Academia Brasil-Europa
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ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 117/12 - (2009:1)

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Da Auto-Organização sob a perspectiva teórico-cultural


Trabalhos da A.B.E. Reflexões no Museu da Técnica de Hagen






  1. Local das reflexões. Museu da Técnica em Hagen. Um dos maiores e mais bem instalados museus da história da técnica na Europa. Ferrarias, marcenarias, impressoras, moinhos e outras construções especificas de profissionais de diversas atividades técnicas foram salvas de demolição e reconstruídas no vasto areal do museu, Demonstrações e cursos oferecem possibilidades para o conhecimento de procedimentos e usos do passado e sua comparação com aqueles do Brasil. O museu representa, assim, significativo centro de pesquisas e estudos culturais.

 
Uma das sessões dos trabalhos a da A.B.E. foi destinada à discussão da questão de uma necessária distinção entre auto-organização e autopoiesis segundo N. Luhmann (ponto de partida das reflexões: Dirk Baecker, ed. Einführung in die Systemtheorie, Niklas Luhmann, 2a. ed. 2004, ISBN 3-89670-459-1). A questão que aqui se levantou foi: como é que Luhmann viu esse complexo teórico? Como é que as suas distinções poderiam ser diferenciadas no caso dos estudos culturais tais como tematizados pela A.B:E.?


Ambos os conceitos se fundamentam, segundo Luhmann, numa concepção operativa de sistema e num direcionamento diferencialista. No sistema não haveria outra coisa do que operações próprias para a formação de próprias estruturas. As estruturas de um sistema fechado operacional devem ser construídas através de operações próprias. Não haveria importação de estruturas. Isso significaria auto-organização.


O sistema apenas dispões de operações próprias para determinar a situação histórica e o presente, do qual tudo parte. O presente seria determinado para o sistema pelas próprias operações.


Tem-se assim com duas situações: uma com a Auto-Organização no sentido de produção de uma estrutura a partir de operações proprias e outra com Autopoiesis no sentido de uma determinação do estado do qual se tornam possíveis outras operações.


Auto-Organização


Numa teoria operacionalista, estruturas apenas se encontram atuantes no momento em que o sistema opera. Haveria aqui uma distância com relação às concepções clássicas, nas quais a estrutura representa o constante, enquanto processos ou operações pertencem ao passageiro, temporal. As estruturas nessa teoria operacionalista apenas são relevantes no presente. Elas apenas podem ser utilizadas quando o sistema opera. Tudo o que aconteceu no passado ou que acontecerá no futuro não seriam atuais.


Porque se falaria de Auto-organização? Um sistema pode apenas operar com estruturas nele existentes. Ele não pode importar estruturas. A pesquisa de comunicação atual parte por exemplo do aprendizado de línguas pelas crianças da idéia de que se aprende na própria comunicação, mais do que por aquele que fala.


Sabe-se ainda muito pouco como é que se procede um desenvolvimento de estrutura. Entretanto, não se pode supor que seja comparável com a produção de um objeto no qual os diferentes componentes são combinados. A particularidade da formação de estrutura reside no fato que deve-se repetir, ou seja, alguma situação deve ser compreendida como repetição de outra.  Se tudo sempre é novo não se pode aprender. Para se poder repetir deve-se poder reconhecer, ou seja, são necessárias duas coisas: identificar ou reconhecer indícios de identidades e 2) generalizar, que apesar da diferença da situação se pode utilizar de novo. De um lado há uma redução, de outro uma generalização.


Identificação e generalização podem apenas ser resultados de um sistema psíquico ou em sistema da comunicação. Se esse sistema de comunicação não funcionasse não se aprenderia uma lingua. O sistema de comunicação coloca à disposição palavras ou gestos que podem ser repetidos e também utilizados em outros contextos, ainda que com outros efeitos. Essa paradoxia de especificação e generalização é uma das razões de que apenas podem acontecer dentro de um sistema.


Toda a descrição de estrutura é supratemporal. A observação de uma estrutura exige um observador que esteja em operação, ou que seja o sistema que esteja em operação ou que a operação seja vista na observação de outras operações. Tudo se relativa no tema da contemporaneidade, da presença, da atualidade. O sistema deve estar em operação para poder usar estruturas.


Debate sob a perspectiva teórico-cultural


Quando se quer saber o que é uma estrutura, o que é uma estrutura psicológica, de pessoas, costumes, sistemas sociais, deve-se descrevê-la, e isso é realizado por um observador. Isso justifica uma relativação absoluta da descrição de estruturas. Também as projeções no passado, ou seja, a recorrência ao passado e as previsões de futuro se devem sujeitar a essa teoria. A estrutura atua apenas no momento, na atualidade, e o que é usado de dados do passado no momento se relaciona com o que é atualizado de projeções futuras. Só no presente haveria o acoplamento daquilo que se chama comumente de memória, ou daquilo que se chama projeção, ou objetivos, quando se pensa em ações.


Para Luhmann, seria importante lembrar que a memória não seria passado guardado. O passado é passado e não pode tornar-se atual. A memória seria antes uma espécie de exame de consistência. Decisivo para aquilo que se queira atingir no futuro no contexto de expectativas, de anticipações, de objetivos é a chamada atual, o exame atual da sua amplitude de aplicação, de estruturas. Haveria um elo entre a teoria da memória e uma orientação pragmática com relação ao futuro, de modo que se poderia dizer que a memória não seria outra coisa do que o exame de consistência de informações diversas em função de certas expectativas, seja daquilo que se queira atingir, seja daquilo que se receia e contra o qual se quer reagir. Não se trataria, assim, de um depósito ou celeiro da memória. Não há um passado que seria conservado em certas células, mas há um cross-checking, um exame de costumes diversos de diferentes épocas e motivações.


Por essa razão, toma-se o conceito de expectativa como fundamento da definição de estruturas. Estruturas seriam expectativas em função da capacidade de acoplamento de operações, seja de ação, de expectativas e da vivência.


Crítica da noção de expectativa


A crítica dessa noção de expectativa vê aqui uma subjetivação da concepção de estrutura. A tradição do conceito de expectativa é porém muito mais antiga e não diz respeito apenas a estruturas psíquicas. Na psicologia dos anos 30, o conceito de expectativa foi introduzido para aguçar o modêlo de Input-Output ou Stimulus-Response, salientando que essa relação não é rígida, mas controlada pelas expectativas do sistema. Pode-se identificar um Stimulus apenas quando se tem certas expectativas.


Para uma teoria, que define o conceito de estrutura a partir de expectativas, a diferença entre sujeito e objeto não surge como relevante. A teoria aqui difere daquela que vê na estrutura, sobretudo também na social, algo objetivo, sem relativá-las com o que cada pessoa pensa. A teoria de sistema elucidada por Luhmann, porém, procura abandonar a diferença entre sujeito-objeto e substituí-la pela diferença da operação que um sistema desenvolve e, por outro lado, da observação dessa operação pelo próprio sistema ou por outro sistema.


O conceito de expectativa não representaria um componente subjetivo. Esse conceito levanta a questão de como estruturas levam à redução de complexidade. Como é que se pode imaginar que um sistema disponha de uma ampla seleção de estrutura, por exemplo, de lingua, sem perder a diversidade de estrutura.


No conceito de estrutura deve-se esclarecer por que o sistema não diminui quando faz decisões constantes ou desenvolve operações, mas até mesmo cresce em complexidade. Quanto mais possibilidades tem um sistema, tal como a língua, tanto mais seletivas são as suas frases, tanto menos esterotipados é o discurso. Um exemplo seria a forma estereotipada de linguagem de classes sociais inferiores e de classes superiores de uma sociedade. Uma linguagem elaborada encontra em todas as situações a palavra adequada. Essa situação deve ser considerada no conceito de estrutura. A complexidade estrutural deve ser vinculada à capacidade operativa. Máquinas triviais têm apenas uma operação determinada pelo programa e pelo Input. Sistemas estruturais complexos atuam a determinação a situações e possuem por assim dizer os seus próprios pensamentos, de modo que os sistemas possuem um repertório mais rico de possibilidades de ação. O problema diz respeito ao esclarecimento dessas questões, e para isso o conceito de estrutura é importante, não tanto para a questão de uma decisão entre subjetividade e objetividade.


(...)


Anotações sumárias do discutido. Grupo Redatorial











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Doc. N° 2416