Intersubjetividade como categoria metadisciplinar?
Debate entre Comunicação e Sociologia
Ciclo Alemanha-Brasil de estudos interdisciplinares e sistêmicos. Pelos 10 anos da morte de N. Luhmann. Reflexões em Iserlohn
Local das reflexões. Iserlohn, cidade do do distrito de Arnsberg, no Reno-do-Norte/Vestfália, maior cidade do Mark e do Sauerland. Suas origens remontam à Idade Média. Nos séculos XVIII e XIX foi grande centro da indústria metalúrgica. Tornou-se uma das mais importantes cidades industriais da Prússia. É sede de um simpósio internacional de Economia.
Nas reflexões referentes aos estudos teórico-culturais em contextos internacionais, no caso euro-brasileiros, tem-se levantado a questão das possibilidades e dos limites de uma interação comunicativa entre os participantes envolvidos no processo cognitivo. Procedentes de diferentes disciplinas e inseridos em diversificadas situações culturais, os protagonistas do diálogo teórico-cultural experimentam aqui dificuldades maiores de comunicação, de entendimento para além de fronteiras disciplinares e culturais do que aquelas que a cooperação interdisciplinar já por si colocam. Um termo que surge quase que como palavra-chave para apontar as possibilidades dessa interação é o da intersubjetividade. Com o emprêgo desse termo, da atitude e do procedimento que designa espera-se a solução ou mitigação de problemas de comunicação e de cooperação profissional. Entretanto, esquece-se muitas vezes que a concepção correspondente a este termo não é isenta de dificuldades para o seu entendimento coerente. A noção de intersubjetividade tem-se tornado até mesmo ponto neurálgico de discussões polêmicas no debate interdisciplinar, em particular no diálogo entre a Ciência da Comunicação e da Mídia e a Sociologia.
Dificuldades conceituais
O tratamento do termo intersubjetividade parte, em geral, compreensivelmente, de considerações relativas à concepção de Sujeito. Procura-se aqui fundamentações e diferenciações na tradição do pensamento filosófico. A complexidade do termo torna-se já evidente quando se lembra que já G.W.F. Hegel (Fenomenologia do Espírito, 1807) salientou a situação de tensão própria do Sujeito: este se encontra em conflito entre o desejo de autonomia e a sua dependência de outros. Entretanto, o Sujeito não pode ser totalmente autônomo, pois a consciência de si próprio se desenvolve apenas a partir do encontro com um outro consciente. Assim, o sujeito necessita de reflexão e do reconhecimento por parte de um outro. A partir dessa perspectiva, a intersubjetividade poderia ser compreendida como limite ou horizonte da autonomia do sujeito.
Sob esse ponto de vista, nos estudos teóricos em contextos internacionais, o desejo de autonomia e a situação de dependência do pensar de teóricos inseridos poderiam ser considerados como necessários para o desenvolvimento do pensamento dos sujeitos envolvidos. A cooperação interdisciplinar e internacional surge aqui como de fundamental importância para as esferas que interagem.
Nas considerações relativas ao conceito tem-se dado especial atenção ao conceito de „Mundo de Vida Comum“ como fundamento da subjetividade, na tradição de Edmund Husserl (Zur Phänomenologie der Intersubjektivität, III: 1929–1935; in: Husserliana, XIII–XV, ed. I. Kern, M. Nijhoff, Den Haag 1973). Sob essa perspectiva, poder-se-ia tentar especificar o „mundo de vida comum“ como fundamento da subjetividade dos protagonistas envolvidos no processo cognitivo em situações culturais complexas e, a partir daí, tratar-se da intersubjetividade no processo cognitivo em interações em contextos internacionais.
Vários são outros aspectos da discussão que poderiam ser salientados. Entre eles, lembra-se a questão do reconhecimento falso ou inapropriado do significado da reflexão para a auto-consciência segundo Jacques Lacan. O conhecimento recíproco como sujeito apenas poderia ser imaginário. Aportes pós-estruturalistas enxergam um elo intersubjetivo na caracterização do sujeito por fatos externos. Outras aproximações derivam da pesquisa empírica. Assim, Martin Altmeyer (1998) distinguiu na evolução de bebês fases de integração e fases de separação. Haveria assim, no processo intersubjetivo, situações de fusão (self-with-other) e de separação (self-versus-other). Seriam modalidades que se sucedem no processo de vivenciação do si próprio. Nesse contexto, a agressão surgiria como expressão do elo afetivo com outros. Para Julia Kristeva, o sujeito se encontra em permanente movimento entre forças heterogêneas, distinguindo aqui o simbólico e o semiótico.
Na discussão guiada pelo Gender Studies, tem-se levantado a possibilidade de substituição de uma relação de Sujeito/Objeto por uma recíproca de Sujeito/Sujeito. O modêlo poderia superar posições contrárias a nível social e político através de investimentos afetivos comuns.
Intersubjetividade sob a perspectiva da Comunicação
No âmbito das ciências da Comunicação e da Mídia, o conceito de Intersubjetividade, criticado na Sociologia, tem sido apresentado como fundamental e imprescindível. Recentemente (Das Große Lexikon Medien und Kommunikation, 2006), Leon R. Tsvasman salientou que o termo não pode ser menosprezado na área da Comunicação, uma disciplina que procura uma autonomia metodológica e teórico-cognitiva. Não se trataria apenas de conceito já superado, da história da filosofia, mas de uma categoria de pensamento de relevância atual. O conceito é considerado na sua potencialidade interdisciplinar e sentido comunicológico. Surge como uma categoria inter-, trans- e até mesmo metadisciplinar, acentuando-se a relevância do conceito para a prática. A Ciência da Comunicação, com a sua potencialidade de tornar-se até mesmo uma meta-ciência, não poderia dispensar o conceito.
Um dos aspectos problemáticos do termo, porém, tem sido visto no fato de relacionar-se com uma concepção de comunicação dirigida ao alcance de consenso. Na tentativa de superar-se idéias de objetividade sentidas como ingenuamente realistas, propõe-se a intersubjetividade como apta a constituir um princípio dinâmico de consensualidade. A intersubjetividade surge como um todo dos tratos comunicativos que se encontram à disposição para o alcance de consenso.
Tem-se lembrado, nessa discussão, da elucidação biológico-evolucionista que vê os determinantes comuns dos "tratos comunicativos" com relação à constituição ontogenética do cérebro humano. A elucidação, vista como suficientemente sólida sob o aspecto de critérios das ciências humanas e naturais, surge como um pressuposto para uma metadisciplinaridade das ciências da comunicação e da mídia.
Considerando-se as dificuldades de legitimação de concepção filosófica de Sujeito, também os cientistas da Comunicação aceitam a discussão sociológica sobre "a morte lenta do sujeito", salientando porém que o debate necessita manter-se aberto a opções extra-sociológicas. A maior parte dos estudiosos operaria com o conceito do observador, o que fundamenta a teoria cognitiva construtivística. Luhmann, sob essa perspectiva crítica, teria radicalizado a discussão sobre a lógica do sujeito ou da posição do sujeito nas teorias sociológicas, alcançando apenas que o "sujeito absoluto" fosse trocado por um "Absolutismo de sistema sem sujeito".
Salienta-se, positivamente, que a perspectiva da intersubjetividade permite fundamentar contextos de forma consensual em áreas mídio-culturais, da ética ou da pragmática da mídia, entre outras. Construtivistas que pensam ciberneticamente procurariam concepções metadisciplinares passíveis de consenso para as Ciências da Comunicação e da Mídia. Todas as ocorrências do interagir entre os homens seriam esclarecidas do contexto das relações recíprocas - da transação comunicativa ou da influência mútua de ação das pessoas envolvidas. Como indivíduos com os seus conhecimentos atuais constituem os conteúdos de sentido na transação medial-comunicativa comum, a Intersubjetividade surge como principio fundamental construtivo da realidade comunicativa.
Crítica sociológica da intersubjetividade
Nessa valorização do conceito de intersubjetividade para a Ciência da Comunicação tem-se procurado fundamentar um conceito sistêmico da Intersubjetividade com base no discurso da transação comunicativa. Essa tentativa de definição foi criticada por sociólogos, pois o conceito de Intersubjetividade tem sido abandonado pelos teóricos de sistema que seguem N. Luhmann. Os teóricos da comunicação teriam utilizado uma concepção de Jürgen Habermas da transação comunicativa, este, porém, nunca definira a intersubjetividade como conceito sistêmico-teórico. Haveria assim, mistura de conceitos provenientes de diferentes edifícios teóricos.
Nenhuma outra ciência além da Sociologia teria utilizado do conceito de comunicação como o seu principal conceito de partida. Sociólogos crêem que sociedades humanas sem comunicação ou transações comunicativas não são possíveis. Para Luhmann, o conceito de intersubjetividade seria porém expressão de uma fraqueza ou impossibilidade elucidativa, que manifestaria que não se pode mais "aguentar o Sujeito" ou não se pode mais determiná-lo. Assim, o conceito não é próprio da Teoria de Sistema sociológica.
Para Luhmann, tudo o que se pode designar com "inter", é observado através de limites de sistema, e assim, para cada sistema há um outro "inter". Não há, por conseguinte, nenhum mundo que possa ser objetivado livre de sistema. Apenas pode-se alcançar que um sistema observe o que o outro sistema observa. A teoria do mundo ontológica deveria ser substituida por uma teoria da observação de segunda ordem, comparável a uma "second cybernetics" de Heinz vn Foerster.
Anotações sumárias do tratado. Grupo Redatorial
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