Costa Rica e Brasil nos estudos musicológicos
Alguns aspectos da cooperação internacional
Trabalhos por ensejo da restauração do órgão Schyvwn da Catedral de San Jose
Constata-se na atualidade um certo despertar de interesses pela música de países da América Central em círculos dedicados à musicologia, também no mundo de língua portuguresa. Esse fenômeno foi considerado em seminário universitário realizado na Universidade de Colonia, em 2008. Discutiu-se, entre outros aspectos, que esse novo interesse não deveria resumir-se a tentativas de compilação de conhecimentos com base em traduções, para o português, de entradas em léxicos e de textos publicados em outros idiomas. Para um real desenvolvimento dos estudos, publicações voltadas à difusão de informações não são suficientes. Torna-se necessário considerar iniciativas e o desenvolvimento das discussões das últimas décadas.
Sob o aspecto da musicologia histórica em contextos internacionais, os estudos que relacionam Costa Rica e o Brasil tiveram uma fase significativa em meados da década de 70 por ocasião da preparação da obra „As culturas musicais da América Latina no século XIX“ (Robert Günther, ed. Die Musikkulturen Lateinamerikas im 19. Jahrhundert, Regensburg: G. Bosse 1982). Nessa obra, o artigo correspondente à vida musical de Costa Rica no século XIX foi elaborado pelo musicólogo Bernal Flores. As discussões relativas a esse trabalho e a comparações com o desenvolvimento em outros países das Américas foram desenvolvidas sobretudo pelo editor deste órgão, Francisco Curt Lange (Montevideo) e Samuel Claro Valdés (Santiago de Chile). Um dos motivos que deram ensejo a considerações que aproximaram o Brasil à Costa Rica foi uma certa similaridade constatada entre o início do Hino Nacional Brasileiro e do Himno Patriótico a Juan Santamaria (1891), herói nacional da guerra de 1856, de Pedro Calderón Navarro. As discussões teriam mais tarde prosseguimento no âmbito do I° Simpósio Internacional de Música Sacra e Cultura Brasileira, levado a efeito em São Paulo, em 1980, e do projeto MLM do Conselho Internacional de Música/UNESCO, salientando-se o encontro regional levado a efeito também em São Paulo, no contexto do I° Congresso Brasileiro de Musicologia.
Dois complexos de questões tratados nas discussões da década de setenta merecem ser particularmente recordados sob a perspectiva especial das relações Costa Rica e o Brasil. Um deles dizia respeito a similaridades e diferenças no âmbito da música sacra entre os países latino-americanos e europeus no século XIX, levando-se em consideração as suas repercussões na vida musical e no ensino. Vários músicos e religiosos de formação européia vieram para os países latino-americanos e exerceram considerável influência na vida musical dos respectivos países.
José Campabadal
Nas discussões desenvolvidas, deu-se especial atenção ao vulto de José Campabadal y Calvet (1849-1905) pela sua inserção na história da música sacra européia do século XIX e de suas consequências para a América Latina. Tendo sido orientado entre outros pelo Pe. Fernando Comas, ainda muito jovem transferiu-se para Lérida, um dos grandes centros da música sacra ibérica, passando a estudar órgão e posteriormente contraponto com o mestre-capela Magín Panti. Em Barcelona, estudou Harmonia e Composição com Antonio Ruiz. Deu prosseguimento a seus estudos em Bruxelas, alcançando primeiro prêmio em órgão e Canto Gregoriano. Os elos da história da música de Costa Rica com a vida musical da Bélgica ainda não foram suficientemente examinados. Também Alejandro Monestel, que viria a ser o primeiro diretor da Escola de Música Santa Cecília, reslizou estudos naquele país.
Pelos seus conhecimentos de composição e fuga, Campabadal tornou-se professor dessas disciplinas. Retornando a Barcelona, foi professor de música em colégios e de musicistas da alta sociedade, atuando também como pianista. Chegou em 1876 a Cartago, dando início a um profícuo trabalho que se prolongaria por 29 anos. A sua atuação marcou o movimento de restauração da música sacra no país, caracterizado sobretudo pelo revalorização do órgão. Vinha com uma formação sacro-musical de alto nível na Espanha e na Bélgica e atuaria na cidade mais tradicional do país, cuja vida social e cultural era fundamentalmente marcada pela Igreja. Em 1877, tornou-se mestre-capela dessa basílica de los Angeles, além das igrejas da paróquia de la Soledad e San Francisco, igrejas que possuiam órgãos de tubos. Ao lado de suas atividades como mestre-capela, atuou como professor do Colegio San Luis Gonzaga da Companhia de Jesus. Manteve contatos sobretudo com o Pe. Luis Gamero, também compositor, autor de um Hino ao Papa. Teve como alunos músicos relevantes da vida musical de Costa Rica, entre eles o organista Alejandro Monestel, os pianistas Enrique e Gerardo Jiménez, o mestre-capela Eduardo Peralta e o maestro Octavio Morales.
De acordo com a formação sacro-musical que havia recebido na Europa, Campabadal dedicou-se também ao fomento da prática coral, fundando o coro do Colegio San Luis Gonzaga. Também se inseriu no debate de sua época relativo à manutenção ou à abolição das orquestras nas igrejas. Não parece ter sido porém demasiadamente rigoroso sob esse aspecto, dando maior valor à qualidade da execução. Apesar de sua sólida formação como organista, Campabadal dedicou-se ao fomento da prática orquestral, sobretudo com finalidades pedagógicas e de formação musical da comunidade. Em 1883, fundou a Sociedad Musical Euterpe, orquestra à qual logo foi incorporado um coro popular. Essa entidade passou logo a se apresentar em ocasiões cívicas. Com essa orquestra, apresentou também composições próprias, que abrangiam hinos cívicos (Himno al 15 de Setiembre) e obras de salão (polcas, danças, valsas, schottisches), entre elas uma grande valsa dedicada à cidade de Cartago.
Em 1884, organizou um
Concurso Artístico Musical y Vocal, para o qual se convidaram músicos de todo o continente e da Europa.O seu objetivo era o de aproximar a prática artística que considerava ainda incipiente de Costa Rica com a arte desenvolvida de outras regiões. Foi esse o primeiro concurso musical na América Central. Percebe-se, aqui que Campabadal inseria-se no movimento desenvolvimentista que abrangia a vida cultural de Costa Rica em época do seu desenvolvimento econômico e social. Era um progressista, que empenhava as suas forças na formação da juventude e na educação artística popular.
Em 1886, quando da introdução do ensino de canto nas escolas públicas, Campabadal foi nomeado professor das escolas de Cartago. Compôs os Cantos Escolares, com letra de don Juan Francisco Fernández Ferray e o A.B.C. Musical. Em 1894, foi nomeado Inspetor de músicas das escolas e colégio oficiais e os seus livros oficializados. Em 1894, fundou-se sob a sua direção a Escola Municipal de Música de Cartago. Seu filho, Roberto Campabadal, foi seu sucessor como diretor da banda de música.
Órgãos Walcker em Costa Rica e no Brasil
A época Campabadal foi a da restauração católica da segunda metade do século XIX e que preparou e recebeu a sua culminação no Motu proprio de Pius X (1903). Assim como em outros países latinoamericanos, o movimento de restauração católica levou à importação de órgãos. No caso de Costa Rica, essa fase coincidiu com a do florescimento econômico, emprestando aos instrumentos, às obras e iniciativas da época um sentido de relevância especial como expressões do desenvolvimento do país. O mais significativo instrumento sob esse aspecto é o da catedral, de 3000 tubos, famoso em toda a América Central, proveniente da Bélgica. A catedral foi construída em 1878 pelo arquiteto espanhol José Quirce, recebendo vitrais de Paris, um relógio proveniente da Alemanha e torres metálicas da Bélgica.
Essa situação de progresso material e de renovação católica, manifestada sobretudo na arte organística, foi considerada por W. Walcker-Meier em São Paulo, em 1980, por ocasião do Simpósio Internacional de Música Sacra e Cultura Brasileira e da fundação da Sociedade Brasileira de Musicologia. Ele lembrou que Costa Rica possuia quase tantos órgãos da firma Walcker quanto Chile, Uruguay e até mesmo o Brasil. Os órgãos Walcker de Costa Rica passaram a ser construídos a partir de 1881 (Grecia), enquanto que no Brasil a partir de 1896 (Igreja protestante de Porto Alegre). Em 1884, construiu-se o órgão da Igreja católica de Alajuela e de San António de Belém. Em 1886, a de Puntarenas e, em 1891, mais um em Alajuela. Uma nova fase na importação de órgãos dar-se-ia a partir dos anos 20. De 1925 é o órgão Walcker da igreja principal de Alajuela, da Igreja da Dolorosa, em San Jose. Dos anos trinta são os órgãos Walcker da sala de festas da Oratória, em San Jose (1935), de El Tejar (1936) e do prelado (1939), também em San José. A fase Walcker no Brasil deu-se justamente na época em que menos foi construído em Costa Rica, ou seja, pela passagem do século. Lembra-se aqui do instrumento para o Conservatório do Pará (1899), aqueles para Paranaguá (1902), para a igreja protestante alemã de São Paulo (1907), para o Liceu Sagrado Coração de Jesus (1911) e Santa Ifigenia (1921), para a igreja alemã de Petrópolis (1914), para a igreja alemã, (1922), catedral -metropolitana (1923) e igreja protestante alemã do Rio de Janeiro (1928), e, entre outros particulares, para o Convento do Carmo de São Paulo (1931).
Numa consideração aproximadora de Costa Rica e do Brasil, constata-se uma certa similaridade de concepções e de formas de atuação entre compositores brasileiros da época com Campabadal. Também compositores brasileiros, apesar de toda a diferença de formação, tiveram a sua atividade sacro-musical inserida no campo de tensões entre a prática orquestral e a música para órgão e coro na tradição do movimento restaurador. Também eles, porém, não deixaram de ver a utilidade e a necessidade da prática instrumental e coral para a formação da juventude e para a vida musical da comunidade. Como Campabadal, também compositores brasileiros relacionados com movimentos restaurativos da Igreja inseriram-se de forma complexa em ambiente marcado pela procura do progresso. Se Campabadal organizou o primeiro concurso internacional da América Central, Elias Álvares Lobo, por exemplo, co-realizou o primeiro congresso de música de São Paulo. Também Elias Álvares Lobo foi relacionado com círculos religiosos que procuravam a reforma da música sacra e que atuavam pedagogicamente. Também êle participou como professor de música dos esforços de organização de escolas modelares em São Paulo e no desenvolvimento do ensino musical.
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A.A.B.
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