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ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 119/15 - (2009:3)

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Colaborações


Para aquém ou para além de nós: considerações sobre alguns povos “tradicionais”


Neiza Teixeira*

No ano de 1835, Victor Hugo fazia a seguinte pergunta: - De que será feito o amanhã?1 Ele fê-la ao sentir que tudo, tanto as ideias como as coisas, tanto a sociedade como o indivíduo, se encontravam em estado de decadência. Afigurava-se um quadro crepuscular.

No ano de 2001, é publicado o livro escrito a duas mãos por Jacques Derrida e Élisabeth Roudinesco De quoi demain…2, cuja abertura é a interrogação de Victor Hugo e que a autora diz ser o ponto de partida para o diálogo encetado entre ela (psicanalista) e Derrida (filósofo), que gerou esta obra, onde são tratados temas que exigem a reflexão concentrada não só de filósofos e de psicanalistas, mas também dos livres pensadores e de outros pesquisadores.

No ano de 2009, sentimos que a pergunta de Victor Hugo continua atual. Ao que parece, o estado crepuscular é tão intenso hoje como o foi em 1835, acentuando-se e disseminando-se até mesmo pelos pilares que considerávamos mais fortes, talvez quase inabaláveis. O exemplo é a grande crise iniciada nos bancos privados, que vem mudando totalmente as regras da economia mundial, exigindo uma profunda reflexão sobre a compreensão que temos de nós mesmos e do mundo, e que promove a construção de um novo paradigma. A crise de hoje avoluma-se e adquire conformações que escapam às leituras dos especialistas e põe em pânico os que perdem os seus postos de trabalho diuturnamente e os que têm que pedir ajuda ao transcendente, a fim de que os seus sejam mantidos. O capitalismo vive uma das suas mais profundas crises.

Este estado crepuscular provoca em todos nós a sensação de impotência, reacende o nosso pessimismo adormecido ou em calmaria e corrobora o estado de pânico, de miséria e de abandono que vemos alarmado na televisão, nos jornais, nas rádios e nas conversas de cada um.

É por isso que, também, a obra escrita a duas mãos por Derrida e Roudinesco tem a sua atualidade e importância acrescentadas. O olhar para a nossa herança e para a nossa realidade cultural, filosófica, histórica e a inconsciente à luz de uma reflexão séria, considerando a presente conjuntura, sintetizada no círculo da globalização, é urgente.

Todavia, queremos aqui propor um olhar diferenciado para esta conjuntura, pois sabemos que nada é negativo em si mesmo, assim como entendemos que é também sábio aquele que tira proveito dos momentos difíceis. Por isso, o cenário que se estende diante dos nossos olhos é estimulante para a criação, para um novo pensamento, para se refletir sobre o que acreditamos, para se fazer uma pausa e analisarmos o que temos constituído e traçarmos outros rumos. Mais que tudo, é veemente a necessidade de olharmos à nossa volta sob a vigilância da suspeição e do compromisso que tem aquele que busca, que reúne o saber conquistado não como critério de verdade, mas como ponto de partida.

Com a explosão dos múltiplos mundos, das variadas Weltanschauungen, que são a consequência de um longo processo, que vincula-se à destruição da ideia de uma história unitária progressista estruturada na  metafísica, cujo centro irradiador é a Europa, e com a extraordinária difusão dos veículos de comunicação de massa, criou-se a necessidade de re-pensarmos todo o saber adquirido, seja ele o pensar sobre o homem, sobre a economia, sobre a estética, sobre a ética, sobre a história, sobre o mito, etc. É neste estado caótico e libertador, de antecipação de novas construções, que podemos quebrar os limites que impomos a nós mesmos por preconceitos ou por crenças em falsas ideologias e alargarmos a nossa capacidade de apreender e de dialogar com o que até pouco tempo nos era estrangeiro. Este artigo inicia uma busca, visando a ultrapassagem de fronteiras e de limitações, propondo-se a empreender novas leituras e compreensões do mundo e do homem.

Eliade, na obra O mito do eterno retorno, onde pretende investigar as concepções fundamentais das sociedades primitivas, afirma o seguinte:

(…) Sempre pensávamos que a filosofia ocidental se arrisca a “provincializar-se”, se assim podemos dizer: primeiro, encerrando-se ciosamente na sua própria tradição e ignorando, por exemplo, os problemas e as soluções do pensamento oriental; depois, obstinando-se em reconhecer apenas as “situações” do homem das civilizações históricas, em detrimento da experiência do homem “primitivo” das sociedades tradicionais.3


A partir das palavras de Eliade, podemos assegurar que, se, por um lado, a Europa sempre buscou soluções e respostas para os seus enigmas fora dos seus limites territoriais e fora da sua cultura quando se sentiu fragilizada quanto à religião, indecisa sobre o caminho a seguir e enfraquecida economicamente, no que diz respeito à filosofia ela sempre se manteve encerrada em si mesma, inclusive, correndo o risco apontado por Eliade.

Hoje, todavia, não pode ser esta a atitude, dado que ninguém e nenhum recanto do planeta podem esquivar-se do movimento golabalizante de povos, de culturas, de pensamentos e de saberes. Mas, ainda que seja este um momento particular da nossa história, e que, para muitos, é hora de revisar e de fazer emendas ao que está feito, para nós, se faz necessário o retorno ao instante em que, pela primeira vez, o homem assumiu um pensamento não mais fundamentado no mito, mas produzido por ele mesmo, penetrando no mais remoto de si e começando o descobrimento da sua capacidade de pensar, utilizando-se das ferramentas produzidas pelo próprio pensamento. E, indo mais além, esta se apresenta como uma hora propícia para retornarmos mesmo ao momento em que os gregos, os egípcios, os mesopotâmicos orientavam as suas vidas por um paradigma absolutamente contrário ao do pensamento racional.

Se este é um momento propício para se retornar aos pensadores anteriores a Sócrates e à mitologia grega e oriental, é também um momento favorável para conhecermos os homens que constituem as “sociedades que ainda vivem o ‘mito vivo’” e que possuem uma ontologia original. Trata-se de compreender como eles pensam a si mesmos, como compreendem o lugar que ocupam no cosmo, como vêem o mundo e como concebem o outro.

O esforço consiste em sairmos do pensamento ocidental, destruirmos preconceitos e apreendermos até onde um pensamento estrangeiro pode contribuir para que possamos ter um conhecimento melhor de nós mesmos, do outro e do mundo, e que possa ainda preencher o vazio da nossa própria narrativa, fundada em bases que nos distanciaram de uma relação cósmica e da compreensão de dimensões fundamentais para a nossa própria sobrevivência. Este distanciamento torna mais difícil a compreensão de que vivemos um momento particular da nossa odisséia e de que é necessário ultrapassarmos os limites estabelecidos pela história, percebendo que, além dela, existem outras orientações que em nada lhes são inferiores. Hoje, não é mais absurdo reconhecermos que, paralelamente a nós, outros povos orientam-se e constroem as suas vidas de maneira peculiar sem que com isto possam ser relegados a planos inferiores, como aconteceu até meados do século passado. A história que afasta os que não a têm como princípio e fim, também mostra os seus limites, também expõe as suas fragilidades. E são estas que nos levam a procurar soluções noutros lugares e noutros pensares. Também são os limites impostos à filosofia que reclamam por um alargamento, melhor dizendo, pela sua ultrapassagem. Se a filosofia é o conhecimento do universal, então, ela precisa universalizar-se.

A tarefa não é fácil, por isso, todos os que acreditam que podem contribuir são chamados a trazer o produto do seu trabalho, por mais ínfimo que este seja. Por outro lado, grandes pensadores, como Vattimo, chamam a nossa atenção para meandros do pensamento, para grandes necessidades que precisam ser supridas e para falsos entendimentos que contávamos como absolutos. Na obra A sociedade transparente, ele afirma que “um dos problemas mais urgentes que se coloca à consciência contemporânea, na medida em que se torne consciente da “fabulização” do mundo operada pelo sistema media-ciências sociais, é redefinir a sua posição relativamente ao mito, sobretudo para não vir a concluir (como muitos fazem) que uma redescoberta do mito pode representar a resposta adequada ao problema “que significa pensar” na condição de existência tardomoderna”4. A redefinição que se faz necessária advém, principalmente, da necessidade de se repensar outros fundamentos para a filosofia da história. Esta, não mais fundamentada na ideia de uma história unitária, linear e progressista.

Partindo do princípio de que é necessário repensarmos tudo o que havíamos firmado, dado que vivemos numa outra sociedade, cuja leitura anterior não mais lhe corresponde, é necessário também que se pense o mito noutros parâmetros, impedindo-nos, assim, de concebê-lo como uma narrativa infantil, uma fantasia, e sem objetividade. É necessário, neste momento, que se pense uma Teoria do Mito. Assim sendo, este artigo propõe-se como um pequeno começo para preencher esta lacuna.

Quando traçamos um paralelo entre as culturas ocidentais e as culturas que se orientam pelos mitos vivos, abre-se entre ambas uma fenda. Incapacitados de ver, tanto Colón como Cabral e muitos outros navegadores, não conseguiram perceber que se tinham  encontrado com o outro absoluto. E, ainda que com outras nuances, o véu que lhes encobria a visão permanece até os dias de hoje. Isto é manifesto tanto pelos ocidentais como pelos própios indígenas, que não conseguindo compreender a cultura do invasor e não tendo espaço para se fazer compreender, aprenderam como sobreviver num mundo, cuja sentença de morte lhes foi decretada desde 1498. Como afirma Carvalho5, os índios brasileiros, descendentes e parentes dos que foram encontrados nas Antilhas, vivem ao longo destes séculos a lenta agonia da sua própria morte.

Sob todos os aspectos, o maior esforço que se fez até hoje foi o de extirpar da História os que não são batizados como seus filhos, numa tentativa de ver nela o desenrolar de um processo unitário, ascendente, cujo centro irradiador é a Europa Ocidental. Por isso, não houve interesse em olhar o outro e em aprender com ele o que fez melhor que nós, por exemplo, uma postura diferente no mundo e uma atitude outra diante da riqueza e do luxo que lhes faz, sem nenhum esforço e sem emergência, manter uma consciência ecológica que vem atravessando milênios.

A história que nos orienta, ainda que conheçamos a teoria de Foucault6 e que saibamos do recebimento positivio por parte dos historiadores, por exemplo Veyne7, sobre este tema, é a de estrutura linear, fundamentada na história da salvação. Assim sendo, ficamos tolhidos na nossa vontade, somos enfraquecidos no pensamento e, consequentemente, impedidos de olhar com respeito e com interesse para povos que têm como princípio orientador das suas vidas as ações originais dos seus heróis primordiais, ou seja, que se movimentam e seguem as suas vidas numa cultura pagã. Para estes povos, é tênue a fronteira entre o sagrado e o profano, regem-se por um tempo circular, no qual reina a eterna repetição dos gestos originais, sagrados praticados nas origens.

Consequentemente, estes povos que, justamente por serem conduzidos pelos seus heróis primordiais, aos quais retornam periodicamente, através dos rituais, para reafirmar o momento original, numa clara rejeição à história, possuem uma outra cosmovisão e são portadores de uma imensurável ânsia de ser, daí que tenham como base uma ontologia original. Para eles, é de outra maneira que tudo veio a ser, tanto os elementos animados como os inanimados. E, para eles, é outro o que querem ser, por exemplo, imortais, seres cósmicos, como os seus ancestrais. Assim, abolindo a duração e a história.

Podemos dizer que as raízes desta ontologia estão noutro lugar que não na aldeia dos seres atuais, por isso, tudo pode re-começar infinitas vezes. Mas, apesar da existência deste modelo, tudo faz parte deste mundo, por isso, é real, daí a atualização constante, através do ritual. O mundo paralelo das sociedades tradicionais não constitui um outro mundo, inabitável, pois qualquer índio pode defrontar-se a qualquer momento com um sinal da presença de um herói ou rever os movimentos de uma ação original e ainda reviver um tempo arcaico.

Conforme Eliade,


Se observarmos o comportamento geral do homem arcaico, verificamos que apenas os atos humanos propriamente ditos, os objetos do mundo exterior, possuem “valor intrínseco, autônomo”. Um objeto ou uma ação adquirem um “valor” e, deste modo, tornam-se “reais”, porque de qualquer forma participam de uma realidade que os transcende.8


Daí dizermos que as raízes da ontologia dos “povos tradicionais” não estão enterradas nas suas aldeias ou nas suas terras, mas num universo peculiar povoado por deuses e heróis, o que constitui uma metafísica especial. Estas palavras poderiam encaminhar-nos para um universo além do universo humano, visível, palpável, compreensível, desde que já se tenha sido iniciado, porém, não é isto o que nos mostram as narrativas dos “povos tradicionais”. Para estes povos, uma pedra pode constituir-se numa hierofania, pois pode ser a indicadora do caminho trilhado por um herói, aquando da sua passagem para dar à luz à humanidade, por exemplo, o desenho do sobrenatural gravado numa rocha na Catarata de Uaupí, rio Aiari, afluente do rio Içana, ou o caminho percorrido pela Canoa da Transformação da Humanidade9. E a cosmogonia pode ser vivida a qualquer momento, desde que se apresente uma necessidade, que pode ser uma má colheita, enfermidades ou o aparecimento de algo desconhecido na aldeia.

O mundo destes povos, por exemplo, o mundo Desana, é um mundo de um tempo circular e de eterna repetição do mesmo. Todos os gestos do período original, praticados pelos deuses ou pelos heróis, são reatualizados pela tribo. O mito é o lugar onde todas as leis estão estabelecidas. Ele é sagrado, incontestável e irredutível. Vejamos os procedimentos que devem ser obedecidos no momento do nascimento de uma criança Desana.


(…) Antes de Gahpimahsu nascer, a mãe perdeu sangue. O vermelho desse sangue impregnou os olhos da humanidade. Ao nascer a criança, ela cortou o seu cordão umbilical. Na visão dos homens, o cordão umbilical apareceu como pequenas cobras. Depois, a mãe foi lavar o filho, que estremeceu de frio. Esse tremor também alcançou os homens. A seguir, pintou o rosto de Gahpimahsu com a tinta vermelha extraída do caraiuru, e também com tabatinga branca, vermelha e amarela. Na visão dos homens apareceram as cores da pintura de rosto da criança.10


Nesta parte do mito cosmogônico Desana, estão explícitos os procedimentos que devem ser efetuados no momento do nascimento de uma criança Desana. O gesto, senão uma repetição, deverá ser reatualizado todas as vezes que uma criança Desana chegar ao mundo. Assim sendo, ainda que um “povo tradicional” ou que ainda vive o “mito vivo” insira elementos exteriores na sua cultura, aquilo que consideram ser bom, o fundamento, o seu éthos, são ditados pelos atos originais, ensinados pelos seus ancestrais.


Como já dissemos, para uma sociedade tradicional, a fronteira entre o sagrado e o profano é diáfana, podendo em poucos segundos ou numa situação promovida, por exemplo, a realização dos rituais, ser quebrada. É assim que, podemos dizer, o seu mundo, igualmente ao mundo de Thales de Mileto, é povoado por deuses, por forças divinas, animadas, invisíveis e poderosas. Um mundo hilozoísta. Este mundo com características tão particulares é um mundo onde a qualquer momento pode se evidenciar uma hierofania. Onde também, por exemplo, o herói desaparecido pode retornar, realizando a vontade e atendendo às perspectivas do seu povo.

Talvez seja importante, aqui, o exemplo de Ribeiro:

A propósito do sequestro de Boréka, desejo contar um episódio que me comoveu muito e que ilustra os elementos de fé contidos nas narrações míticas. Um dia, o velho Kumu11 Firmiano mandou a sua filha Magdalena, professora na escola primária do povoado Makú, Nova Fundação, que me perguntasse se eu havia encontrado ou ouvido falar do paradeiro de Boréka, antepassado supremo dos Desana. Já havia feito esta pergunta ao padre Casimiro, que não havia sabido responder.12


O velho kumú, com esta pergunta, queria encontrar, dentro do seu universo psíquico, uma resposta para o triunfo da civilização branca. Mas também, cremos nós, significa que, de alguma forma, para o velho Kumú Desana, há uma esperança no retorno de Boréka e na libertação do seu povo. A visão de mundo destes povos não só satisfaz todas as suas inquietações, como também justifica os trágicos acontecimentos que têm preenchido as suas vidas e testemunha uma esperança inultrapassável. Assim, Boréka, para o velho Kumú e para todos os Desanas, foi sequestrado e permanece prisioneiro, em lugar desconhecido, dos brancos. Logo, ficando acesa a crença no seu retorno.

Neste mundo, conforme ao que foi dito, não existe espaços vazios, pois tudo está preenchido pelo sagrado, tudo está penetrado por forças divinas, como o mundo de Tales de Mileto ou o mundo dos Pré-Socráticos. Vejamos, por exemplo, um presságio assistido pelos indígenas da costa do Golfo do México, narrado pelos informantes indígenas de Sahagun, contidas no princípio do livro XII do Códice Florentino.


Primer presagio funesto: Diez años antes de venir los españoles primeramente se mostró um funesto presagio en el cielo. Una como espiga de fuego, una como llama de fuego, una como aurora: se mostraba como si estuviere goteando, como si estuviera punzando en el cielo.

Ancha de asiento, angosta de vértice. Bien al medio del cielo, bien al centro del cielo llegaba, bien al cielo estaba alcanzando.

Y de este modo se veía: allá en el oriente se mostraba: de este modo llegaba a la medianoche. Se manifestaba: estaba aún en el amanecer; hasta entonces la hacía desaparecer el sol.

Y en el tiempo en que estaba apareciendo: por um año venía a mostrarse. Comenzó el año 12-Casa.

Pues cuando se mostraba había alboroto general: se daban palmadas en los labios las gentes; había un gran azoro; hacían interminables comentarios.13


Como se pode ver, até os acontecimentos mais aterradores das vidas destes povos encontram uma explicação divina. Deste modo, a chegada dos espanhóis na Mesoamérica não se constituiu numa surpresa para os seus habitantes, até porque eles esperavam a chegada do seu antigo deus – Quetzalcohuatl – e  viram-no encarnado em Hernán Cortés. Por outro lado, isto pode transparecer o desejo de compreender o abandono dos seus deuses e o domínio dos homens maus. Talvez, maior do que a maldade dos europeus infringida sobre a América, foi a dor do abandono dos deuses que confundiu e levou à derrota tão abruptamente não só os povos da Mesoamérica, mas de todo o continente americano. Ainda mais uma hipótese, o medonho trauma da invasão e do genocídio de povos altamente evoluídos não passaria, aos olhos das próprias vítimas, de um castigo advindo dos seus desmandos. Daí que é até com resignação que os povos da Mesoamérica e do que viria a ser o Brasil retraíram-se e entregaram-se a própria sorte.

É neste universo, que não podemos dizer mágico-fantástico, mas fundado numa ontologia original que se desenvolveram e desapareceram muitos povos, que deram os seus lugares para que o Ocidente, sobre os seus escombros, pudesse inaugurar grandes civilizações, como as que se vêem em todos os recantos do planeta e transitando pelas grandes cidades da América Latina. Mas o fim não foi absoluto, pois, ainda que carregando o estigma da morte e da indiferença nos seus olhos, alguns dos antigos povos de toda esta América tentam sobreviver. O esforço que eles têm feito em resgatar e manter a sua cultura até onde for possível, pode resultar positivamente para nós que pretendemos, da mesma forma, compreender e manter a nossa. Como se pode ver, estamos no mesmo patamar de desamparo, no mesmo estágio crepuscular. Neste momento particular, não há vencedores e nem seres superiores.

Daí que recorrer aos povos não ocidentais, de origem pagã, ainda que hoje não exista paganismo absoluto, pois os conhecemos a partir do instante em que foram dominados pela cultura européia, quando, através da cruz, da espada e das bactérias vieram ao mundo, não é um despropósito. Ainda que não possamos afirmar um mito puro, pois para isso teríamos que também conhecer a língua estrangeira, teríamos que apagar a nossa própria duração e penetrar numa cultura alheia, podemos ouvir o que ele nos tem para dizer. Em nenhum momento pugnamos por enaltecer a cultura dos povos tradicionais ou dos que ainda vivem o mito vivo, sendo apenas do nosso interesse produzir um material para a reflexão, para trabalharmos sobre um novo pensar, sobre o mito e sobre a filosofia da história.

Para concluir este artigo, trazemos uma pequena amostra do mundo de seres que ainda vivem o mito vivo. Trata-se de um canto do povo Tupi-Guarani – As Belas Palavras – dirigidas ao Deus Ñamandu, onde cantam a insatisfação humana diante da finitude, ao mesmo tempo em que, investindo as Palavras de potência sagrada, visam alcançar os Deuses. Estes povos, antes mesmo da chegada dos europeus na América, já questionavam a condição humana; já perguntavam aos Deuses o motivo da demasiada humanidade humana


Nosso pai, o último, nosso pai, o primeiro,

fez com que seu próprio corpo surgisse

da noite originária.


A divina planta dos pés,

o pequeno traseiro redondo:

no coração da noite originária

ele os desdobra, desdobrando-se.


Divino espelho do saber das coisas,

Compreensão divina de toda coisa,

divinas palmas das mãos,

palmas divinas de ramagens floridas:

ele os desdobra, desdobrando a si mesmo, Ñamandu,

no coração da noite originária.


No cimo da cabeça divina

as flores, as plumas que o coroam,

são gotas de orvalho.

Entre as flores, entre as plumas da coroa divina,

o pássaro originário, Maino, o colibri,

esvoaça, adeja.


Nosso pai primeiro,

seu corpo divino, Ele o desdobra,

em seu próprio desdobramento,

no coração do vento originário.

A futura morada terrena,

Ele não a sabe ainda por si mesmo;

a futura estada celeste, a terra futura,

elas que foram desde a origem,

Ele não as sabe ainda por si mesmo:

Maino faz então com que sua boca seja fresca

Maino, alimentador divino de Ñamandu.


Nosso pai primeiro, Ñamandu,

ainda não fez com que se desdobre,

em seu próprio desdobramento,

sua futura morada celeste:

a noite, então, Ele não a vê,

e todavia o sol não existe.

Pois é em seu coração luminoso que Ele se desdobra,

em seu próprio desdobramento;

do divino saber das coisas,

Ñamandu faz um sol.


Ñamandu, pai verdadeiro primeiro,

habita o coração do vento originário;

e, aí onde ele repousa,

Urukure’a, a coruja, faz com que existam as trevas:

ela faz com que já se pressinta o espaço tenebroso.


Ñamandu, pai verdadeiro primeiro,

ainda não fez com que se desdobre,

em seu próprio desdobramento,

em seu próprio desdobramento,

sua futura morada celeste:

Ele ainda não fez com que se desdobre,

em seu próprio desdobramento,

a terra primeira:

Ele habita o coração do vento originário.


O vento originário no coração do qual nosso pai

de novo se deixa unir cada vez que volta

o tempo originário.

Terminado o tempo originário, quando a árvore tajy está florida,

então o vento se converte um tempo novo:

ei-los aqui já os ventos novos, o tempo novo

o tempo novo de coisas não mortais.14


Aqui temos o canto do nascimento de Ñamandu. Ele gera-se a partir de si mesmo, nas trevas. Diferentemente do ser humano, porque ele é um Deus, nasce de pé, assegurando a sua majestade na Terra. As plantas dos pés são como que raízes, fincadas na escuridão. A seguir, o assento, que significa o lugar ocupado pelos sábios, mas que significa também a metáfora do jaguar.

Há homogeneidade entre o mundo divino, o mundo animal e o mundo vegetal. O quadro que se desenha é de uma beleza extraordinária: as mãos floridas fazem um conjunto harmonioso juntamente com a cabeça, coroada de flores e de plumas. Aí, abriga-se Maino, o colibri (beija-flor) sagrado que tem a função de refrescar, sempre, a boca do Deus, habitat das Palavras Sagradas. Nesta metáfora, podemos assinalar muitos pontos relevantes, mas não é esta a intenção deste trabalho.

O Deus desdobra-se no seu próprio desdobramento, ou seja, ele gera a si mesmo, no coração do vento originário, quando ainda não há sol para os homens, pois ainda não existe a sua morada celeste e imortal, porém, ele próprio é o sol. Todavia, esta morada virá a existir, no momento em que, numa das suas repetições, na Primavera, quando a árvore tajy estiver florida, então, será o momento de um tempo novo, o tempo dos imortais.

Este é o tempo almejado pelos Tupi-Guarani que, durante não se sabe quanto tempo, procuraram, em multidões, encontrar o espaço físico onde se encontra a Terra sem Mal. Contudo, hoje, tendo em vista que estes deslocamentos são impossíveis, este povo concentra-se em profundas meditações, questionando sempre o destino infeliz do homem e buscando sempre destruir a diferença entre homens e deuses, entre mortais e imortais.

As Belas Plavras são o resultado desta busca infindável, agora, não mais feita em grandes deslocamentos pela imensão verde do Brasil, até porque, esta, é cada vez mais diminuta, mas concentrada em velhos índios, que detêm uma sabedoria imensurável e que, por isso, oferecem alguma tranquilidade a este povo que, a cada dia, vê mais longe de si a sobrevivência. E antes que percamos a possibilidade de os conhecer e de retirar para o nosso enriquecimento o que eles nos podem oferecer, inclusive, na filosofia, que sempre se limitou ao seu lugar de nascimento, é bom que não mais os ignoremos, que não mais recorramos a teorias que, hoje, mostram não só as suas insuficiências, mas também os males que causaram.

BIBLIOGRAFIA

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HUGO, Víctor, “Napolão II”, in: Les chants de crepuscule, Bibliothèque de la Pléiade, T.I, Pp. 838 e 811, Paris: Gallimard

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VATTIMO, Gianni, A sociedade transparente, Tradução de Hossein Shooja e Isabel Santos, Antropos, Lisboa: Relógio D’Água, 1992.

Neiza Teixeira

Na Primavera, na Alemanha, em 2009.


1) Victor Hugo, “Napoleon II”, in: Les chants du crépuscule, Paris: Gallimard, Bibliothèque de la Pléiade, t. I, 1964, P. 811 e 838.

2) Jacques Derrida e Élisabeth Roudinesco, Y mañana, qué…, Tradução de Víctor Goldstein, Sección Obras de Filosofía, Argentina: Fondo de Cultura Económica, 2005.

3) Mircea Eliade, O mito do eterno retorno, Tradução de Manuela Torres, Lisboa: Edições 70, LDA., 2000, P.12.

4) Gianni Vattimo, A sociedade transparente, Tradução de Hossein Shooja e Isabel Santos, Antropos, Lisboa: Relógio D’Água, 1992, P. 35.

5) Murilo Carvalho, O Rastro do Jaguar, Portugal: Leya, SA, 2009.

6) Michel Foucault, L’Archéologie du savoir, Bibliothèque des Sciences Humaines, Paris: Éditions Gallimard, 1997.

7) Paul Veyne, Como se escreve a história; Foucault revoluciona a história, Tradução de Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp, 3ª Edição, Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995.

8) Mircea Eliade, Op. Cit. P. 18

9) (…) Depois ele subiu à superfície da terra para formar a humanidade. Levantou-se num grande lago chamado Diáahpikõdihtaru, isto é, “Lago de Leite”, que deve ser o Oceano. Enquanto ele vinha subindo, o terceiro Trovão desceu neste grande lago na forma de uma jibóia gigantesca. A cabeça da cobra se parecia com a proa de uma lancha. Para eles, parecia um grande navio a vapor que se chama Pamurigahsiru, isto é, “Canoa da Futura Humanidade” ou “Canoa da Transformação”. Umúsin Pãrõkumu; Tõrãmu Kehírí, Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos Desana – Kehíripõrã, São João Batista do Rio Tiquié: União das Nações Indígenas do Rio Tiquié (UNIRT); São Gabriel da Cachoeira: Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), 1995, P. 29.

10) Umúsin Pãrõkumu; Tõrãmu Kehírí, Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos Desana – Kehíripõrã, São João Batista do Rio Tiquié: União das Nações Indígenas do Rio Tiquié (UNIRT); São Gabriel da Cachoeira: Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), 1995, P. 35.

11) Kumu, sábio, profeta. (em Desana)

12) Berta  Ribeiro, in Umúsin Panlõn; Kehíri Tolamãn, Antes el mundo no exisita: la mitología heroica de los índios Desana del Brasil, Int. Trad. e Estudio de Berta G. Ribeiro, Hélder Ferreira Monteiro, José Ignacio Uzquiza, Palma de Mallorca, 2000, P. 48.

13) Miguel León-Portilha (Ed.), Visión de los vencidos, Crónicas de América, Madrid: DASTIN História, S.L., 2000, P. 62.

14) Pierre Clastres, A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos índios Guarani, Tradução de Nívea Adan Bonatti, Campinas: Papirus Editora, 1990, Pp. 20-4.



*A Profa. Dra. Neiza Teixera viveu 15 anos em Portugal, onde fêz o Mestrado e o Doutorado. Foi professora em Instituto de Formação de Professores. Possui larga experiência de ensino secundário e superior, pois foi professora da rêde escolar de ensino de Manaus, tendo lecionado na Universidade do Amazonas.


Doc. N° 2456