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ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 120/14 - (2009:4)

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Consequências culturais da Primeira Guerra em contextos globais

Intensificação da influência cultural francesa no Hemisfério Sul


Ciclo de estudos da A.B.E. de Cultura e Ética nos Estudos Interculturais, sob a direção de A.A.Bispo. Bunbury, Perth, Hobart





1 e 2 - Bunbury; 3 - Perth; 4 e 5 - Hobart

Fotos A.A.Bispo 2009

 
Na literatura referente aos anos 20 no Brasil tem-se salientado o extraordinário significado representado pela influência francesa no pensamento do país, nas suas iniciativas culturais e na obra de escritores, músicos, pintores e artistas plásticos. Salienta-se, também a presença de intelectuais e artistas brasileiros na França, onde receberam impulsos e divulgaram a sua obra. Se esse significado cultural das relações França-Brasil não era recente na época, uma vez que a influência francesa na vida cultural, científica e social do país já era de longa data, como justamente considerado em várias publicações, constata-se, na década de vinte, não apenas uma intensificação da presença da França no Brasil e do Brasil na França, mas sim o de uma nova orientação e uma nova qualidade nas relações.


Não basta, aqui, como geralmente é feito, lembrar da importância de Paris como centro europeu de extraordinária importância cultural e irradiação, despertador do fascínio dos latinoamericanos, assim como não seria suficiente relativamente ao Brasil concentrar a atenção apenas no Rio de Janeiro, capital então que, pelas suas belezas naturais, dominava a imagem do Brasil na Europa. Uma reorientação dos estudos culturais, como vem sendo propugnada pela A.B.E. já há décadas, exige a consideração mais cuidadosa de relações internas na própria Europa e do papel que a sua dinâmica desempenhou em processos culturais euro-brasileiros. Sob esse aspecto, o exame da história cultural da década de vinte tem como fundamental pressuposto a consideração da Primeira Guerra Mundial e a da nova situação criada pela vitória das forças aliadas.


Esse direcionamento da atenção a contextos e processos mais amplos não traz apenas uma contribuição acessória aos conhecimentos, mas sim permite novas focalizações e um certo distanciamento renovador com relação a posições que já se tornaram convencionais e que não deixam de refletir perspectivas nacionais e a auto-consciência por parte da França vitoriosa de nação da cultura e da civilização por excelência.


Os Anzacs na Primeira Guerra Mundial


O intensificação da influência francesa no mundo de após-Guerra pode ser examinado de forma mais imediatamente compreensível no âmbito da esfera colonial britânica. Aqui tem-se uma situação diferente daquela da brasileira, mais evidenciadora da nova situação, uma vez que essas regiões não possuíam do passado elos culturais com a França tão intensos  como o Brasil. Esses estudos podem contribuir, por outro lado, àqueles dedicados a relações Atlântico/Pacífico estudadas pela A.B.E. e relatadas já em parte em textos publicados em números anteriores desta revista.


Uma especial consideração deve ser dada, neste contexto, ao papel da Austrália e da Nova Zelândia na Primeira Guerra e as consequências que a vitória dos aliados trouxe para a vida cultural e político-cultural desses países nas suas relações com a Europa. O significado da participação de seus soldados na Guerra manifesta-se na Austrália e na Nova Zelândia pela constante presença de sua memória em monumentos e exposições museus. O número e a importância desses locais de homenagem mortuária e de comemoração da vitória surpreendem em comparação com o Brasil. Entre êles, cumpre aqui mencionar, como exemplos, os de Perth, de Bunbury e de Hobart.


Soldados da Austrália e da Nova Zelândia, conhecidos sob a denominação de Anzacs, fizeram parte dos primeiros corpos desembarcados em Gallipoli, península turca, em 26 de abril de 1915. O plano dos aliados era o de estabelecer ali uma base para operações destinadas à conquista de Istambul. A iniciativa falhou, e a perda de vidas foi imensa (Dardanelles Campaign).


Após a Guerra, comemorou-se essa data a 26 de abril de 1919 com a presença de 400 desses soldados em banquete presidido pelo Primeiro Ministro da Austrália, M. William Hughes (1862-1952). No decorrer desse banquete, um dos mais destacados generais franceses, o General Paul Pau (1848-1932), que havia comandado o exército da Alsácia no início da Guerra, apresentou o reconhecimento definitivo que a França conservaria para com a Austrália e a Nova Zelândia. Esse General acabava de vir de uma viagem a esses países, onde dirigira por algumas semanas uma missão diplomática, militar e econômica após o falecimentode M. Albert Métin (1871-1918) em San Francisco.


Missão francêsa na Austrália e o estreitamento de laços franco-australianos


A missão francesa durara oito meses e percorrera na Austrália ca. de 80.000 quilômetros. Constatou-se por toda a parte o prestígio que a França passara a gozar como nação vitoriosa. Segundo comentaristas franceses, havia um outro fator que contribuia a tal estreitamento de relações entre a França e os Dominions: o fato de que dezenas de militares australianos, neo-zeelandeses e canadenses terem sido acolhidos e residido em casas francesas, admitidos no íntimo das famílias, em esfera doméstica que dificilmente se abrira a estrangeiros no período anterior à Guerra. A missão francesa, chegando em momento em que o combate dera lugar ao triunfo comum, permitiu que o entusiasmo se concentrasse na passagem da missão. O próprio govêrno australiano conferiu ao General Pau o grau de general e a seu ajudante o grau de coronel no exército australiano.


A missão desembarcou em Sydney, em 10 de setembro de 1918 e percorreu a Nova Gales do Sul, Queensland, Victoria, Tasmania, Austrália Meridional e Ocidental. Atravessando todo o continente, embarcou de Melbourne a Auckland para visitar a Nova Zelândia, lançando por todo lugar bases para relações mais estreitas entre os Dominions e a França. Sobretudo o Queensland foi reconhecido pelos franceses pela quantidade de soldades enviados e pelo envio de navios com suprimentos. Os participantes da missão observaram as minas de ouro da Austrália meridional e a sua indústria de couros em vista a futuros intercâmbios comerciais, ainda porém prejudicados pelas dificuldades de transporte impostas pela distância.


Nova política de „civilização“ de aborígenes


Os membros da missão sob a direção do General Pau tiveram a oportunidade de conhecer os „procedimentos civilizatórios“ empregados pelo Govêrno australiano relativamente aos nativos da Tasmânia. Esses eram em parte retirados de suas reservas e disseminados por todo o país. Em colonias, recebiam uma educação apropriada e se tornavam agricultores e operários de usinas.


Esse método de „civilização“ dos aborígenes da época William Grey Ellison-Macartney (1917-1920) da Austrália ocidental correspondia a uma dupla intenção: a de integrá-los no mundo da cultura ocidental e a de ganhar novos braços para o desenvolvimento do país. Representava uma reorientação de posições quanto aos nativos e correspondia a concepções integrativas através do trabalho e da economia que já há décadas sobretudo o partido liberal havia defendido no Brasil. Sob o pano de fundo dessas similaridades de concepções e práticas em contextos internacionais e considerando-se as constelações político-culturais globais deve-se proceder a releituras da história das idéias e das práticas das atividades de integração do indígena do Brasil na mesma época.


(...)



Recepção em Perth ao general Pau e à missão francesa. Um milhão de escolares australianos entoam a Marseillaise. L'Illustration, 26 de abril de 1919, 449

 

             

Nativos da Tasmânia são apresentados ao General Pau. à direita: Sra. Ellison Macartney, esposa do governador da Austrália Ocidental. L'Illustration, 26 de abril de 1919, 449

 
                                                               





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Doc. N° 2472