Judeus da Alsácia e imigrantes alsacianos na vida cultural do Brasil e da Argentina
Valse des Alliées do brasileiro Louis Henri Levy (1861-1935)
Ciclo de estudos da A.B.E. de Cultura e Ética nos Estudos Interculturais
Contextos Alsácia/Brasil 2009, sob a direção de A.A.Bispo. Dehlingen
É significativo para
os estudos culturais das relações França-Alemanha-Brasil que um brasileiro de origem alsaciana haja composto uma peça de salão comemorativa da vitória dos Aliados na Primeira Guerra Mundial. Trata-se da
Valse de Alliées de Louis Henri (Levy), impressa logo após o término da Guerra em Buenos Aires e publicada pela casa Levy, de São Paulo. Essa composição oferece um testemunho do entusiasmo com que o término da Primeira Guerra Mundial foi recebido na família Levy e em grande parte do meio musical do Brasil e da Argentina. Sem a perspectiva real de venda da obra a músicos e diletantes para que comemorassem a vitória em círculos de familiares e amigos essa composição não teria sido publicada. Ao mesmo tempo, a Casa Levy divulgava comemorativamente na América do Sul a atmosfera de regozijo triunfante que reinava internacionalmente entre as nações aliadas. Nessa obra, Levy elabora, em forma de valsa, temas de hinos europeus dos países vitoriosos, sobretudo daqueles da Inglaterra e da França. A ilustração da capa apresenta expressivamente bandeiras dos países envolvidos, esvoaçantes num rápido girar valseado e, no centro, um galo sobre o globo, nas cores nacionais, em combinação que sugere sobretudo cores do Brasil e da França. Já o seu irmão, Alexandre Levy (1864-1892), havia composto um
Hymno a 14 de Julho (1889) em mib, op. 17, para orquestra, sobre motivos da
Marseillaise e
Chant du Depart.
Valse des Alliées. Tema do hino inglês
Contextos de imigração
O primeiro estudo mais pormenorizado dedicado a Luís Henrique Levy foi desenvolvido em 1972 no âmbito dos estudos de Música e Evolução Urbana de São Paulo da Faculdade de Música do Instituto Musical de São Paulo, dirigidos pelo editor desta revista. Os trabalhos tiveram o apoio de membros da família Levy e de outros pesquisadores (Antonieta Kulaif e Dalva Martins Peixoto, Luís Henrique Levy, manuscrito).
Louis Henri foi um dos nomes usados pelo pianista e compositor Luís Henrique Levy (1861-1935). O emprêgo de diferentes formas do seu nome, em português e em francês, em variações com troca de letras (Ziul Yvel, Ivu Leliz) e de pseudônimos pode ser visto como expressão de múltiplas identificações culturais e da diversidade dos contextos em que atuou. Sob o nome de Louis Henri manifesta-se sobretudo os elos com o seu pai, com a Europa e o seu papel de continuador da tradição e obra paternas.
Nascido em São Paulo, Luís Henrique foi o filho mais velho do alsaciano Henri Louis Levy/Henrique Luís Levy (Dehlingen 1829-São Paulo 1896). O seu pai transferiu-se para o Brasil no ano de 1848, época de tensões, agitações políticas e dificuldades econômicas na Alemanha e na França, marcada também por surtos emigratórios na Alsácia e Lotríngia.
Dehlingen e a cultura judaica na Alsácia
A cidade de Dehlingen é situada ao norte da Alsácia, pertencendo ao cantão Sarre-Union. As cidades vizinhas são Butten, Lorentzen, Voellerdingen e Oermingen. A Nordeste limita-se com a região de Mosela, Lotríngia. A primeira menção documental da existência de Dehlingen surge numa certidão de doação à Abadia de Weißenburg, em 737.
A comunidade judaica de Dehligen era constituída por mais de 100 pessoas no início do século XIX. Em 1827, construiu-se uma sinagoga. E. Reclus menciona a presença judaica na região e a sua função na economia (Élisée Reclus, Géographie Universelle III, Europe Centrale, Paris 1878, 522). Nas aldeias da Alsácia, assim como naquelas da Hungria, da Galícia e da Polonia, os principais intermediários do comércio eram os mercadores judeus. Estimava-se em mais de 45000 judeus em toda a Alsácia-Lotríngia. Era uma proporção 20 vezes maior do que aquela apontada pelo recenseamento na França. Com as grandes emigrações de meados do século XIX, a comunidade perdeu muitos de seus elementos, extinguindo-se em fins do século.
A região da Alsácia-Lotríngia foi assim uma das regiões da Europa que possuiu durante séculos uma grande parcela populacional de judeus. A discriminação e a perseguição de judeus alsacianos contava com uma longa história. Já no século XV eram considerados como servidores do Império, contando em épocas de perseguição apenas com a maior ou menor proteção do Imperador.
Um vulto que se destacou na defesa da comunidade judaica regional foi Josei von Rosheim. Este alcançou, em Aix-la-Chapelle, em 1520, a confirmação de privilégios por parte do Imperador Carlos V. Permitiu-se que os judeus, impedidos de atuar na agricultura e no artesanato, levantassem juros mais elevados do que os demais habitantes. Os judeus alsacianos entregaram-se assim de modo intenso ao comércio e às transações financeiras, atuando alguns deles como vendedores ambulantes.
Entretanto, a posição dos judeus alsacianos permaneceu particularmente instável e a sua história tem sido descrita em estudos mais recentes como a de uma múltipla situação de limites e fronteiras, de encontros e confrontos culturais. Como todos os alsacianos, participaram das tensões e aproximações entre as culturas alemã e francesa, como judeus, sujeitos a discriminações, sentiam-se premidos à adaptação e à assimilação na procura de reconhecimento da sociedade.
Valse des Alliées. Fragmento melódico da Marseillaise
Comércio de jóias e música
No Brasil, Henri Louis dedicou-se ao comércio ambulante no interior da província de São Paulo. Dando continuidade a uma atividade praticada por judeus na Alsácia, passara a vender sobretudo jóias a famílias de fazendeiros e outras pessoas de posses em regiões de expansão e em época promissora da economia cafeeira. A aquisição de jóias e de ouro surgia como possibilidade segura de investimento de capital, ainda que ocorresse a crédito ou que para a sua compra fossem realizados empréstimos. Nessas atividades, Henri Louis travou conhecimentos com famílias em ascensão social e de interesses culturais. Essa aproximação exigia esforços de adaptação ao meio. A música foi um dos caminhos à integração, uma vez que Henri Louis executava clarineta, podendo assim atuar em grupos instrumentais. Tornou-se, assim, um mediador.
"Moço ainda, percorreu durante anos o nosso hinterland, até que em 1856 veio dar com os costados a Campinas, onde foi hóspede da família de Manuel José Gomes. Datam daí os laços de amizade entre êle e Carlos Gomes, amizade fecunda, que durou até o fim da vida de ambos" (op.cit. 2)
Após essas atividades errantes, Henri Louis Levy esteve em condições de estabelecer-se em 1860 na capital de São Paulo com uma loja de jóias denominada de Ao Bouquet de Brilhantes.
"O homem era israelita francês, chamava-se Henri Luis Levy, negociava com jóias e vinha fazer concorrência a outros lojistas estabelecidos no centro (...). Era ele o mesmo senhor Henrique Luís, que no ano transacto (1859) participara dos memoráveis concertos de Carlos Gomes e Sant'Ana Gomes e depois acompanhara o jovem Tonico para a Côrte." (loc.cit.)
Esse estabelecimento tornar-se-ia posteriormente a Casa Levy & Filhos. Tendo-se casado com Anne Marie Teodorette Laurette Chassot, proveniente da Suíça, teve quatro filhos, Luís e Alexandre, Paulina, e Maurício. A prática musical desempenhou papel relevante na vida familiar e na formação de seus filhos. Paulina, Luís e Alexandre tornaram-se bons pianistas, os dois últimos também compositores.
Mediação cultural e internacionalidade
A influência de Henri Louis Levy no meio musical de São Paulo já foi considerada por alguns autores como significativa, uma vez que a sua loja tornou-se centro de encontros de músicos e aficcionados.
"A maneira de publicidade que Henrique Luís fazia era originalíssima.
Enquanto fazia a propaganda do Ao Bouquet de Brilhantes e vendia jóias, também dizia Músicas à Venda.
E saía com a publicidade de "O Célebre Hymno Academico" e mais "Quem sabe... Lindíssima modinha, poesia do Dr. B. Sampaio.
Esse Ao Bouquet de Brilhantes ficava à fua do Rosário N° 2" (loc.cit.)
Entretanto, o papel de Henri Louis na história da vida cultural paulista ainda não foi estudada sob a perspectiva de estudos culturais mais diferenciados. Seria certamente produtivo examiná-lo sob a perspectiva das relações entre o processo identificatório por êle representado e a internacionalização da vida cultural da cidade em expansão e transformação. Significativamente, a sua casa comercial abrigava também um café, o Café da Europa, frequentado por estudantes da Faculdade de Direito e onde atuavam Luís e Alexandre Levy como músicos. Com os seus contactos comerciais e seus conhecimentos do panorama europeu, Henri Louis tornou-se um dos principais veículos de divulgação de novidades musicais e da importação de instrumentos e livros de música e arte. Além de tocar clarineta, passou também a executar saxofone, tornando-se um dos primeiros a divulgar esse instrumento em São Paulo.
Somente sob uma perspectiva teórico-cultural adequada é que se elucida sobretudo o fato aparentemente paradoxal de um relacionamento entre a internacionalidade representada por Henri Louis e o surgimento de obras características brasileiras, com elementos de tradições musicais regionais, fenômeno em geral anacrônicamente considerado sob enfoques posteriores do nacionalismo. Este é o caso de A sertaneja, de Brasílio Itiberê da Cunha (1846-1913). Com o seu empenho em adaptar-se ao meio e estabelecer contactos com jovens músicos em ascensão, como editor e comerciante, Henri Louis contribuiu não só para a divulgação de obras de compositores brasileiros como também influenciou, com as músicas que difundia, à produção musical e as tendências estéticas.
O significado de Henri Louis Levy e sua família para a vida musical paulistana reside compreensivelmente na esfera musical profana, assim como na prática musical doméstica. Correspondeu assim a uma fase da cidade em crescimento econômico e em processo de cosmopolização, substituindo a antiga cidade onde a vida musical fora sobretudo concentrada nas igrejas e nas quais os compositores se destacavam sobretudo através de obras sacro-musicais. Sobretudo deve-se salientar a sua ação no desenvolvimento da prática camerística e da música sinfônica, com a correspondente difusão de novo repertório. Significativamente, constituiu, com outros músicos, um Club Internacional. Na sua residência deu-se também a fundação da sociedade de concertos denominada de Club Haydn, entidade que passou a ser dirigida pelos seus filhos e que representou importante passo no desenvolvimento da vida musical de concertos e na divulgação da música sinfônica e de câmara em São Paulo.
Relações com a Argentina e a Europa
Louis Henri/Luís Henrique Levy teve a sua formação marcada pelo ambiente de comércio de artigos musicais de seu pai e tornar-se-ia êle próprio prototipo do homem de negócios, empreendedor, capaz de criar êle próprio produtos e incentivar a procura. Os seus elos com a Europa, sobretudo com a França, derivados da origem familiar, foram intensificados através de seus estudos em São Paulo e em viagens à Europa. Estudou piano com o Gabriel Giraudon, professor francês chegado a São Paulo em 1860. Visitou a Exposição Universal de Paris, em 1878, na companhia de sua mãe, ocasião em que se apresentou como pianista na Sala Erard. A família mantinha contactos com a Argentina, onde atuava o seu tio Sylvano Levy (+1925), professor do Conservatório Thibaut-Piazzini de Buenos Aires, também compositor. Apresentou-se, juntamente com o seu irmão Alexandre, no
Club Unión Argentina. Alcançou mais tarde, com a sua
Valse des Roses o primeiro prêmio de concurso
Valsa Boston Francalanci efetuado em Buenos Aires.
Uma particular menção merece o interesse de Luís Henrique pela filatelia. Aqui tinha a oportunidade de aprofundar os seus conhecimentos culturais relativos às diversas nações, os seus contactos internacionais e com internacionalistas, unindo-os com questões de impressão e editoração. Fundou, em 1882, o Brasil Filatélico. Na Bélgica, com o nome de Louis Levy, publicou uma mazurca de salão denominada Timbrée, dedicada ao editor e filatelista Jean Baptiste Philippe Constant Moens (1833-1908), por ocasião de comemorações do Journal le Timbre Poste (1863-1887).
Louis Henri participou ativamente do processo de difusão de novo repertório para música de câmara e sinfônica em São Paulo. Particularmente significativo sob o aspecto da cultura judaica de sua família pode ser visto a apresentação de obras de Felix Mendelssohn-Bartholdy (1809-1847) em São Paulo, entre outros o o Trio I em Ré menor op. 49, em 1885, e, em 1886, como solista, o Concerto em sol menor opus 25, este com a presença da família imperial.
Em 1896, compôs uma marcha fúnebre pela morte de Antonio Carlos Gomes (1836-1896), executada em missas do sétimo dia pela alma do compositor, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em homenagem póstuma a seu pai, dedicou-lhe a Gavota n° 5, op. 24 (Suplemento musical de Renascença, Ed. E. Bevilacqua).
Várias das composições de Luís Levy manifestam os seus estreitos elos com a cultura francesa, sendo o francês idioma praticado regularmente no âmbito de sua família e as suas obras em geral impressas em Bruxelas (Parfum parisien; Pleureuse; Mystère; Poudré, opus 23; Pourquoi partir?; Rêveuse, entre outras), Significaticamente, compôs uma valsa lenta como souvenir da Côte d'Azur de título Mimosa (6e. Valse Lente, dedicada a seu irmão Maurício).
Escreveu obras compostas para datas nacionais e de atualidade (Hino ao Quinze de Novembro, 1905; Voluntários da Pátria). Foi autor de várias valsas (por ex. Valsa Brilhante em Mi b op. 30; várias valsas lentas, tais como Humoresque op. 25), gavotas, mazurcas, romances (Madrigal op. 21), tangos (Tango Burlesco op. 26) habaneras (por ex. Tango em Ré, a Exequiel Ramos), outras peças para piano (por ex. Minuete-Improviso, dedicado a Alice Serva; Diálogo, romance sem palavras op. 26, dedicado a Sylvano Levy; Barcarola op. 10, em lembrança a um passeio de barco pelo rio Tietê). Criou também rapsódias com temas brasileiros (Primeira Rapsódia Brasileira op. 17, dedicada a Leopoldo Miguez; Segunda Rapsódia Brasileira, dedicada a Guiomar Novais). Algumas de suas obras foram adotadas oficialmente nos programas do Instituto Nacional de Música e do Conservatório Dramatico e Musical de São Paulo (Tango Grotesco op. 33, oferecido a J. Souza Lima; 4a. Valsa Lenta op. 32, oferecida a Vitória Serva Pimenta, publicada com revisão de J. Souza Lima pela Editora Vitale, São Paulo).
Comércio musical e música comercial
A partir de 1891, passou a gerenciar os negócios da Casa Levy. Como homem de negócios, realizou arranjos de peças estrangeiras para orquestras de salão.
"Luis era uma pessoa interessantíssima. Por vezes os arranjos eram pedidos, como por exemplo, certas orquestras de salão precisavam de músicas diferentes. Bem, ele atendia sempre, e aqui está: Honeymoon chinês - delícias da lua de mel - valsa.
Havia novidades dansantes de grande sucesso, como Adalgisa de V. Marsicano, Seduction, de Billi, Sorrisi e Baci, de Barbirolti, e Viúva Alegre de Lehar - músicas estas com arranjos de todos os tipos e gostos.
Luis escreveu, ainda Silver Dreams, que foi grande sucesso da Orquestra Tzigane do Automóvel Club". (op.cit. 19)
Sob o nome de Ziul Y Vel publicou várias peças de cunho popular, entre elas: Gostosa (Schottisch); Captivaram-me os teus olhos (Polka, resposta a Teus Olhos Captivam, de E. Nazareth); Vicilino (Polka, resposta a Beija-Flor, de E. Nazareth); Natalina (Schottisch); Santos-Dumond (Marcha), Brigada (Marcha), Caboclo (Cake Walk), Sentimental (Tango), Pas de Quatre; Setenta y Cinco (Tango Argentino); No Morro do Cha (Polka-Maxixe); Para a Frente (Marcha); Marcha dos Alliados. Sob o nome de Yvu Leliz, publicou canções sertanejas com textos de Jose Eloy: Os Bezerro qué mamá; As Gallinha tão no chôco; Geca Tatú; Coruquerê; De Astromóve; A Frôrada.
O significado de Luis Levy para as relações entre o comércio musical e o desenvolvimento de uma música de cunho comercial, em geral para o estudo das relações entre economia e música no Brasil foi reconhecido simbolicamente com a escolha de uma de suas composições instrumentais para o repertório coral das alunas da Escola de Comércio, em arranjo de compositor amigo (Habanera op.31, com palavras de Augusto de Carvalho).
Proibição da música dos Levys no Nazismo
Durante o período nacionalsocialista da Alemanha, o mais conhecido membro da família Levy, Alexandre Levy, foi incluído no rol dos compositores de origem judaica cujas obras não mais poderiam ser executadas na Alemanha e nas regiões sob o seu controle, ou seja, também na Alsácia. O seu nome foi publicado no Lexikon der Juden in der Musik, editado por Herbert Gerigk e Theophil Stengel em 1940 (Verlag B. Hahnefeld), em série publicada pelo "Instituto do Partido Nacionalsocialista para a Pesquisa da Questão Judaica" e que conheceu várias edições. Essa inclusão do compositor brasileiro no léxico, que apenas pode ser compreendida através da existência de uma ampla rêde de denunciantes, foi considerada criticamente pela primeira vez no concerto de abertura do ISMPS, em 1985. Atualmente, esse léxico nazista tem chamado a atenção de pesquisadores (Eva Weissweiler, Ausgemerzt! Das Lexikon der Juden in der Musik und seine mörderischen Folgen. Colonia: Dittrich,1999).
A.A.Bispo
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