões - é o Parque Natural Wing‘s Farm, na Tasmania. Situado na Gunns Plains, esse empreendimento particular, fundado por Colin e Megan Wing, no ano 2000, mas com base em antiga tradição familiar, alcançou, em poucos anos, extraordinária expansão e popularidade, transformando-se em foco de atração a centenas de europeus e visitantes da Ásia que se dirigem à Tasmania. Uma das razões dessa fascinação reside não tanto no fato de ali habitarem animais nativos da Austrália em considerável quantidade, não pelo fato de ser uma espécie de jardim zoológico de iniciativa particular, idilicamente situado em vale de beleza paisagística, mas sim por constituir uma espécie de abrigo e centro de reabilitação, uma vez que as espécimes nativas ali conservadas estão representadas por animais que foram de alguma forma feridos ou se encontravam doentes.
Essa característica singular do parque denota uma sensibilidade maior não para a coletividade da espécie, mas sim para o ser na sua individualidade, no seu próprio direito à vida. O observador, constatando o fascínio que esse escopo desperta nos numerosos visitantes das mais diversas nações, passa a refletir sobre as dimensões éticas da atitude que parece manifestar-se no empreendimento. Recorda-se, também, que a preocupação pelos vínculos entre concepções culturais e a ética com respeito às relações entre o Homem e os animais não é recente, e que também nesse sentido pode ter havido retrocessos quanto à percepção e conscientização de problemas, quanto à reflexão e à formulação teórica. Um desenvolvimento atual do debate exige, assim, que se procure reconstruir a respectiva história do pensamento e de esforços similares, para, a partir daí, evitando-se repetições e o pensar o que já foi pensado, possa-se atualizá-lo e torná-lo eficiente.
Veneratio vitae como base da Filosofia Cultural de orientação ética
Um dos nomes mais prestigiados da história cultural do Ocidente que procurou desenvolver um edifício de concepções filosófico-culturais de orientação ética dirigida ao respeito ou até mesmo a uma veneração pela vida foi Albert Schweitzer. As suas concepções tiveram influência no Brasil, sobretudo em círculos de imigrantes de língua alemã. Essa influência foi tematizada em conferência de 1962, proferida em São Paulo por Tatiana Braunwieser e Sonia Oiticica (veja outros artigos nesta edição). A autora, baseando-se na obra Aus meiner Kindheit und Jugendzeit, München: C.H. Beck, 1953), salienta o significado da convicção da Veneração pela Vida como fundamento de todo o edifício filosófico-cultural de A. Schweitzer e para a sua própria vida:
No livro „Minha infância e mocidade“ conta-nos Schweitzer de maneira deliciosa, cheia de sinceridade e bom humor, suas principais caraterísticas e os acontecimentos que formaram seu carater, e influenciaram o resto de sua vida. Desde seus primeiros anos, uma profunda piedade com „tudo que respira“ - que o faz acrescentar por conta própria um pedido adicional à oração noturna que o fazia rezar sua mãe: „Bom Deus, protegei e abençoai tudo que respira - constituiu o alicerce de sua reverência pela vida, a forte e inabalável base de tôda a sua existência. (Tatiana Braunwieser, op.cit.)
A conferencista salientou com razão esse significado da concepção de Veneratio vitae para a visão do mundo e para a Filosofia Cultural orientada eticamente, uma vez que foi expressa pelo próprio A. Schweitzer em várias de suas publicações. Um dos aspectos de seu edifício ético-cultural diz respeito à questão da culpa coletiva e à necessidade de expiação pelas atrocidades que o Homem vem cometendo aos animais através dos séculos.
Exigências éticas em atitude de solidariedade
Para A. Schweitzer, toda e qualquer ato prejudicial a qualquer vida apenas pode ser justificado por uma inevitável necessidade. O Homem não deve jamais ir além do inevitável. Aqueles aque realizam experimentações em animais, mesmo que sejam para obter conhecimentos que sirvam à medicina humana devem estar certos de não haver outros caminhos do que tal sacrifício para o bem do Homem; não podem de forma alguma tranquilizar a própria consciência com relação a esse procedimento sob a justificativa de ser esta dirigida a uma finalidade válida. Os experimentatores devem ter o máximo cuidado de evitar toda e qualquer dor desnecessária à criatura que martirizam. A sua consciência deve carregar sempre esse peso e êles devem tomar a si para sempre a responsabilidade de tentar mitigar a sua culpa através de bem a ser feito a outros animais.
A. Schweitzer lembra dos numerosos atos de sacrifício de vidas e por vezes até cruéis são realizados em aulas de Ciências Naturais ou Biologia em ginásios e colégios, procedimentos inaceitáveis por não serem necessários, desensibilizadores de jovens, prejudiciais a seu desenvolvimento cultural e, portanto, deseducativos. Professores que os praticam em laboratórios perante jovens em formação prestam um deserviço indesculpável à cultura do indivíduo e da sociedade. A mesma falta de cultura e de ética deveria ser constatada nos inumeráveis institutos científicos nos quais experimentos em animais são feitos sem ou em insuficiente narcose, por falta de cuidado ou de tempo, ou para evitar-se trabalho suplementar. Quantas torturas são feitas a animais perante estudantes para demonstrar fatos há muito conhecidos, elucidados em textos e em imagens! Também aqui, segundo o pensamento de A. Schweitzer, tais professores universitários, assim como os de curso secundário, dão uma demonstração de falta de consciência e ética, e influenciam de forma deseducadora e prejudicial os futuros profissionais.
Para A. Schweizer, justamente o fato de que o sofrimento de animais de laboratórios contribuiu e - em casos que deveriam ser extremamente raros - talvez necessitem contribuir para mitigar sofrimentos humanos, criou-se uma relação de solidariedade única entre o animal e o Homem. Dessa culpa inamovível deriva a obrigação ao Homem de fazer todo o bem possível à vida animal. Todo o contrário representa falta de cumprimento desse elo criado de culpa e solidariedade, devendo ser visto como prova de falta de cultura e de ética do indivíduo e da sociedade. Quando o Homem faz bem a um animal, por mais insignificante que pareça ser, nada mais faz do que resgatar um mínimo da culpa que caiu e cai sobre os ombros da Humanidade.
Necessidade de tomada de posições e ações
Para A. Schweitzer, em toda a situação na qual um animal é obrigado a servir ao Homem, o indivíduo tem a obrigação de se ocupar e de se preocupar com o seu sofrimento. Nenhuma pessoa pode desviar os olhos ou deixar de agir ao observar que um animal está sendo agredido e passando por dores causadas por indivíduos. Ninguém pode tranquilizar a sua consciência pelo fato de não querer imiscuir-se em questões alheias, que não lhe dizem respeito. O indivíduo tem receio de expor-se, deixando que se perceba o quanto é movido interiormento pelo sofrimento que outros impõem a um animal. Supõe que os outros sejam mais racionais, menos sentimentais, e passa a aceitar o fato como de costume e até mesmo como expressão de uma tradição cultural. De repente, porém, de uma palavra daqueles que procedem de forma cruel, percebe que também êles não refletiram profundamente ou, no fundo, não aceitam ou se acostumaram com o próprio ato que praticam. Aquele que pratica o ato e aquele que o observa tornam-se cúmplices. Tomam consciência que estão envolvidos na crueldade que continuamente ocorre e que não podem absolver-se através de sua passividade da culpa que cai sobre o Homem.
Se existe tanto mal-tratamento da criatura, se o grito dos animais com sêde nos vagões de transporte permanecem sem ser escutados, se nos nossos matadouros domina tanta rudeza e brutalidade, se nas cozinhas animais recebem uma morte dolorosa por mãos inaptas, se animais sofrem com atos inconcebíveis praticados por indivíduos sem misericórdia ou se são entregues a brinquedos cruéis de crianças, todos nós somos culpados. (Albert Schweitzer, Kultur und Ethik: Kulturphilosophie zweiter Teil, Munique: Biederstein, 7. ed. 1948, 1. ed. 1923, 250)
A Ética da Veneração pela Vida proíbe ao Homem de silenciar e, com isso, fazer crer uns aos outros que não vivencia aquilo que todos deveriam sentir como seres conscientes. Ela exige do indivíduo que contribua para que permaneça viva essa capacidade de empatia para com a criatura, falando continuamente, sem temor e pejo sobre a responsabilidade que o Homem deve sentir e segundo a qual deve agir. Ela exige que o indivíduo esteja sempre atento a toda a possibilidade de mitigar tanto quanto possível o sofrimento que os homens causam aos animais, procurando toda a ocasião e todos os caminhos de auxílio para que, pelo menos por um momento, se reduza esse inconcebível terror que o Homem criou no universo dos seres viventes.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu
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