Tema em debate
Comunicação em contextos culturais complexos e teoria sistêmica
Ciclo Alemanha-Brasil de estudos interdisciplinares e sistêmicos. Pelos 10 anos da morte de N. Luhmann. Reflexões em Raesfeld

Local de reflexões: Palácio de Raesfeld, hoje sede da Academia das Câmaras de Artesanato. Um dos mais significativos monumentos arquitetônicos do Reno do Norte/Vestfália, no distrito de Borken, remonta históricamente ao século XII. Em fins do século XVI passou à propriedade dos Senhores de Velen. Em meados do século XVII, o Conde Alexandre II de Velen reconstruiu-o em estilo renascentista. Principal arquiteto foi o monge capuchinho Michael van Gent (*1585), que então vivia em Münster. Sendo transferido para Roma, os seus trabalhos foram prosseguidos por Jacob e Johann Schmidt, de Roermond. O edifício foi construído com tijolos de cerâmica. O palácio surge, no seu estilo, como expressão de uma arquitetura do Vale do Maas, nos Países Baixos. A partir de 1653, criou-se um jardim de animais selvagens. Para êle, Johann Moritz de Nassau-Siegen ofereceu a Alexander II, em 1670, uma búfula proveniente do continente americano. Aqui tornam-se necessárias maiores pesquisas para a revelação de possíveis elos com o Brasil.
Sob muitos aspectos, questionamentos de fins dos anos 60 parecem manter a sua atualidade, merecendo ser recolocados e rediscutidos, agora sobretudo em contextos culturais complexos marcados pela cooperação internacional. Para isso, torna-se necessário atualizar modêlos de pensamento, considerar outros tipos de argumentação e tendências dos debates nas várias áreas do saber. Assim, durante os trabalhos realizados pela A.B.E. em 2008, relembrando os 40 anos de fundação da sociedade Nova Difusão, procurou-se considerar continuidades e descontinuidades no debate teórico nos últimos 40 anos. Um dos aspectos considerados disse respeito à questão da Teoria da Comunicação nos seus elos com a Teoria de Sistema de N. Luhmann (ponto de partida das reflexões: Dirk Baecker, ed.
Einführung in die Systemtheorie, Niklas Luhmann, 2a. ed. 2004, ISBN 3-89670-459-1)
Niklas Luhmann (1927-1998) é um dos mais prestigiados sociólogos das últimas décadas, cujo nome, sobretudo ligado à Teoria de Sistema, tornou-se altamente influente no debate interdisciplinar. Tendo-se formado em Direito, em Freiburg, atuou primeiramente como advogado de administração para o Estado da Baixa Saxônia. Após estudos na Universidade de Harvard, doutorou-se e realizou o seu trabalho de agregação universitária na Universidade de Münster. Em 1969 assumiu cátedra na Universidade de Bielefeld, onde atuou até 1993.
A interdisciplinaridade desempenhou papel fundamental na própria construção do seu edifício teórico, uma vez que o seu pensamento partiu da observação de desenvolvimentos de outras disciplinas, e possibilita que a sua argumentação e as suas concepções surjam como produtivas para as reflexões nas mais diversas áreas do saber, da ecologia às ciências, à cultura, à educação e à política. Procurou aproximar e vincular a dicussão sociológica às recentes teorias sistêmicas e desenvolver uma teoria da sociedade.
O objetivo principal da Nova Difusão, entidade constitutiva da organização Brasil-Europa, era o de questionar a prática e os fundamentos conceituais da difusão cultural, procurando caminhos para procedimentos e posições refletidas. Criticava-se uma prática e uma política de difusão cultural que agiam de forma não consciente e não adequada às transformações sociais e ao desenvolvimento dos meios de comunicação. Era a época em que os primeiros cursos de Teoria da Comunicação passavam a ser realizados, salientando-se aqueles levados a efeito por Décio Pignatari para o Departamento de Cultura de São Paulo. No âmbito da Nova Difusão, os modêlos teóricos do processo comunicativo passaram a ser aplicados na análise de processos culturais. Analisava-se a questão da difusão cultural privilegiadamente sob essas concepções, examinando-a também no sentido de uma comunicação. A crítica da passividade do receptor na assimilação do transmitido e o intuito de transformá-lo em observador consciente implicavam em colocá-lo numa posição de sensibilidade mais acurada que permitia relativar aquilo que estava sendo difundido.
Comunicação e Sistema. Crítica de uma idéia de transmissão
Segundo N. Luhmann, a Teoria da Comunicação deveria ser pensada juntamente com a Teoria de Sistema. Como esse autor sugere, o sistema seria produzido pela operação. Tem-se assim uma operação como produtora do sistema e deve-se ajustar a teoria de modo a referir-se a essa operação. Essa operação seria a comunicação. A proposta difere assim de forma significativa de conceitos convencionais do que deve ser entendido como comunicação.
Em geral, como aquele sociólogo salienta, a comunicação tem sido compreendida como um processo de transmissão. Haveria um autor e um receptor de uma comunicação. Um assumiria a posição daquele que dá uma notícia, emite uma mensagem, uma informação, o outro seria o receptor. O observador situar-se-ia uma vez aqui, outra vez ali, podendo assumir uma perspectiva correspondente a um papel passivo ou ativo. De acordo com essa concepção de comunicação no sentido de transmissão, o discurso sobre a comunicação ter-se-ia concentrado em questões tais como aquelas relacionadas com o conteúdo transportado, os processos de transmissão e as interferências ocorrentes no caminho transmissivo.
Esse modêlo de pensamento, porém, baseado na idéia de uma transferência ou transmissão, estaria sendo abandonado.
Humberto Maturana não aceitaria compreender a comunicação ou a utilização da língua como processo de transmissão; seria por assim dizer uma supercoordenação de coordenação de organismos. Assim, saber-se-ia que, na comunicação, não se perde aquilo que se comunica. Aquele que comunica não perde o seu saber. Haveria portanto uma diferença com relação ao que acontece na economia, onde se perde aquilo que se dá. Trata-se, assim, na comunicação de um processo que se desenvolve multiplicativamente, um processo de transmissão sui generis, onde nada se perde, apenas se multiplica.
Segundo alguns, trata-se, na comunicação, de produção de redundâncias, de saber supérfluo. Supérfluo do ponto de vista daquele que os quer questionar: quando A comunica algo a B, C pode indagar tanto A quanto B. Quando algo é emitido pela televisão, pode-se perguntar a outro telespectador o que foi recebido. Produz-se um excesso de saber, o saber multiplica-se por si próprio, havendo uma quota de esquecimento ou desatualização do conteúdo da comunicação.
Uma outra crítica diz respeito à questão se o modêlo da transmissão não pressupõe que se saiba as situações dos participantes, ou seja, que se saiba o que o conhecimento significa para A ou para B. Se o saber em B e em A é totalmente distinto, então dificilmente pode-se falar de comunicação. Como é que se pode saber o que alguém sabe?
Informação, comunicação e entendimento
No lugar de um modêlo de transmissão, pode-se partir de um outro esquema. Tratar-se-ia aqui de uma concepção baseada numa divisão em três partes. Fala-se de informação, de comunicação e de entendimento. O tratamento teórico dessa tríade não é uniforme nos vários autores. A literatura do speech act consideraria vários desses aspectos.Tem-se a idéia de que a tríade representa tipos de atos, neles podendo ser dividida. A língua deve estar em condições de oferecer possibilidades de comunicação, de dar informação e de prever efeitos de entendimento. Tratar-se-ia de componentes de uma unidade. Ter-se-ia a tese de que uma comunicação se realiza quando há uma unidade de exposição, informação e entendimento. Esses componentes não podem acontecer isoladamente: representam sempre aspectos de uma unidade que se realiza operativamente.Informação surge, nessa visão, sempre como momento de uma comunicação. Ela representa apenas algo dentro do sistema.
Problemas da comunicação escrita
Haveria um outro problema no caso da comunicação escrita. Poder-se-ia dizer que comunicação depende da igualdade de tempo de informações e de compreensão. Não se trata que alguém diga algo e um outro o compreenda após algum tempo. A perda de tempo é mínima e não é registrada psiquicamente. A igualdade de tempo na comunicação surge assim como um momento essencial na comunicação oral. Comunicação ocorre ao mesmo tempo e num espaço que é dominado ou identificado pela comunicação. No caso da comunicação escrita, ter-se-ia comunicação nesse sentido quando nela se reflete uma informação de textos antigos.
Significado para os estudos em contextos euro-brasileiros
Essas reflexões podem contribuir a uma maior diferenciação e precisão dos debates relativos à cooperação internacional no âmbito dos estudos culturais, em particular naquela promovida pela A.B.E.. Pela sua própria história, devido à fundação da sociedade Nova Difusão, em 1968, problemas relacionados com a difusão cultural e com a comunicação encontram-se sempre no âmago das atenções. A entidade e os eventos por ela organizados nunca se consideraram a serviço da Difusão Cultural no sentido da divulgação de expressões culturais do Brasil na Europa ou da Europa no Brasil. Pelos próprios objetivos da entidade fundada em fins da década de 60, o empenho dos trabalhos é exclusivamente teórico, ou seja, o de análise de processos difusivos e do instrumentario teórico e metodológico correspondente. Os trabalhos e iniciativas - entre elas o da publicação desta revista - não possuem em primeira linha escopo de transmissão de conhecimentos ou de difusão de saber, de fatos e ocorrências. Não possui intuitos informativos, instrutivos ou de propagação. Uma concepção de comunicação que se afasta da idéia de transmissão vem de encontro a esses intuitos. Uma das mencionadas críticas do modêlo de transmissão é até mesmo de natureza cultural, pois salienta a necessidade de que se saiba o que o conhecimento significa para A ou para B, ou seja, os pressupostos culturais que possibilitam a comunicação. Quanto ao debate relativo à comunicação escrita, porém, as novas condições criadas pela Internet sugerem a necessidade de uma maior diferenciação dos argumentos.
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Anotações sumárias dos assuntos tratados. Grupo Redatorial
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu
Brasil-Europa é organização exclusivamente de natureza científica, dedicada a estudos teóricos de processos interculturais e a estudos culturais nas relações internacionais. Não tem, expressamente, finalidades jornalísticas ou literárias e não considera nos seus textos dados divulgados por agências de notícias e emissoras. É, na sua orientação culturológica, a primeira do gênero, pioneira no seu escopo, independente, não-governamental, sem elos políticos ou religiosos, não vinculada a nenhuma fundação de partido político europeu ou brasileiro e originada de iniciativa brasileira. Foi registrada em 1968, sendo continuamente atualizada. A A.B.E. insere-se em antiga tradição que remonta ao século XIX.
Não deve ser confundida com outras instituições, publicações, iniciativas de fundações, academias de letras ou outras páginas da Internet que passaram a utilizar-se de designações similares.