Catedral de São Paulo de Wellington e a recepção do estilo missionário ibérico no Pacífico
Ciclo de estudos da A.B.E. de Cultura e Ética nos Estudos Interculturais, sob a direção de A.A.Bispo Wellington, Nova Zelândia
Esquerda: imagens da Catedral de São Paulo, Wellington
Direita: imagens da igreja de Old St. Paul's, Wellington
Fotos A.A.Bispo 2009
Nos estudos de contextos atlântico-pacíficos que estão sendo desenvolvidos pela A.B.E. procurou-se considerar, no Ano Paulo de 2008/2009, o papel desempenhado pela veneração do Apóstolo em diferentes contextos confessionais de regiões de formação colonial do Hemisfério Sul.
O significado extraordinário de S. Paulo para os estudos culturais em contextos globais, sobretudo daqueles relacionados com viagens e missões tem o seu fundamento no fato de ser este o „Apóstolo dos Povos“, cuja própria história é estreitamente relacionada com o confronto e transformação de culturas, com viagens e com a ação em contextos culturais distantes.
Se a presença e a relevância histórico-cultural do Apóstolo podem ser facilmente reconhecidas no mundo de formação colonial católica portuguesa, onde o seu nome designa estados e cidades de extraordinária importância, tais como a própria metrópole e o Estado de São Paulo e, em Angola, São Paulo de Luanda, pouco se tem considerado o significado de Paulo nos círculos evangélicos de lingua alemã e na esfera colonial britânica. Essa consideração surge, porém, como uma exigência para o estudo de imagens e concepções da história da expansão da cultura ocidental no Hemisfério Sul, também e sobretudo sob o aspecto de seus relacionamentos e suas intersecções. Sem entrar em questões especificamente teológicas, uma consideração ampla e ecumênica do Ano Paulo pode ser alcançada através de perspectivações e questionamentos teórico-culturais. Além do seu significado científico, talvez resida aqui também um caminho para a superação de impasses no debate interconfessional.
Sob o enfoque da esfera britânica no mundo, não se pode esquecer que a Catedral de São Paulo, em Londres, não é apenas uma das mais importantes igrejas da Grã-Bretanha e do mundo anglicano, mas também uma maiores expressões da história da arquitetura européia. A igreja, construída a partir de 1666 com projeto de Christopher Wren (1632-1723) para substituir uma anterior destruída pelo grande incêndio de Londres, situa-se em local de antiga tradição da veneração paulina. A primeira igreja episcopal dedicada ao Apóstolo foi construída em madeira, por Mellitus, no ano 604, tendo sido destruída pelo fogo algumas décadas mais tarde (675). Após diferentes reconstruções, foi reedificada pelos normandos, em 1087. A catedral foi consagrada em 1300, sendo uma das mais longas e altas do mundo medieval. A Catedral de São Paulo transformou-se nos séculos seguintes em símbolo da identidade religiosa dos inglêses, também nas suas ações em diferentes partes do globo.
Old St. Paul‘s, Wellington
Uma das mais relevantes expressões do culto a São Paulo no mundo colonial britânico pode ser encontrada em Wellington, na Nova Zelândia. A atual Catedral de São Paulo, sede episcopal da Diocese Anglicana de Wellington, desde 1964, sucedeu a uma primeira capela dos colonos e também a uma segunda igreja, a Old St. Paul‘s. Esta, ainda existente, é parte expressiva do patrimônio histórico-cultural da Nova Zelândia. Foi iniciada em 1855 e serviu como pró-catedral por quase cem anos, de 1866 a 1964. Construída de madeira, representa um exemplo de relevância extraordinária na história da arquitetura da expansão européia no mundo. Surge quase como uma transplantação de construções sacras nórdico- e centro-européias, com características e qualidades que sugerem, à primeira vista, um passado secular. Apresenta elementos construtivos e estilísticos de diferentes origens, em particular britânicos e alemães. Foi construída em terras adquiridas pelo bispo George Augustus Selwyn (1809-1878), em 1845, primeiro bispo da Nova Zelândia (1858-1868) e um dos principais representantes da expansão missionária do Anglicanismo no Pacífico. Em 1853, a propriedade foi acrescida com terras de uma reserva Maori. A igreja foi projetada pelo Rev. Frederick Thatcher, um clérigo e arquiteto inglês. A sua consagração deu-se em 1866.
Apesar de sua evidente importância cultural e religiosa, a Old St. Paul‘s estava destinada a ser demolida após a inauguração da nova Catedral, o que levou a uma das mais intensas polêmicas e à sua aquisição pelo Estado, passando a ser inserida no rol dos monumentos do patrimônio histórico nacional (New Zealand Historic Places Trust). Com isso, a igreja adquiriu também um valor de marco na história dos processos de conscientização histórica e da identidade cultural da Nova Zelândia e, em geral, do mundo colonial da esfera britânica.
Catedral de São Paulo, Wellington
A (nova) Catedral de São Paulo, em Wellington, está situada em posição elevada e privilegiada, próxima à area parlamentar. A diversidade de estilos que marca esse espaço é por ela acrescida de forma a surpreender o observador. Essa surprêsa é causada pelo aspecto inesperado de sua arquitetura, sentida como muitos como singular para um edifício religioso. Tendo sido iniciada em 1955, e completada apenas em 1998, apesar de seguir projetos mais antigos, surge como curiosamente anacrônica. Para o observador brasileiro, que esperaria aqui antes uma catedral eclético-neogótica como a de São Paulo, surge como uma igreja que poderia ser esperada antes em algum bairro da metrópole paulista: a catedral de São Paulo ficaria talvez melhor em Wellington, a de Wellington na Aclimação ou no Pacaembú.
Tais posições críticas, que denotam perplexidade, não diminuem a importância da catedral no âmbito do Anglicanismo e da história mais recente do país. Essa importância é testemunhada pela exposição, no seu interior, de documentos relativos à sua consagração com a presença da Rainha Elizabeth. Particular menção deve ser feito ao papel da Catedral sob o ponto de vista da vida musical de Wellington. Devido às favoráveis condições acústicas do espaço, abriga anualmente numerosos concertos e recitais.
Cecil Walter Wood (1878-1947) e a história colonial recente da arquitetura
Uma leitura e uma apreciação justa dessa expressão arquitetônica, por muitos vista como „patchwork“, parece ser possível apenas a partir de enfoques histórico-culturais das particularidades do mundo colonial da Nova Zelândia.
O arquiteto que realizou o projeto inicial da Catedral de Wellington, Cecil Walter Wood, nasceu numa cidade profundamente marcada pela tradição britânica do historismo do século XIX, apresentando-se como mais européia do que muitas cidades européias, um exemplo expressivo de transplantação do neogótico vitoriano: Christchurch.
Após ter recebido a sua formação na Christchurch West School e na Canterbury Colle Scholl of Art, teve o seu aprendizado na prática construtiva com Frederick W. Strouts, renomado arquiteto de Christchurch. Estudou arquitetura na School of Art, sobretudo com Samuel Hurst Seager. Aqui teve o seu primeiro contacto com o movimento do Arts and Crafts britânico. Após ter trabalhado para os arquitetos William Clarkson e Robert Ballantyne, transferiu-se, em 1901, à Inglaterra. Aqui atuou como desenhista na Housing Division do London Conty Council‘s Architect‘s Department e, a seguir, com os arquitetos Robert Weir Schultze e Leonard Stokes, representantes do movimento de Arts and Crafts. Conheceu, em Londres, a linguagem de William Morris e o Art Nouveau.
Em 1906, retornou à Nova Zelândia, trazendo novos impulsos para a renovação da arquitetura. Foi, assim, um agente da manutenção da continuidade colonial com o desenvolvimento na Inglaterra, ao mesmo tempo atualizando a arquitetura da Nova Zelândia. Atuou juntamente com Samuel Hurst Seager, fundando uma empresa que se tornaria posteriormente Hurst Seager, Wood, and Munnings. Pouco tempo depois, passou a trabalhar por conta própria, sobretudo na construção de residências em bairros suburbanos e rurais, construções marcadas pela excelência do material empregado, pela qualidade técnico-artesanal e signicativas por representarem a transferência do estilo Arts and Crafts para o país. Projetou o Hare Memorial Library para o Christ‘s College, completada em 1916.
Após ter servido durante a Primeira Guerra, na Inglaterra e na França, construiu, entre 1923 e 1925, o Memorial Dining Hall do Christ‘s College, seguindo assim a principal tradição arquitetônica local, ainda impregnada do espírito vitoriano. A partir de 1922, inspirou-se sobretudo no estilo neo-georgiano que correspondia a tendências estéticas da Inglaterra e da América do Norte. Também aqui unia uma tendência conservadora àquela de atualização da arquitetura colonial segundo desenvolvimentos europeus. Um exemplo dessas obras foi a Weston house, em Christchurch (1923/4). Influências norteamericanas denotam o Anderson Park, Invercargill (1924/5) e Bishopscourt (1926/27), assim como a Green house, também em Christchurch (1928).
Nas décadas de vinte e trinta projetou vários edifícios públicos e comerciais, tentando combinar a construção em concreto armado com fachadas de inspiração clássica. Construiu, entre outros, o State Fire and Accident Insurance Office Building (1933-34), com motivos Art Deco e da tradição Maori. O Hereford Street Post Office (1937), em Christchurch, apresenta elementos de um discretop modernismo. Construiu os Public Trust Offices em Christchurch e Dunedin.Tornou-se personalidade de ampla influência na arquitetura da Nova Zelândia, participando como consultor e jurado de vários concursos, entre eles para o National War Memorial em Wellington, para a Wellington Public Library e para o War Memorial Museum. Foi presidende do New Zealand Institute of Architects (1937/38).
Como arquiteto de edifícios religiosos, projetou igrejas em várias localidades, em Woodend (1932), Fendalton (1925/6), Taitapu (1930/1) e outras. Em geral foram pequenas igrejas, projetadas em estilo neogótico modificado, com influências do movimento Arts and Crafts. A sua grande obra na esfera da arquitetura religiosa foi a Catedral de Wellington, para a qual foi comissionado em 1937 e para a qual realizou estudos de arquitetura sacra em viagens ao Exterior. Em 1938, fêz observações na Inglaterra e outros países europeus, assim como nos Estados Unidos. Ficou particularmente impressionado com a obra de dois arquitetos suecos, Ivar Tengbom e Ragnar Östberg. A influência do estilo desses arquitetos, assim como o do Art Deco e o seu fascínio pela arquitetura religiosa do perído colonial espanhol marcaram o projeto completado em 1945 e que, pelo seu cunho eclético, foi altamente criticado. A sua preocupação foi a de conciliar o emprêgo do concreto armado as concepções tradicionais da arquitetura sacra. A obra deveria ter inicialmente uma estrutura gótica, de pedra ou de tijolos, mas o terremoto sofrido pela cidade na década de trinta levou à sua construção em concreto. Falecendo antes da obra ter sido iniciada, o seu projeto foi reformulado por Robert Munro. A obra foi iniciada apenas em 1956 segundo uma versão simplificada e alterada. Em 1992, os arquitetos Warren e Mahoney completaram o projeto.
O Mission Revival em diversos contextos
O histórico de Cecil Walter Wood indica alguns significativos aspectos do desenvolvimento arquitetônico na Nova Zelândia após o período vitoriano. Sob o enfoque dos estudos culturais, surge como singular a passagem, no mundo colonial, do universo neogótico e neoclássico a novas tendências da arquitetura rememorativa da época colonial e missionária de outros contextos. O mundo missionário católico ibérico da Califórnia, porém, revivido no século XX, tem raízes muito mais remotas do que aquela da história missionária anglicana da Nova Zelândia. Duas ou mais concepções de Colonia, do Colonial e da arte colonial se confrontam. Em situação política ainda vigente de colonização, a linguagem é profundamente européia, quase que em verdadeira transplantação. Considerando-se a vitória dos aliados na Primeira Guerra Mundial, e a consequente intensificação de uma auto-consciência de valores do universo cultural de elos britânicos no mundo, pode-se explicar uma quase que paradoxal tendência à renovação das expressões coloniais no Pacífico através de uma linguagem que denota uma conscientização da arte colonial e missionária de outro país de língua inglêsa, os Estados Unidos. Essa situação complexa de concepções do colonial corresponde e ao mesmo tempo difere do neocolonial constatado em países da América Latina na época, seja por exemplo no Chile ou no Brasil (Veja artigos anteriores nessa revista).
É curioso constatar-se que, no cenário urbano profundamente inglês de Christchurch uma das singularidades arquitetônicas e culturais locais é uma rua com casas em „estilo missionário espanhol“, a New Regent Street. Essa rua, aberta no local onde existira anteriormente o Colosseum, um edifício de múltiplas funções, é apreciada como único exemplo de via marcada por homogeneidade estilística do país. O significado desse „estilo missionário“ apenas pode ser entendido sob o pano de fundo do Mission Revival style californiano da passagem do século e que influenciou a obra de arquitetos de Santa Barbara, entre êles A. P. Brown e F. W. Wilson, representado, entre outros, pelo Spanish-Moorisch Santa Barbara County Courthouse, projetada por William Mooser e terminada em 1929. A presença cultural euro-latinoamericana na Nova Zelândia, portanto, perpetuada nessa arquitetura introduzida por caminhos complexos e paradoxais não pode deixar de ser considerada em estudos relativos ao Colonial e à imagem dos países da América Latina no Pacífico.
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