Exigência ética e o Humano (Schiller). BRASIL-EUROPA 122/26(2009:6). Bispo, A.A.(ed.).

Revista

BRASIL-EUROPA

Correspondência Euro-Brasileira©

Prof. Dr. A.A. Bispo, Dr. H.Hülskath (editores) e Conselho Científico

Organização de estudos teóricos de processos interculturais e estudos culturais nas relações internacionais (registrada 1968)

 


Academia Brasil-Europa
de Ciência da Cultura e da Ciência (Culturologia e Sociologia da Ciência)
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ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 122/26 - (2009:6)

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Da necessidade material à exigência ética e o despertar do Humano. Recuperação do estado ético ideal
Sobre a Educação Estética do Homem III

Trabalhos da Academia Brasil-Europa relativos aos estudos culturais Alemanha-Brasil 2009 pelos 250 anos de F. v. Schiller sob a direção-geral de A.A.Bispo
Bad Arolsen, Museu Christian Daniel Rauch




Imagens de obras de Christian Daniel Rauch, escultor nascido em Arolsen (1777-1857). Exposição no Marstall da Residência dos Príncipes de Waldeck e Pyrmont.
Trabalhos da Academia Brasil-Europa em Bad Arolsen. Fotos H. Huelskath 2009

 
No caminho de sua argumentação, Schiller chegou, na carta III de seu texto sobre "Sôbre a Educação Estética do Homem" ("Über die ästhetische Erziehung des Menschen"), à afirmação de que a Estética deve procurar uma solução para o  problema político na prática, uma vez que é a Beleza o caminho pelo qual se chega à liberdade. A prova disso, porém, não poderia ser apresentada sem trazer à memória os princípios pelos quais a razão seria guiada no legislar político.

Na terceira carta, partindo desse intento, começa considerando a ação do mundo material no homem que ainda se encontra preso a seus ditames. Nesta situação, a natureza procede com o homem de forma não diferente do que nas suas outras obras. Ela age em seu nome, onde êle ainda não pode agir como ser de inteligência livre. O que faz o homem verdadeiramente humano é o fato de não ficar naquilo que a natureza dele faz, mas sim o de possuir a capacidade de, através da razão, dar passos para atrás naquilo que a natureza antecipou, fazendo da obra da necessidade uma de sua própria escolha, e elevando a necessidade física a uma exigência da ética.

Capacidade de determinar a necessidade. Da física à exigência ética

O homem, ao despertar do estado de adormecimento em que se encontra no mundo material que êle percebe pelos sentidos, reconhece-se como ser humano. Olha a seu redor e vê-se. A força das necessidades materiais e corporais o atirara no mundo percebido pelos sentidos, antes que a sua liberdade tivesse estado capaz de escolher a situação. A necessidade o prepara segundo leis naturais, antes que possa direcioná-lo segundo as leis da razão.

Com esse estado das necessidades, originado apenas de sua determinação natural e a ela direcionado, o homem não pode satisfazer-se como pessoa ética, e seria péssimo se isso acontecesse. Assim, com os mesmos direitos pelos quais é ser humano, abandona o domínio da necessidade cega, Isso o faz através de sua liberdade e pelo caminho da beleza.

Maioridade do Homem e emancipação de uma nação: do estado natural ao ético

Assim, de forma artificial, o homem recupera, na sua maioridade, a sua infância, forma na sua idéia um estado natural, que, apesar de ser-lhe dado pela experiências, é ditado como necessário pela razão. Nesse estado ideal, vê uma finalidade que não conhecia no seu estado natural e faz uma escolha, que antes não tinha a capacidade de fazer.  Procede da mesma forma como se iniciasse de novo, e passa, em decisão livre e visão clara de uma situação de dependência a uma situação contratual. Nessa operação, pode considerar como se tal dependência não tivesse ocorrido, por mais refinadas tivessem sido a sua vontade cega e a sua aparente nobreza. A obra das forças cegas não possui autoridade perante a qual a liberdade se necessite curvar e tudo se deve submeter ao fim mais elevado colocado pela razão na sua personalidade. Desse modo origina-se e justifica-se a tentativa de um povo que se emancipa e que transforma o seu estado natural em estado ético.

Homem físico e o estado natural

Como Estado natural poderia ser chamado todo o corpo político que é constituído originalmente por forças, não por leis. Esse estado contraria o homem de princípios éticos, o qual as leis naturais querem reger. Esse estado natural basta para o homem físico, que encontra leis apenas para arranjar-se com as forças. O homem físico é o real, o ético questão da inquirição.

A razão suspende o estado natural, o que faz quando quer instituir o seu domínio. Ela considera o homem físico e real nos seus questionamentos a partir do homem ideal e, correspondentemente, a existência da sociedade orientada por um ideal de sociedade. Nesse processo, ela tira do homem algo que êle possui, e o direciona a algo que êle poderia e deveria possuir. Dele retira elementos do estado bruto que ainda representam condição para a sua humanidade. Antes que tivesse tempo de se agarrar na lei com a sua vontade, tira-se-lhe dele assim a base preparada pela natureza.

Permanência do homem físico no desenvolver do homem ético

A grande questão diz respeito, assim, ao fato de que a sociedade física, sujeita ao tempo, não pode em nenhum momento extinguir-se enquanto a sociedade ética se encontra na idéia, ou seja, em processo de formação. Pela dignidade do homem, a sua existência não pode ser posta em risco. Quando um artista trabalha no aperfeiçoamento de uma obra de relojoaria, deve deixar que o seu mecanismo funcione; o relógio do Estado deve ser aprimorado durante o seu pulsar, tratando-se assim de trocar as roldanas durante o seu girar. Deve-se, assim, procurar um apoio para o perdurar da sociedade ainda dependente das forças do estado natural que se quer dissolver.

Caráter físico e a liberdade do caráter ético. Terceiro caráter

Apoio para a manutenção do homem físico - e da sociedade natural - no processo de desenvolvimento do homem ético não se encontra no caráter do homem material, que, egoísta e violento, é dirigido antes à destruição do que à conservação da sociedade. Ele também não se encontra no seu caráter ético, que necessita ainda ser formado e, por ser livre e por não se manifestar, não pode ser levado ainda em conta com segurança. Trata-se de distinguir o caráter físico e a liberdade do ético, adequando o primeiro a leis, e o segundo a impressões. O primeiro deve distanciar-se gradativamente da matéria, o segundo, dela aproximar-se. Cria-se, assim, um terceiro caráter, que, aparentado com o primeiro, prepara a passagem do domínio das forças cruas à soberania das leis e, sem prejudicar o caráter moral no seu desenvolvimento, serve ao ético invisível como preito sensorial.

Veja comentários de outras cartas da obra de Schiller nesta edição. O relato dos trabalhos terá prosseguimento no próximo número.



  1. Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu


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Doc. N° 2523