Relações Atlântico-Pacífico nos estudos culturais euro-brasileiros
Ciclo de estudos Atlântico/Pacífico, dir. A.A.Bispo. Viagens de estudos da A.B.E. 2008
O crescente significado das relações econômicas, políticas e científicas entre o Ocidente e os países da Ásia, em particular com a China e o Japão, exige também dos estudos de processos culturais uma reconsideração de enfoques e reorientações de perspectivas.
Ocorrências e fatos da história cultural e desenvolvimentos do presente pouco considerados em visões convencionais passam a receber maior atenção no âmbito dos novos contextos e situações.
O Brasil, devido à sua formação colonial e posição geográfica, tem a sua história cultural decididamente marcada pela orientação atlântica. Os estudos das relações atlânticas, porém, apresentam diferenças de acordo com a tradição colonial em que se inserem. Os estudos atlânticos portugueses partem em geral do „mundo que o português criou“ e sobretudo da comunidade criada pelo idioma. Esses estudos diferem do atlantismo da França, que ainda possui departamentos ultramarinos. Na Alemanha, sob estudos transatlânticos, entende-se sobretudo o das relações com os Estados Unidos.
Essa situação, que necessita ser revista sob a perspectiva da novas condições criadas pela União Européia, tem sido discutida e examinada em vários eventos. Tem-se procurado, sobretudo, relacionar esse complexo de problemas dos estudos transatlânticos com aqueles do interamericanismo. Assim, em viagens de estudos, seminários e e encontros, tem-se procurado desenvolver um programa de estudos que relaciona o estudo de processos transatlânticos com processos interamericanos. O leitor poderá ler vários relatos dos trabalhos já realizados em números anteriores desta revista.
Os estudos transatlântico-interamericanos adquirem maior possibilidade de aprofundamento e de diferenciação com a consideração do Pacífico. O complexo transatlântico-interamericano passa a inserir-se em complexo ainda mais amplo de relações, aquele do Atlântico/Pacífico, da Europa/Ásia, do Ocidente/Oriente. O estudioso depara-se aqui de forma acentuada com a questão da perspectiva nos estudos culturais. Tende-se, na tradição eurocêntrica das disciplinas culturais, à consideração do Oriente a partir de seus elos continentais com a Europa. Assim, quando se pensa na China e no Japão, parte-se de uma geografia mental que leva da Europa ao Oriente Próximo, à Índia e ao Extremo Oriente. Não se pensa, de início, na direção oposta, no caminho ao Oriente pelo Ocidente, pelo Atlântico, pela passagem ao Pacífico. Trata-se de uma orientação de imagens e de pensamento de antiga tradição, de diversificadas consequências e que exige ser refletida.
Para os países da costa pacífica das Américas, e para as correspondentes cidades e regiões dos EUA, esse direcionamento ao Pacífico deveria ser prioritário com relação ao „mundo às costas“, a distante Europa. Um estudioso brasileiro que se dedique à aproximação teórico-cultural do Brasil com esses países e regiões sente-se surpreendido com a necessidade de uma adaptação de coordenadas mentais e de enfoques geo-político-culturais. Parece que se tem ainda a situação do século das grandes Descobertas, quando se procurava chegar ao Oriente pelo Ocidente - caso da Espanha - ou, contornando à África, pelo Leste - caso de Portugal. Pela sua formação colonial, situação geográfica e tradição cultural, a visão dos estudos brasileiros parece ainda ser enraizada sobretudo nessa perspectivação do globo em direção atlântico-índica.
As novas condições que se colocam para os estudos culturais com a aproximação do Brasil com os países do Cone Sul impõem a discussão teórica dessa situação, ao exame de elementos comuns e distintos nas diversas situações e no seu vir-a-ser histórico, assim como a exigência de se procurar, empaticamente e por reflexões, ver o mundo da perspectiva do outro, ou seja, daquele se se defronta com o universo do Pacífico. Assim, desenvolveu-se, no início de 2008, em prosseguimento a seminários realizados em universidades européias, a uma série de trabalhos no Chile, na Argentina e no Uruguai. O leitor encontrará vários relatos desses empreendimentos e debates em números anteriores desta revista. Os elos interoceânicos e suas dimensões culturais foram considerados em função do Estreito de Magalhães/Cabo Horn, considerado in loco em viagem de estudos.
Dando prosseguimento a esses trabalhos, procedeu-se, em fins de 2008, a uma viagem que teve como principal objetivo o Canal do Panamá. As relações atlântico-pacíficas deveriam assim ser consideradas a partir de seus dois principais caminhos: aquele pelo extremo sul, que faz com que a via de comunicação e de tráfego marítimo entre a Europa e os países da costa pacífica passe pelo Brasil, e aquele que, encurtando significativamente a rota, deixa o Brasil praticamente de lado, direcionando relações para o Norte.
Museu Nacional de Costa Rica.
Representação pictórica histórica enviada a exposição na Espanha no início do século XX
Cartagena. Carolus Allard, Orbis Habitabilis Oppida et Vestitus, Kassel e Basel: Bärenreiter 1966
Um dos objetivos dos estudos foi o de considerar as consequencias do caminho pelo Istmo do Panamá para o Brasil na sua história e no presente. Essa preocupação mostra-se particularmente relevante na atualidade pelo crescente significado do Canal do Panamá nas transações entre o Ocidente e o Oriente, em particular com a China e o Japão. O projeto do alargamento do canal, amplamente discutido, motivou estudos históricos dos obstáculos impostos através dos séculos pelo divisor de águas entre o Atlântico e o Pacífico.
Para o tratamento localizado de contextos culturais, foram escolhidos países que se situam entre os dois universos oceânicos, ou seja, que possuem litorais atlânticos e pacíficos. Escolheu-se, da América do Sul, a Colombia, em particular a cidade de Cartagena das Índias, importante centro de comunicações e transações da época colonial, localidade de relevância continental também para estudos culturais relacionados com a África e o afro-americanismo, assim como para a história das religiões em contextos interamericanos, uma vez que Cartagena foi centro da Inquisição. Na América Central, as atenções foram dirigidas sobretudo à Costa Rica, pelo interesse que apresentam os estudos que relacionam esse país com o Brasil do ponto de vista da história econômica - ambos dos maiores produtores de café do mundo - e suas expressões arquitetônicas e artísticas.
Esta edição da revista Brasil-Europa oferece relatos de alguns dos trabalhos realizados referentes ao Panamá, à Colombia e à Costa Rica.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu
Brasil-Europa é organização exclusivamente de natureza científica, dedicada a estudos teóricos de processos interculturais e a estudos culturais nas relações internacionais. Não tem, expressamente, finalidades jornalísticas ou literárias e não considera nos seus textos dados divulgados por agências de notícias e emissoras. É, na sua orientação culturológica, a primeira do gênero, pioneira no seu escopo, independente, não-governamental, sem elos políticos ou religiosos, não vinculada a nenhuma fundação de partido político europeu ou brasileiro e originada de iniciativa brasileira. Foi registrada em 1968, sendo continuamente atualizada. A A.B.E. insere-se em antiga tradição que remonta ao século XIX.
Não deve ser confundida com outras instituições, publicações, iniciativas de fundações, academias de letras ou outras páginas da Internet que passaram a utilizar-se de designações similares.