Academia Brasil-Europa
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ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 122/278 - (2009:6)

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  1. O homem no tempo, o homem na idéia e os dois tipos de Estado
    Do selvagem e do bárbaro

    Sobre a Educação Estética do Homem IV



Trabalhos da Academia Brasil-Europa relativos aos estudos culturais Alemanha-Brasil 2009 pelos 250 anos de F. v. Schiller sob a direção-geral de A.A.Bispo
Bad Arolsen, Museu Christian Daniel Rauch




Imagens de obras de Christian Daniel Rauch, escultor nascido em Arolsen (1777-1857). Exposição no Marstall da Residência dos Príncipes de Waldeck e Pyrmont.
Trabalhos da Academia Brasil-Europa em Bad Arolsen. Fotos H. Huelskath 2009

 
Ponto de partida das reflexões na quarta carta do "Sôbre a Educação Estética do Homem" ("Über die ästhetische Erziehung des Menschen") de F. Schiller é processo descrito na sua terceira carta. Aqui, considerando a necessidade de conservação do homem físico e da sociedade natural durante o processo de seu desenvolvimento em direção ao homem ético e à sociedade ética, chega à conclusão de que o caráter do homem preso às necessidades impostas pelo mundo material, marcado por egoísmo e violência, tende, nesse processo, a impedir a própria conservação da sociedade material, ou seja, tende a destruí-la. Ao mesmo tempo, o seu caráter como homem ético ainda não se encontra desenvolvido. Por essa razão, torna-se necessário partir da concepção de um terceiro caráter que, aparentado com o primeiro, sensorial, prepare a passagem de uma situação de domínio das forças da natureza àquelas ditadas pela razão.

Caráter e natureza no desenvolvimento de um estado ético

Apenas o predomínio desse caráter aqui esboçado pode fazer com que a transformação do homem e de uma sociedade em direção ao estado regido segundo princípios éticos não seja prejudicial a um determinado povo. Somente um tal caráter pode garantí-lo de forma duradoura. O estabelecimento de um estado ético é visto como produto da lei dos costumes como uma força atuante, e a livre vontade é inserida no terreno das causas, onde tudo se relaciona entre si segundo rígida necessidade e continuidade. Sabe-se, porém, que as determinações da vontade do homem sempre são imprevisíveis, e que apenas num ser absoluto a necessidade física e a ética se identificam. Assim, quando se quer contar com o comportamento do homem assim como com sucessos naturais, deve-se partir da natureza, e êle deve ser levado pelos seus instintos a um proceder que tem como resultado um caráter ético.

Vontade entre o dever e tendências. Instintos e razão

A vontade do homem situa-se completamente livre entre o dever e a tendência, e nesse direito de sua pessoa não deve agir nenhuma opressão física. Ele deve manter essa sua capacidade de escolha e, ao mesmo tempo, ser um membro das relações causais. Isso apenas pode ser alcançado se ambas as molas propulsoras no terreno dos fenômenos forem perfeitamente iguais e, apesar de toda a diversidade da forma, perdure a vontade da matéria. A concordância entre os instintos e a razão deve ser suficiente e capaz de levar a uma legislação global.

Homem ideal e concepção de Estado. Concordância entre variabilidade e unidade imutável

Todo o homem, como indivíduo, traz em si a disposição e a determinação de ser um homem ideal puro, e a grande tarefa de sua existência é alcançar a concordância de sua variabilidade com a unidade imutável. Esse homem ideal, puramente Humano, que pode ser reconhecido com maior ou menor clareza em cada indivíduo, é representado pelo Estado, a forma objetiva e por assim dizer canônica, no qual a variedade dos indivíduos se procura unificar. Pode-se porém imaginar dois tipos de como o homem no tempo e o homem na idéia se identificam, e também dois tipos de como o Estado se pode afirmar nos indivíduos: ou pela opressão do homem empírico pelo ideal, suprimindo o estado os indivíduos, ou tornando-se o indivíduo Estado, de modo que o homem no tempo se nobilite, tornando-se o homem na idéia.

Perspectiva antropológica global. Forma e matéria, razão e natureza, unidade e variedade

Não há essa distinção sob a apreciação unilateralmente ética, pois a razão se satisfaz quando a sua lei vale sem condições. Ela tem vigência porém sob o ponto de vista antropológico global, onde vale a forma e o conteúdo, e onde tem-se a voz do sentimento vital. A razão exige a unidade, a natureza a variedade, e o homem é requisitado por ambas as legislações. A lei da primeira é fornecida pela sua mente, a lei da segunda pelas sensações.

Há uma educação insuficiente se o caráter ético apenas pode afirmar-se com o sacrifício do natural. Uma constituição de Estado será ainda bem imperfeita se exiger a suspensão da variedade para o alcance da unidade. O Estado não deve apenas honrar o caráter objetivo e genérico, mas sim também o específico nos indivíduos, ampliando o império invisível dos costumes sem empobrecer o império das aparências.

Arte da Pedagogia e da Política não é a do artesão

Quando o artista mecânico coloca a sua mão na matéria informe para lhe dar forma segundo o seu objetivo, não tem receio de violentá-la. Não pensa no Todo a partir de suas partes constituintes, mas sim utiliza as partes a favor do Todo. Se o artista coloca a sua mão na mesma massa para criar uma obra, também não tem problemas em agir de forma violenta, apenas evita demostrá-la. A matéria não é aqui respeitada mais do que no caso do artesão. Aque que observa, porém, é enganado, e supõe que a matéria foi respeitada na sua liberdade. Completamente diferente é o caso do artista pedagógico e político, para o qual o homem é ao mesmo tempo material e finalidade. Aqui, o objetivo retorna à matéria, e só porque o Todo serve às partes é que as partes se submetem ao Todo. Com um respeito completamente diverso daquele do artista perante a matéria, o artista do Estado deve-se aproximar da sua, poupando-a não apenas de forma subjetiva e para um efeito que ilude os sentidos, mas sim de forma objetiva e essencial, na sua particularidade e personalidade.

Afinação das partes com a idéia do Todo. Contra o totalitarismo

Pelo fato do Estado dever ser uma organização que se forma através de si e para si, pode-se tornar apenas real se as partes se afinarem com a idéia do todo. Pelo fato do Estado se tornar representante de uma humanidade ideal e objetiva, procura observar nos seus

Imagens de obras de Christian Daniel Rauch, escultor nascido em Arolsen (1777-1857). Exposição no Marstall da Residência dos Príncipes de Waldeck e Pyrmont. Trabalhos da Academia Brasil-Europa em Bad Arolsen. Fotos H. Huelskath 2009

cidadãos o mesmo relacionamento no qual se encontra, considerando a sua humanidade subjetiva à medida em que essa se nobilite em direção à objetiva.

Se o homem interior é uno em si, também saberá salvar a sua particularidade na mais ampla universalização de seu comportamento, e o Estado se transforma em intérprete de seu impulso, a expressão mais clara de sua legislação interna. Se instituir, porém, no caráter de seu povo o homem subjetivo de forma contraditória ao objetivo, de modo que apenas através da opressão do primeiro o segundo sai vitorioso, então o Estado aplicará contra os seus cidadãos a rigidez da lei e, para não ser sacrificado, procurará sem escrúpulos oprimir toda individualidade oponente.

Diferenciação do homem. O selvagem e o bárbaro

O homem pode diferenciar-se de dois modos. É selvagem, quando as suas sensações dominam sobre os seus princípios. É bárbaro, quando os seus princípios destroem os seus sentimentos. O selvagem menospreza a arte e vê na natureza a sua dominadora irrestrita. O bárbaro ridiculariza e desonra a natureza, mas continua a ser escravo de forma ainda mais desrespeitosa do que o selvagem. O homem educado, porém, faz da natureza a sua amiga e respeita a sua liberdade, apenas controlando a sua arbitrariedade.

Plenitude de caráter e Estado da liberdade

Assim, se a razão traz à sociedade física a sua unidade moral, então não deve ferir a diversidade da natureza. Se a natureza procura manter a sua variedade no processo de construção ética da sociedade, não deve levar a uma diminuição da unidade ética. A forma que será vitoriosa encontra-se à distância tanto da homogeneização como da confusão. Plenitude de caráter deve assim ser encontrado no povo que é capaz e digno de trocar o Estado da necessidade pelo Estado da liberdade.

Veja comentários de outras cartas da obra de Schiller nesta edição. O relato dos trabalhos terá prosseguimento no próximo número.



  1. Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu


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Doc. N° 2524