Em anos de crise: 1929 e 2009. Mística de São Paulo de Albert Schweitzer e „Mística Ética“
Reflexões sob a perspectiva das relações Alsácia-Brasil no "Ano do Apóstolo Paulo"
Ciclo de estudos da A.B.E. de Cultura e Ética nos Estudos Interculturais - Contextos Alsácia/Brasil 2009, sob a direção de A.A.Bispo. St. Hippolyt
Imagens de St.Hippolyt. Ciclo de estudos Alsácia-Brasil
Fotos A.A.Bispo 2009
Nos estudos desenvolvidos pela A.B.E. relativos à Cultura e Ética sob a perspectiva dos Estudos Interculturais, sob particular consideração das relações franco-alemãs e de suas repercussões no Brasil, uma atenção especial cabe à Alsácia como região intermediária entre esferas européias, marcada na sua história por interferências, aproximações, simbioses, afastamentos e conflitos culturais.
Estudos de processos de encontros e confrontos de correntes culturais na região dirigem mais uma vez a atenção aos primeiros séculos da Cristianização da Europa, quando no território da Gália difundiram-se correntes gnósticas das mais diversas proveniências e iniciativas destinadas a combatê-las.
Uma das principais fontes para o estudo dessas correntes foi uma obra escrita por um de seus combatentes, o Adversus haeresis de S. Irineu de Lyon (ca. 135-202).
Um local sugestivo para a condução de reflexões dirigidas a esses fundamentos histórico-culturais é a pequena cidade alsaciana de St. Hippolyt ou St. Pilt. A sua designação lembra um dos discípulos de Irineu de Lyon, Hipólito (ca. 170-235). Tal como Irineu, Hipólito foi autor de obra de combate às correntes gnósticas e às práticas mágicas de seu tempo e que constitui hoje importante fonte para o conhecimento das diferentes tradições desses movimentos e grupos. Nascido provavelmente no leste do antigo Império Romano, e falecido na Sardinha, foi um dos principais eruditos da Igreja ea sua época.
As correntes de pensamento e de prática desses primeiros séculos da história cristã mencionadas pelos críticos eclesiásticos denotam diferentes inserções culturais do Cristianismo, focalizando-o a partir da complexa situação de harmonizações de concepções e imagens do Helenismo tardio. Constata-se, em geral, que a visão do mundo era antes marcada por aproximações de cunho sistemático do que propriamente histórico, mais dirigidas a estruturas e seus sinais do que a uma derivação do Cristianismo da história de Israel.
Numa visão transepocal, sem porém sugerir-se qualquer elo de continuidade histórica, constata-se que a questão do pêso a ser dado à helenização da cultura no início do Cristianismo voltou a ser discutida a partir de meados do século XIX, em particular também na Alsácia. É singular que nomes representativos de correntes religioso-comparativas e esotéricas, e também daquelas consideradas por alguns como neo-gnósticas apresentem vínculos com essa região. Sob o pano de fundo desse recrudescimento de correntes que salientaram o papel de antigas culturas da Antiguidade Clássica, do Egito e do Oriente, compreende-se a preocupação por parte da Teologia em salientar a inserção histórica das concepções cristãs na tradição judaica, minimizando o papel das influências do Helenismo.
Sob esse pano de fundo, parece ser oportuno, no Ano do Apóstolo Paulo (2008-2009), lembrar de uma obra do alsaciano Albert Schweitzer (1875-1965) dedicada à Mística do Apóstolo Paulo (Die Mystik des Apostels Paulus, Tübingen: J.C.B. Mohr (Siebeck), 1930).
A Mística do Apóstolo Paulo de A. Schweitzer
O último capítulo da Mística de Paulo, terminada há 80 anos, foi escrito durante viagem de retorno da Europa à África, de Bordeaux a Cap Lopez, em dezembro de 1929. O seu prefácio nasceu durante a viagem fluvial que o levaria a Lambarene, iniciando a terceira fase de sua vida dedicada ao ministério médico-humanitário que desenvolvia no Gabão.
O manuscrito já havia sido levado duas vezes à África, e A. Schweitzer não queria protelar mais uma vez a conclusão do trabalho. Por essa razão, procurou completar o texto durante os dois anos que passou na Europa, preparando-o para a publicação. Esse trabalho foi realizado sobretudo no seu tempo livre, pois aproveitou a sua temporada européia para longas viagens de concertos e conferências. O outono e o inverno de 1927 tinha passado na Suécia e na Dinamarca, a primavera e o início de verão de 1928 estivera na Holanda e na Inglaterra, no outono e inverno desse ano viajara pela Suíça, Alemanha e Tchecoslováquia. Em 1929, realizara vários concertos na Alemanha. O tempo restante passou-o em Estrasburgo ou em Königsfeld, na Floresta Negra.
Essa época atribulada representou também um período de preocupações para A. Schweitzer relativamente a seu hospital na África. Alguns médicos e enfermeiras precisaram abandonar o trabalho, retornando à Europa, e tornava-se necessário ganhar novos colaboradores para a tarefa idealista de Lambarene. Não se pode também esquecer que o ano de 1929 foi marcado mundialmente pela crise financeira que influenciava negativamente o estado de espírito geral, criando uma situação de instabilidade e de falta de esperanças.
Esses elos da obra dedicada à Mística do Apóstolo Paulo e a África surgem como simbólicos e altamente significativos para os estudos culturais euro-brasileiros. Como tratado em publicações do editor desta revista (A.A.Bispo, Christliche Musikanthropologie, Roma 1992; Typus und Anti-Typus, Colonia 2002), apresentadas e discutidas em vários eventos, entre êles em sessão na Universidade Urbaniana presidida pelo então Cardeal Ratzinger, em 1991, a consideração das concepções paulinas surge como de fundamental importância para o entendimento de imagens e das tradições místicas, inclusive de contextos afro-brasileiros, e para a necessária revisão teórica da literatura a respeito.
Interpretação da Mística paulina por A. Schweitzer
Para A. Schweitzer, a mística paulina do ser em Cristo explicar-se-ia a partir da esperança e da fé na vinda do reino messiânico e do fim dos tempos. As concepções de Paulo e de outros fiéis dos primeiros anos do Cristianismo, sendo derivadas do Judaísmo, baseavam-se na convicção de que aqueles que criam no Messias viveriam no reino messiânico em forma supranatural de ser. Os infiéis e aqueles de gerações mais antigas permaneceriam adormecidos nos seus túmulos até a ressurreição dos mortos e o Juízo Final. No término do reino messiânico, concebido ao mesmo tempo como supranatural e temporal, teria início o tempo da eternidade, quando todas as coisas retornam a Deus. Os fiéis que acreditavam que Jesus Cristo era o Messias, participariam antes do que os outros na forma de ser da ressurreição. Essa convicção seria explicada por Paulo através da concepção de que os fiéis participavam numa forma especial de corporalidade com Cristo. A fé em Cristo seria uma manifestação de que Deus os escolhera desde o início como companheiros do Messias. A partir dessa participação místico-natural, também neles atuariam as forças da morte e da ressurreição que tinham operado na Sua Morte e Ressurreição. Assim os fiéis deixavam de ser homens naturais como todos os outros e tornavam-se seres que se encontram na metamorfose de um estado natural a um supra-natural. A aparência de homem natural seria apenas uma cobertura ou roupagem que seria despida no início do império messiânico. De forma misteriosa já seriam mortos e renascidos com Cristo e em Cristo.
Nessa Mística do ser em Cristo e do ser morto e renascido com Cristo poder-se-ia ver, segundo A. Schweitzer, uma extensão e ampliação da expectativa escatológica. O esperar da breve chegada dos últimos tempos teria sido concebido por Paulo a partir da convicção de que, com a Morte e a Ressurreição, já se teria iniciado a transformação do terreno ao supranatural. Para A. Schweitzer, a mística paulina seria, assim, uma mística que partia da suposição de um processo cósmico.
Mística paulina e Ética
Desse conhecimento do significado da comunhão com Cristo resultaria a Ética a ser posta em prática. Os cristãos já não teriam nada a ver com a lei judaica, pois esta valeria apenas para os homens naturais. Por essa razão, ela não deveria ser aplicada aos não-judeus que se convertiam. O que seria ético ou não saberia aquele que se encontra em comunidade com Cristo, e isso diretamento do Espírito de Cristo.
Assim, segundo A. Schweitzer, Paulo teria direcionado a doutrina ao Ético. Enquanto os demais fiéis viam a demonstração da posse do Espírito em falas extáticas e em estados de entusiasmo, essa residiria, para o Apóstolo, na Ética. O Espírito dos fiéis que se encontravam em comunidade com Cristo, sendo o Espírito de Cristo, surge como uma força divina de vida que os preparam para o ser no estado da ressurreição. Esse seria o poder espiritual que os obrigaria a um existir diferente no mundo, e a maior prova do Espírito é o amor. O amor surge como o Eterno que os homens já hoje podem possuir.
Na mística escatológica da comunidade com Cristo, assim interpretada por A. Schweitzer, todo o Metafísico assume um significado ético. A supremacia do Ético na religião teria sido expressa pelo Apóstolo através de palavras que salientam o amor. Essa concepção ética do ser cristão é demonstrada numa atitude de continuamente agir a serviço do próximo, de atuar em amor ou caridade. O mistério do pão e vinho como corpo e sangue de Cristo teria sido explicado por Paulo segundo a sua doutrina da comunidade mística com Cristo, e o sentido da ceia estaria na comunhão daqueles que a celebram com Cristo. O batismo surge como início do processo salvífico, o início do morrer e renascer com Cristo.
Atenção dirigida aos judeo-cristãos e Ética
A doutrina da justificação pela fé, que através dos séculos teria representado o cerne da religião marcada por Paulo, seria na realidade uma concepção recebida da doutrina cristã-primitiva da morte pelos pecados do mundo. Para enfrentar os seus oponentes judeo-cristãos, Paulo teria formulado a fé no significado salvífico da morte como sacrifício, na convicção da não mais vigência da Lei, decorrente da mística da comunidade com Cristo. Assim, teria alcançado perante os judeo-cristãos que não mais se reconhecesse o significado das obras (no sentido de obras da Lei), exigindo na sua mística obras éticas como prova da comunidade com Cristo.
A doutrina da justiça pela fé, desenvolvida para o confronto com o Judeo-Cristianismo, teria alcançado o seu maior significado pelo fato de ter agido, em todas as época, contra a exteriorização do Cristianismo por aqueles que procuraram uma justificação pelas obras. Para A. Schweitzer, uma lógica artificial que Paulo teria empregado para mostrar que essa doutrina já estava presente no Velho Testamento teria levado a uma opinião errônea. Apesar do „fundo rabinista“ de Paulo, expresso na sua forma de argumentação, seria êle um pensador que se voltava aos fundamentos. Ele teria dado continuidade ao Evangelho não em palavras, mas em Espírito. Concebendo a fé escatológica no império de Deus como mística da comunidade em Cristo, dera a ela uma forma capaz de permanecer após ter passado a esperada chegada em breve, possibilitando a configuração de uma concepção do mundo de cunho ético.
Para A. Schweitzer, não se pode encontrar concepções gregas em Paulo. Ele teria dado porém à fé dos cristãos a forma na qual o espírito grego poderia ser assimilado. Inácio e Justino completariam esse processo, transpondo a mística da comunidade com Cristo segundo concepções gregas.
Reflexões sobre as concepções de Schweitzer
Na sua argumentação, Schweitzer parte assim prioritariamente de uma orientação escatológica do edifício de concepções religiosas para elucidar de forma racional, coerente e plausível a mística paulina. Procura explicar um vir-a-ser dessa mística a partir de concepções judaicas voltadas à vinda messiânica. A sua aproximação possui assim antes um cunho histórico que manifesta a intenção de negar a existência de concepções gregas em Paulo e confirmar assim uma origem das concepções no universo judaico.
Sob uma perspectiva histórico-cultural, a sua perspectiva de teólogo protestante, ainda que de orientação livre, difere tanto daquela de teólogos católicos quanto da visão de pesquisadores comparativos de religiões e espiritualistas de sua época.
No primeiro caso, poder-se-ia salientar a concepção da mística católica das três vindas de Cristo, no passado, no presente e no futuro, ou seja, a primeira em carne em humanidade carnal, histórica, que já não volta, a segunda em Espírito para aqueles que o amam, como noivo à sua amada, no presente, e a terceira no fim dos tempos, como juiz. Se a primeira chegada, acontecida no passado, marca a linguagem simbólica de expressões tradicionais lúdicas que representam o homem carnal, a Mística diz respeito primordialmente à segunda chegada, na atualidade, e é a partir daqui que se poderia explicar o preceito de amor que deve, na linguagem das imagens, a amada ao noivo. A argumentação de Schweitzer, dirigindo a atenção primordialmente à terceira chegada, ou seja, partindo do futuro com relação à orientação escatológica que vê no conjunto de concepções (e partindo do passado com relação às suas origens históricas), não parece ser a mais adequada ao tratamento da mística propriamente dita, uma vez que esta diz respeito à chegada em Espírito no presente.
Um caminho elucidativo a partir da experiência mística no presente, ou seja, a do viver como aquela que ama o Espírito e é por ele amada, o que pressupõe que atue segundo o preceito do amor, leva a conclusões semelhantes àquelas de Schweitzer, sugere, porém, uma revisão por assim dizer teórica de todo o edifício de concepções. Não o futuro final, mas o presente - a ação segundo o preceito do amor - é que representaria o ponto de partida. A partir do presente é que se elucidaria, como projeção no passado, em determinada contextualização histórica, a primeira chegada em carne, entre homens carnais. O tratamento da Mística partiria assim de princípios mais adequados. Esse tipo de aproximação, porém, dirige a atenção à sistemática, à estrutura e à lógica no edifício das concepções.
A partir dessas reflexões pode-se compreender também a similaridade e a diferença entre as concepções de Schweitzer e aquelas de eruditos que se dedicavam ao estudo comparativo das religiões e a pensadores livres de tendências espiritualistas do século XIX e início do XX. A comparação de diferentes tradições religiosas e de repertórios de imagens de diferentes culturas levara à constatação não só de diferenças, mas também de similaridades, sugerindo tentativas de reconstrução de um edifício de concepções subjacente às suas diversas expressões culturais. A partir daqui, então, procurava-se solucionar a questão das origens do sistema de concepções, situadas por muitos no Antigo Oriente. O simbolismo daquela que ama e é amada pelo seu Salvador e noivo pode ser encontrado de fato em imagens de tradições culturais vigentes no universo do Helenismo: poder-se-ia lembrar aqui de Andrômeda que é salva e unida a Perseus, e levando mais propriamente à esfera dos Mistérios, a de Persephone e Hermes.
Tudo indica, portanto, que, sem naturalmente reduzir o significado da Mística de Paulo de A. Schweitzer, a sua explicação do vir-a-ser histórico das concepções paulinas necessitaria ser revista de forma mais diferenciada, sem os ressentimentos de sua época relativos a uma possível supravalorização da cultura helênica nos primórdios do Cristianismo.
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