Academia Brasil-Europa
de Ciência da Cultura e da Ciência (Culturologia e Sociologia da Ciência)
e institutos integrados de pesquisa

© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1998 e anos seguintes by ISMPS e.V.© 2009 by ISMPS e.V. Todos os direitos reservados.
ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 119/7 - (2009:3)

_________________________________________________________________________________________________________


Índice da edição     Índice geral     Portal Brasil-Europa     Academia     Contato     Convite     Impressum     Editor     Estatística     Atualidades

_________________________________________________________________________________________________________


Austrália-Brasil


Presença da Amazônia em Adelaide: Vitoria Regia
Robert (1804-1865) e Richard Schomburgk (1811-1891)


Trabalhos da A.B.E. pelo Ano Darwin 2009 sob a direção de A.A.Bispo, Adelaide






Esquerda e direita: Jardim Botânico de Adelaide.

Fotos A.A.Bispo 2009

 
Sob a perspectiva de estudos dedicados a relações entre processos histórico-culturais e a Natureza em contextos transnacionais e transcontinentais (programa Cultura/Natureza da A.B.E.), a cidade de Adelaide, no Sul da Austrália, merece uma particular atenção. Nessa cidade, marcada pela vida universitária e por museus, o observador se surpreende pelo significado que assume a Botânica e, nela, em particular, a do mundo dos trópicos sul-americanos, não só para a ciência como também para a vida cultural, contemplativa e de lazer da população. Adelaide possui três jardins botânicos, o Adelaide Botanic Garden, no North Terrace, o Mount Lofty Botanic Garden e o Wittunga Botanic Garden, sendo o primeiro o mais antigo, inaugurado em 1857.


Com a sua disposição vitoriana, marcada por árvores seculares, entre elas grandes araucárias, o parque constitui também um monumento histórico de paisagismo e arquitetura, salientando-se edifícios e pavilhões de vidro do século XIX. O visitante brasileiro, tendo na lembrança o Palácio de Cristal de Petrópolis, impressiona-se sobretudo pela Casa dos Trópicos, de construção anterior, e que sugere íntimos vínculos entre o mundo vegetal e concepções arquitetônicas (Veja artigo nesta edição).


O coração do Adelaide Botanic Garden é porém o Pavilhão da Vitória Régia, o Amazon Waterlily Pavillon, hoje uma construção de vidro que substituiu em 2007 o edifício original do século XIX, o Victoria House (1868). Nesse mesmo ano de 2007, coletadores dirigiram-se à Guiana para obter novos espécimes para revigorar a coleção do Botanic Garden. Numa cidade onde estátuas da Rainha Vitória decoram praças, mantendo a sua memória e a de sua época permanentemente presentes, o culto à Vitória Régia no Botanic Garden adquire um sentido simbólico e  um significado histórico-cultural. Assim, painéis elucidativos chamam a atenção do visitante aos singulares fatos históricos que se prendem ao descobrimento da planta aquática amazônica e à sua introdução e a seu cultivo na Austrália. Essa história revela contextos nos quais se inserem diversas nações da Europa e da América, em particular do mundo germânico e da esfera britânica nos seus interesses de conhecimento da Natureza. Revela também a inserção da Vitoria Regia em contextos histórico-culturais marcados pela imigração e colonização. Personalidades principais nesse desenvolvimento histórico foram membros da família alemã Schomburgk, da Saxônia, Robert Hermann (1804-1865) e Moritz Richard (1811-1891).


Da Alemanha ao universo anglo-americano


Robert Hermann Schomburgk, filho do pastor luterano Johann Friedrich Ludwig Schomburgk, nasceu na Saxônia, onde obteve a sua primeira formação. Em 1828, foi indicado para supervisionar um transporte da Saxônia à Virgínia. Viveu nos Estados Unidos por algum tempo, tentando estabelecer-se no plantio do tabaco. Passando ao Caribe, viveu na ilha de S. Thomas, onde perdeu os seus bens num incêndio. Em 1830, dirigiu-se a Anegada, uma das Ilhas Virgens, onde dedicou-se a pesquisas naturais. O relato que enviou à Royal Geographical Society causou impressão tão favorável nos meios científicos de Londres que, em 1835, foi encarregado de dirigir uma expedição à Guiana inglêsa. A sua estadia, de 1835 a 1839, foi marcada pela descoberta da lília aquática gigante, em 1837, e que seria denominada de Victoria Regia.


Em 1841, retornou à Guiana, agora como oficial do Govêrno Britânico para supervisionar a colonia e delimitar as suas fronteiras. Estabeleceu limites provisórios entre a Guiana e a Venezuela, que passou a ser conhecido como Schomburgk Line. Também estabeleceu fronteiras com Surinam, dos Países Baixos. Procurou fixar fronteiras com o Brasil, premido pelos problemas da escravização de indígenas.


O seu irmão, Alfred Otto (1810-1857), divulgou ao meio científico alemão os trabalhos de Robert Hermann Schomburgk na Guiana através da obra R.H. Schomburgk‘s Reisen in Guiana und am Orinoco (1841).


Ao retornar à Inglaterra, teve os seus méritos reconhecidos pela Rainha Vitória. Em 1846, em Barbados, o agora  Sir Robert Hermann Schomburgk empenhou-se em completar as suas informações para escrever uma descrição geográfica e estatística da ilha, publicada em 1848 como História de Barbados, obra básica dos estudos relacionados com as Indias Ocidentais. No mesmo ano foi nomeado  consul britânico em Santo Domingo. Em 1857, tornou-se Consul Geral da Grã Bretanha no Sião.


Da Alemanha ao Sul da Austrália



Moritz Richard Schomburgk teve a sua primeira formação escolar na sua cidade de nascimento, Freiburg (Saxônia), sendo também orientado por um tutor particular. A partir de 1825, fêz o seu aprendizado de jardinagem em Merseburg. Serviu na Guarda Real, em Berlim. De 1831 a 1834, trabalhou como ajudante de jardinagem e, a partir de 1835, tornou-se jardineiro em Sanssouci, Potsdam. Em 1840, Richard Schomburgk foi contratado pelo diretor do Museu Zoológico da Universidade de Berlim para desenvolver atividades de colecionador em todas as áreas da História Natural para as instituições histórico-naturais da Prússia. Com essa finalidade, a partir de 1840, acompanhou o seu irmão à Guiana, ali permanecendo até 1844. Essa viagem foi facilitada por parecer favorável de Alexander von Humboldt. Este cientista estipulou também os custos do empreendimento e sugeriu a publicação de uma obra em três partes com os resultados do empreendimento (Reisen in Britisch-Guiana in den Jahren 1840-1844, Leipzig 1847/8). Os materiais trazidos pelos pesquisadores são considerados como dos mais valiosos nas coleções do Museu de Ciências Naturais da capital alemã.


A sua emigração para a Austrália derivou da sua decepção por não ter alcançado um cargo no Museu e pela situação geral na Alemanha após a Revolução de 1848. Juntamente com o seu irmão, Alfred Otto, emigrou em março de 1849 a bordo do Princess Louise, casando-se durante a viagem com Pauline Kneip, originária de Potsdam. Constata-se, aqui, um certo paralelo com o destino de Fritz Müller, teuto-brasileiro de tanto significado na história dos trabalhos de Darwin. Enquanto este, porém, transferiu-se para a região colonial alemã de Santa Catarina, em Blumenau que se estava fundando, Schomburgk estabeleceu-se nas proximidades de Gawler, Buchsfelde, nome escolhido em homenagem ao geólogo Leopold von Buch. Desenvolveu ali primeiramente atividades de agricultor, cultivando vinho, frutas e cereais. O seu irmão empregou-se no jornal publicado para os colonos de língua alemã, o Süd-Australische Zeitung.


Além do seu empreendimento vinícolo, passou a desempenhar funções de interesse público, tornando-se presidente do distrito de Mudla Wirra e reorganizando o Museu de Gawler. Tornou-se conhecido como erudito de vastos e diversificados conhecimentos, requisitado para conferências por sociedades científicas. Em 1865, tornou-se membro da Sociedade Filosófica da Austrália. O acontecimento que marcaria porém a sua vida foi a sua nomeação a curador do Adelaide Botanic Gardens, em 1865. Nessa posição, desenvolveu intenso trabalho científico e organizativo, planejando e construindo edifícios. Transformou, em poucos anos, o modesto jardim numa das mais destacadas expressões do progresso científico e cultural da Austrália e numa de suas principais atrações. Em 1867, em estufa especialmente edificada, plantou a primeira Vitoria Regia na Austrália. Esse feito foi de grande significado para o Botanic Garden, pois atraiu grande público e a atenção da imprensa, que passou regularmente a divulgar dados sobre o crescimento da planta. Já em 1868 pode-se abrir à visitação pública o jardim experimental e o roseiral. Schomburgk não só procurava plantas em outras cidades e regiões para enriquecer o jardim, como também exerceu um papel preponderante na distribuição de plantas para arborização de ruas e no ajardinamento de áreas públicas e jardins de edifícios governamentais. Mantinha intensa correspondência com botânicos e instituições de outros países, (entre outros USA, Itália, Norte da África) procurando, também desta forma, sementes e mudas para a diversificação do patrimônio do Botanic Garden. Foi um dos grandes apologistas do plantio de florestas, salientando a importância da vegetação para o clima e da madeira para a economia. Dedicou-se sobretudo à aclimatação de plantas, salientando o seu significado para o desenvolvimento da colonia. O número de espécies australianas conhecidas aumentou, com o seu trabalho, de ca. de 7000 ítens.


Paralelamente, deu prosseguimento às suas atividades de colecionador do Museu de Berlim. Também descreveu pela primeira vez vários animais („tipos“). De 1844 até 1891 foi membro da renomada Academia Alemã de Naturalistas Leopoldina em Halle/Saale. Dentre as muitas manifestações de reconhecimento que recebeu do Exterior, salienta-se a da Prússia, do Ducado de Hesse e o seu doutoramento honorário na Alemanha.




Palácio de Cristal. Petrópolis. Colóquio Internacional da A.B.E. 2004. Fotos H. Huelskath

 



  1. Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu


  2. Brasil-Europa é organização exclusivamente de natureza científica, dedicada a estudos teóricos de processos interculturais e a estudos culturais nas relações internacionais. Não tem, expressamente, finalidades jornalísticas ou literárias e não considera nos seus textos dados divulgados por agências de notícias e emissoras. É, na sua orientação culturológica, a primeira do gênero, pioneira no seu escopo, independente, não-governamental, sem elos políticos ou religiosos, não vinculada a nenhuma fundação de partido político europeu ou brasileiro e originada de iniciativa brasileira. Foi registrada em 1968, sendo continuamente atualizada. A A.B.E. insere-se em antiga tradição que remonta ao século XIX.


  3. Não deve ser confundida com outras instituições, publicações, iniciativas de fundações, academias de letras ou outras páginas da Internet que passaram a utilizar-se de designações similares.



 

Doc. N° 2448