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ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 118/16 - (2009:2)

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Colombia-Brasil


Afro-americanística e história missiológica em contextos euro-atlântico-pacíficos:

Pedro Claver SJ



Ciclo de estudos Atlântico/Pacífico dir. A.A.Bispo. Cartagena de las Indias 2008







Cartagena de las Indias, Colombia. Igreja e Museu de S. Pedro Claver.

Fotos de H.Hueslkath 2008

 
Nos incipientes estudos culturais voltados a contextos que dizem respeito à Colombia e ao Brasil há um complexo temático que tem recebido maior atenção: aquele que relaciona a história religiosa, a prática teológico-pastoral das últimas décadas e os estudos afro-americanos. Uma das poucas figuras da história colombiana conhecidas no Brasil e presentes no pensamento atual é nada menos a do santo padroeiro do país, Pedro Claver SJ (Verdú, Catalunha 1580 - Cartagena 1654). Pela sua ação junto a escravos africanos aportados em Cartagena, no século XVII, que o fêz, para a Igreja, patrono da missão entre os negros, esse missionário santificado surge frequentemente em textos de autores próximos à teologia da libertação e à pastoral de grupos afro-brasileiros. Essa presença na atualidade não deixa de ter consequências para os estudos culturais respectivos, uma influência que necessitaria ser mais cuidadosamente analisada nos seus pressupostos e nas imagens que transmite.


A própria história da canonização de Pedro Claver SJ e do reconhecimento de seus méritos insere-se em determinada época da história cultural e religiosa européia do século XIX e concepções da época podem estar perpetuando-se de forma pouco refletida através de uma literatura de acentuadas tendências apologéticas.


Uma maior diferenciação dos estudos relacionados com Pedro Claver SJ diz respeito também aos estudos jesuíticos em geral, desenvolvidos no Brasil em centros de estudos e museus. Como salientado em encontros da Academia Brasil-Europa, por exemplo durante o Colóquio Internacional pelos 450 anos de São Paulo no Pátio do Colégio, em São Paulo, os estudos jesuíticos são de excepcional importância para a história colonial e da formação cultural do país, necessitam, porém, eles próprios, ser enquadrados na discussão teórico-cultural mais ampla. No centro das atenções dos estudos jesuíticos brasileiros situam-se grandes vultos da missão entre os indígenas dos primeiros séculos, salientando-se aqui o Pe. José de Anchieta (veja relatos em números anteriores deste órgão). O trabalho jesuítico entre os africanos no Brasil tem recebido menor atenção. Através de Pedro Claver SJ, o „apóstolo dos escravos“, essa lacuna é por assim dizer suprida a partir de contextos que aproximam a história cultural colombiana à brasileira.


Assim como José de Anchieta no Brasil, venerado em vários locais relacionados com a sua vida,  Pedro Claver SJ marca a vida religiosa e cultural de cidades colombianas, em particular aquele onde mais atuou e faleceu, Cartagena de las Indias. Ali eleva-se, na antiga praça de São Jõao de Deus e, posteriormente, de Santo Inácio, a monumental igreja que lhe é dedicada e que, em edifício anexo, guarda um museu com objetos e documentos de sua ação e vida. Com exposições de arte sacra e também de arte afro-americana, sobretudo da região do Caribe, é um local que se tornou emblemático para pesquisadores de temas relacionados com a escravidão. Assim, entre os muitos aspectos da complexa história de Cartagena, ganha particular relêvo o fato de ter sido ela o porto designado pela Coroa espanhola para receber africanos, posição que compartilharia, a partir de 1615, com Veracruz, na Nova Espanha. Para Cartagena, a focalização de Pedro Claver SJ e de sua ação oferece a possibilidade de fazer com que esse passado trágico surja em luz mais favorável: em lugar de porto de escravos, surge, de forma talvez por demais eufemística, como „berço dos direitos humanos“.


Culto a Pedro Claver no contexto eclesiastico do século XIX


O culto a Pedro Claver SJ traz a marca do ambiente religioso-político e das concepções missionárias de fins do século XIX na Europa. A época do pontificado de Leo XIII (1878-1903) foi caracterizada por um acentuado despertar de interesses pela missão, em particular também pela missão africana. Textos anteriormente publicados nesta revista já salientaram alguns dos elos entre esse desenvolvimento missionário na Europa, a renovação do Catolicismo na África com a América Latina e, em particular, com o Brasil. Pouco se tem considerado, porém, que esse desenvolvimento relacionou-se com o movimento anti-escravagista no seu direcionamento sobretudo norte-africano, ou seja, de combate à ação de comerciantes islâmicos no comércio no âmbito história colonial européia na África do Norte.  


Significativo sob o enfoque euro-brasileiros é o fato de que a santificação de Pedro Claver ocorreu no ano da abolição da escravatura no Brasil (1888). A propagação de sua memória e do seu culto no âmbito do movimento anti-escravagista vinculou-se, a seguir, sobretudo com a condessa Maria Theresia Ledochówska  (Loosdorf, Áustria 1863 - Roma, 1922), que seria cognominada posteriormente de a „madre da África“ e se tornaria uma das mais relevantes figuras da Africanística austríaca. Em 1894, Maria Theresia Ledochówska fundou o Sodalicio Petris Claver, comunidade religiosa feminina de auxílio às missões e que até hoje desenvolve intensas atividades a favor da missão africana. Consequentemente, em 1896, Pedro Claver foi nomeado, por Leo XIII, patrono da „missão entre os negros“.


Maria Teresia Ledóchowska, filha de nobre polonês e de mãe suíça, pertencia a uma família de profundos elos com a Igreja. O seu nome e a sua obra voltaram à consciência geral em 2003, quando da santificação de sua irmã, Julia Maria, de nome religioso Ursula. O seu tio, o Cardeal Mieczyslaw Halka Ledóchowski (1822-1902) atuou como prefeito da Congressão De Propaganda Fide.


O despertar de interesses e a dedicação da condessa Ledóchowska à missão africana remontam aos impulsos dados pelo Cardeal Charles-Martial-Allemand Lavigerie (1825-1892), fundador da Oeuvre des écoles d‘Orient e da congregação missionária para a missão africana e para o trabalho entre os muçulmanos (1868-1869), Arcebispo de Cartago e Primas da África. Um marco na ação de Lavigerie foi um discurso pela abolição da escravidão pronunciado em Londres, em 31 de julho de 1888.


A St. Petrus Claver Sodalität diferenciava-se pelo fato de não constituir uma congregação missionária no sentido estrito do termo, com o envio de religiosos para a África, mas sim uma entidade de apoio através de levantamento de fundos e de propaganda. O trabalho de Ledóchowska e de sua congregação assume assim particular interesse para o estudo da história cultural, uma vez que se caracterizou por esforços de divulgação de conhecimentos na Europa, procurando métodos de difusão e de propagação de idéias e de imagens. Ledóchowska atuou por assim dizer mais culturalmente, trazendo à consciência a situação de africanos e seu modo de vida. Desenvolveu intensa atividade publicitária, organizando também conferências e exposições. Chegou a montar uma impressora, em Salzburgo, com o objetivo de divulgar relatos de missionários, textos e livros didáticos em línguas africanas.


A coerência na escolha de Pedro Claver para a denominação do Sodalício pode ser vista a partir da inserção das atividades da condessa Ledóchowska no combate à escravidão africana, ainda praticada por comerciantes árabes de fins do século XIX. Hoje, alguns estudos procuram estudar mais pormenorizadamente esse contexto analisando a ação do Cardeal Lavigerie e da condessa Ledóchowska sob o pano de fundo da história colonial européia na África da segunda metade do século XIX.  Também para a conscientização, na Europa, da realidade trágica da escravidão, Ledóchowska lançou mão sobretudo de meios culturais, tais como museus itinerantes e peças teatrais. Assim, em 1889, criou a peça „Zaida, a menina negra“, um drama popular em 5 atos e, entre outros, em 1917, „O Escapulário do Escravo“. Escrevia sob pseudônimos (Alexander Halka, Africanus). Exerceu uma intensa atividade como conferencista em várias cidades européias. Em 1900, proferiu discurso solene na III Conferência festiva do I° Congresso Austríaco Anti-Escravagista.


A obra e a ação de Pedro Claver foram assim interpretadas à luz da história missionária e do movimento anti-escravagista de fins do século XIX.  Essas circunstâncias históricas que levaram à sua santificação e à sua imagem como figura modelar da missão africana não podem deixar de ser consideradas, uma vez que determinaram o seu culto em dimensões globais. Seria porém necessária uma reconsideração dessas visões de fins do século XIX a partir de enfoques diferenciados da própria época de vida de Pedro Claver?


Pedro Claver no contexto de seu tempo


O nascimento de Pedro Claver ocorreu em época em que se iniciou a União Pessoal entre a Espanha e Portugal, estabelecendo novas situações no relacionamento entre as nações e interferências entre as duas esferas de influência ibérica. Nasceu e cresceu em época marcada pelo incremento do tráfico, um desenvolvimento que apenas pode ser analisado sob o pano de fundo da transformação geo-estratégica que então ocorreu.





Cartagena de las Indias, Colombia. Igreja e Museu de S. Pedro Claver.

Fotos de H.Hueslkath 2008

 
Tem-se salientado as qualidades de personalidade e de formação cultural catalã de Pedro Claver, que vinham de encontro à tradição da Companhia de Jesus. As características de personalidade e de temperamento de Pedro Claver revelariam a marca de suas origens e da cultura da Catalunha. A sua educação ocorreu em instituições jesuíticas em Tarragona, onde alcançou o seu noviciado, de 1602 a 1604, no Colégio de Gerona. Realizou estudos de filosofia no Colégio Monte Sion em Mallorca, de 1605 a 1608. O despertar de interesses pela catequese entre os africanos na América é visto como obra de A. Rodriguez, guardião do convento de Monte Sión. Após ter estudado Teologia por dois anos em Barcelona, foi enviado às Índias Ocidentais, partindo de Sevilha a 15 de abril de 1610.


Chegou assim às Américas à época da instauração da Inquisição em Cartagena. Após ter atuado ca. de um ano em Santa Fé de Bogotá, como irmão leigo, recebeu as ordens sacerdotais em Cartagena, em 1616. Não se pode esquecer que Pedro Claver foi ordenado, em 1615, por um bispo dominicano, Fr. Pedro de la Vega.


A influência de Alonso de Sandoval SJ na sua dedicação e no método de catequese empregado tem sido sempre salientada pela pesquisa.  Sandoval surge como o verdadeiro pai intelectual de Claver por ter-se dedicado aos estudos da vida dos africanos e ser autor da obra „De instauranda ethiopum salute“. O estudo desse método e das concepções a ele inerentes, tanto de antiga tradição dos exercícios espirituais da Companhia, como possivelmente de aspectos diferenciadores nascidos das exigências das circunstâncias representa um dos grandes desafios da pesquisa.


Uma literatura marcada por vários textos altamente emocionais e propagandísticos prejudica o desenvolvimento dos estudos. Assim, quando se diz que o Pedro Claver se fêz „escravo dos escravos“, tal afirmação deve ser vista no contexto mais amplo de seu significado teológico, e somente assim é que se entende que Pedro Claver também atuou como apóstolo de doentes, leprosos, presos e coletador de esmolas. A atuação de Pedro Claver foi tanto a de um cura de almas - também dos escravos já cristianizados e/ou com conhecimentos do Cristianismo que chegavam ao porto - como de missionário junto a „pagãos“.


Os dados que se possui a respeito do método de catequese de Pedro Claver indicam uma similaridade com aqueles empregados pelos jesuítas no mundo de língua portuguesa. A questão da metodologia da catequese no Oriente, por exemplo, já foi tratada de forma mais pormenorizada no exemplo de Francisco Xavier. Conhece-se, daqui, a prática de pregações e de orações públicas, como aquelas realizadas por Pedro Claver.


Tradutores no trabalho de Pedro Claver


O emprêgo de tradutores foi de fundamental importância no Oriente português, assim como na obra de Pedro Claver. Os estudos específicos já levantaram nomes de tradutores e mediadores culturais que atuaram junto a Pedro Claver, alguns trazendo cognomes indicadores de sua respectiva etnia africana. Constata-se, assim, que tradutores provenientes de regiões de influência portuguesa na África auxiliaram na comunicação com escravos que provinham dessas regiões e que provavelmente conheciam algo de português. Como na prática jesuítica de todas as partes do mundo português, também em Cartagena constata-se uma determinada orientação da ação religiosa dirigida ao aprendizado de orações por meio de processos repetitivos e de práticas penitenciais. Uma atenção maior deveria ser dada na pesquisa, com base nos conhecimentos ganhos do mundo de língua portuguesa, ao possível emprego de crianças no trabalho catequético de rua.


Paradoxos na posição paradigmática de Pedro Claver


É digno de nota não ter sido um jesuíta que atuou na África - e a história da Companhia de Jesus no continente remonta ao século XVI, oferecendo imagens que personalidades de grande abnegação  - aquele que passou a ser considerado como patrono da missão entre os negros. O patrono da missão foi um religioso catalão que nunca esteve no continente africano e que dedicou a sua vida aos escravos africanos aportados no Novo Mundo.


O patronato da missão, portanto, vincula-se não tanto à história da cristianização na própria África, mas sim a contextos afro-americanos e intimamente relacionados com a escravidão. Não se pode deixar de constatar aqui uma certa extrapolação e focalização particular da história religiosa e cultural africana.


Mais precisamente, Pedro Claver surge mais como padroeiro da catequese entre os escravos africanos na América, mais como um vulto relacionado com comunidades afro-americanas do que da „missão entre os negros“ em geral. Entretanto, o desenvolvimento dos estudos de contextos político-culturais da época de Claver, e sobretudo o da Inquisição em Cartagena demonstra a necessidade de uma maior diferenciação no exame da obra de Claver.


A.A.B.



















  1. Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu


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  3. Não deve ser confundida com outras instituições, publicações, iniciativas de fundações, academias de letras ou outras páginas da Internet que passaram a utilizar-se de designações similares.



 

Doc. N° 2421