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ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 118/13 - (2009:2)

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Costa-Rica - Brasil


Lírica, zarzuela, opereta e cinema na história da cultura popular urbana:

Teatro Popular Melico Salazar


Trabalhos da A.B.E. 2008. Dir. A.A.Bispo. San Jose, Costa Rica


Um fenômeno singular das últimas décadas em várias capitais latino-americanas é o interesse por casas de espetáculos construídas e utilizadas no passado como teatros de operetas, de revistas, cinemas e refuncionadas para outros usos. Várias dessas casas teem sido recuperadas e revalorizadas.


Inverte-se assim uma situação que levou, até meados da década de setenta, à demolição de teatros e cinemas mesmo de maior porte e valor arquitetônico, com grande perda para o patrimônio cultural de diferentes cidades. A revalorização desses edifícios não ocorre em geral a partir de considerações sobre o seu significado arquitetônico. São motivos culturais que levam a tais reapreciações. Uma consciência crescente do interesse histórico-cultural de uma cultura do quotidiano ou mais popular no complexo cultural de metrópoles e nações poderia ser considerada como mola propulsora desse movimento recuperador de casas de espetáculos. Cada vez mais se toma consciência de que a construção de grandes cinemas em meados da década de 20, culminando nos anos imediatamente anteriores à crise mundial, foi um fenômeno global, e muitos países de todos os continentes possuem edifícios de espetáculos ambiciosos e, em parte, extravagantes do ponto de vista arquitetônico.


Em San Jose, capital de Costa Rica, tem-se um exemplo excepcional desse fenômeno valorizador de edifícios teatrais mais populares do passado. No centro da cidade, ao lado da catedral, eleva-se, em edifício de estilo eclético, na confluência de duas vias de intenso tráfego, o teatro hoje chamado de Melico Salazar. O pesquisador brasileiro surpreende-se, de princípio, ao constatar o significado que é emprestado a esse edifício por parte de autoridades e de intelectuais. Lembra-se que numerosos edifícios similares - e talvez de maior interesse arquitetônico - foram demolidos sem maior consideração em cidades brasileiras das últimas décadas. Ao mesmo tempo, percebe-se a existência de situações comuns que levaram à edificação dessas casas de espetáculos e que se apresentam como instigantes e aptas a serem examinadas com  proveito sob o ponto de vista histórico-cultural.


Um desses contextos diz respeito à edificação de casas de espetáculos por imigrantes e famílias de imigrantes europeus. Chegados sem meios às Américas e aqui conseguindo sucesso econômico, investiram por vezes na construção de teatros e cinemas. Tais empreendimentos não eram apenas expressão de intentos comerciais e empresariais, mas refletiam, pelo que tudo indica, anseios de representação, de criação de imagens, de demonstração de ascensão social e da própria contribuição ao progresso cultural das comunidades. Também a nostalgia da pátria e o desejo de difundir tradições e modos de vida da terra ajudam a compreender esse empenho de imigrantes na construção de casas de espetáculos. Situações assim características de ambientes de imigração interferem na história cultural de várias cidades cosmopolitas, em particular nas esferas mais populares da cultura e da história cinematográfica.


Barcelona-Costa Rica: Zarzuela e identidade


O Teatro Popular Melico Salazar vincula-se historicamente ao empreendimento de um imigrante de nome José Raventós Gual, nascido em Barcelona em 1879, filho de José Raventós e Raimunda Gual, e falecido em San Jose, em 1928. Obteve a sua formação em Barcelona, onde então se observava um entusiasmo pelo teatro de zarzuelas. Chegou à Costa Rica em 1905. Atuou no comércio, e no campo da panificação alcançou sucesso e fortuna. Em 1908, casou-se com Mari Coll Gument. A sua aspiração era a de criar um centro de cultivo de zarzuelas e de operetas em Costa Rica, difundindo o interesse por esse gênero, tais como conhecia da sua terra natal. Para concretizar o projeto, adquiriu uma propriedade no centro da capital, em terreno até então ocupado pelo Quartel Principal e posteriormente pela Escola Juan R. Mora. O projeto da construção ficou a cargo do engenheiro e homem de teatro José Fabio Garnier Ugalde. Salienta-se por uma fachada com elementos classicistas, colunas coríntias, simbolos mitológicos e alegóricos, lira, coros de meninos, embora o conjunto geral seja considerado por alguns como neo-barroco ou neo-churrigueresco. Corresponde, em parte, a edifícios de estética mais conservadora conhecidos de Barcelona. No interior, soluções técnicas atualizadas possibilitaram uma estrutra ousada com balcões.


O edifício foi terminado em 7 de outubro de 1928, pouco antes da crise mundial. Desde o seu início foi alugado por Perry Girton, empresário que contratou a Compañía de Operetas de Esperanza Iris para a inauguração. Esta representou um acontecimento nacional, com a presença do Presidente, do Gabinete e personalidades da vida intelectual e artística do país. Nele apresentou-se, como primeiro filme, o Con la Canción en los labios, de Warner Bros (1929). Com o falecimento do proprietário e a recisão do contrato, o teatro passou a ser administrado pelo filho de Raventós.


A consciência eo significado do edifício para a vida da capital de Costa Rica foi despertada sobretudo após ter sido êle vítima de um incêndio em 1967. Reaberto após restaurações realizadas entre 1976 e 1985, transformou-se em verdadeiro centro cultural, abrigando também espetáculos de artistas populares, e já tendo recebido a visita de artistas brasileiros.


Manuel Salazar Zúñiga (Melico) (1887-1950)


Após a reconstrução do Teatro Raventós, foi este redenominado de Teatro Manuel Salazar. Procurou-se, com isso, trazer à memória pública um dos artistas de Costa Rica que alcançou como poucos renome internacional.


Nascido na capital San Jose, Melico Salazar passou parte de sua infância em Cartago, cidade de antigas tradições culturais e religiosas de Costa Rica. Já na escola mostrou aptidão para o canto, atuando em apresentações escolares. Ia semanalamente à capital para participar no coro do Colegio Seminario.  Estudou na Escola Santa Cecilia de Musica, inaugurada em 1894 e que substituia a Escola Nacional de Música. Seu mentor foi Joaquin Vargas Calvo. Sua primeira apresentação pública deu-se em 1903.


Em 1907, viajou à Itália, estudando em Milão com professores de renome, entre eles Castegnaro e Corado.  A partir de 1910 realizou, com Alfredo Del Diestro, viagens artísticas por Cuba, México, Panamá e outros países da América Central.


Nesse ano, cantou no Teatro Nacional de San Jose, com papéis na Cavalaria Rusticana e I Pagliacci de R. Leoncavallo. A seguir partiu para os Estados Unidos.


A sua vida decorreu no âmbito das relações ítalo-americanas, tanto com a sua própria Compañía Salazar, como com a Compañía Lombardi. Em 1913, apresentou-se na Carmen de Bizet com a San Carlo Opera Company, organizada por Fortunato Gallo. Em 1914, após estadia na Costa Rica, regressou à Italia, onde aperfeiçoou-se com Giulio Moretti. Chegou a cantar sob a regência de Leoncavallo.


Casou-se em Turim. Viajou à Espanha e, após estadia em Costa Rica, dirigiu-se aos EUA, onde, em Boston, afirmou um contrato com a San Carlo Opera Company, percorrendo cidades dos EUA e do Canadá. Em 1917, apresentou-se em Havana. Retornou a Cuba novamente em 1919, chegando a substituir Enrico Caruso.


Foi procurado e apoiado por Gullio Getti-Casazza, empresário do Metropolitan Opera House quando do falecimento de Caruso. Ali atuou em várias óperas, entre elas Andrea Chenier e I Pagliacci nos anos de 1921, 22, 23. Tamém cantou no Carneggie Hall, no Town do Manhattan Opera House, na The Brooklin Academy of Hall Music, entre outras prestigiadas salas.


Cantou em Cuba, Venezuela, Peru , Brasil e México. Na Europa, visitou Barcelona, Moscou, Leningrado, Riga e Berlim.


Gravou para a Columbia Gramophone Company, em 1929. Em 1935, realizou ainda uma viagem de concertos pelo México, Cuba, países da América Central e Panamá. Em 1937, retornou a Costa Rica, onde atuou até 1947 como cantor e empresário. Apresentou-se também no filme Carnival in Costa Rica.


(....)


A.A.B.























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Doc. N° 2427