Multidisciplinaridade. Revista BRASIL-EUROPA 117/7(2009:1). Bispo, A.A.(ed.). Organização de estudos interculturais e internacionais. Academia Brasil-Europa A.B.E..

Revista

BRASIL-EUROPA

Correspondência Euro-Brasileira©

Prof. Dr. A.A. Bispo, Dr. H.Hülskath (editores) e Conselho Científico

Organização de estudos teóricos de processos interculturais e estudos culturais nas relações internacionais (registrada 1968)

 


Academia Brasil-Europa
de Ciência da Cultura e da Ciência (Culturologia e Sociologia da Ciência)
e institutos integrados de pesquisa

© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1998 e anos seguintes by ISMPS e.V.© 2009 by ISMPS e.V. Todos os direitos reservados.
ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 117/7 - (2009:1)

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Multidisciplinaridade nos estudos culturais euro-brasileiros e cooperação interdisciplinar


Ciclo Alemanha-Brasil de estudos interdisciplinares e sistêmicos. Pelos 10 anos da morte de N. Luhmann. Reflexões em Witten





  1. Local de reflexões: Witten-Hohenstein. O Hohenstein, no cinto-verde da cidade de Witten, situada no vale do Ruhr, é marcado pelo monumento de Berger, marco da história cultural e esportiva alemã. O parque, situado no alto de uma formação rochosa íngreme, sedia concertos e outras atividades culturais. Em 1913/14 construiu-se ali um edifício monumental que serviu durante anos como restaurante e centro de eventos e seminários. No parque há também um monumento à República em homenagem aos poíticos Friedrich Ebert, Matthias Erzberger e Walther Rathenau. Fotos de A.A.Bispo.

 
Eventos internacionais referentes ao Brasil e a relações bi-laterais entre países europeus e a América Latina, organizados por fundações de cunho político, por entidades governamentais e não-governamentais, por universidades e outras instâncias revelam, em geral, insuficiente consistência teórica. Conferencistas são convidados segundo seus elos pessoais, institucionais ou sua proximidade de orientação política, religiosa ou de pensamento com o ideário das diferentes organizações, representando áreas, correntes disciplinares e tradições de pensamento marcadas por disparidade e e até mesmo incompatibilidade.

A inserção dos estudos brasileiros no âmbito dos assim-chamados estudos regionais fomenta uma situação marcada por incoerência irrefletida, na qual uma pluralidade de disciplinas e áreas disciplinares, de correntes de pensamento e de contextos sócio-profissionais impossibilita ou pelo menos dificulta o desenvolvimento das reflexões. As disciplinas representadas surgem por assim dizer uma ao lado da outra, sem interação mais profunda sob o aspecto metodológico, terminológico ou conceitual.


Nessa situação, na qual representantes de disciplinas específicas surgem sobretudo na sua qualidade de brasileiros ou de especialistas em assuntos brasileiros, jornalistas, economistas, políticos, médicos e técnicos se sentem competentes para tratar e elucidar expressões culturais consideradas como relevantes para a identidade dos complexos culturais envolvidos e para a cooperação internacional. O resultado é a perpetuação de lugares comuns, de estereotipos, de concepções já há muito discutidas de forma diferenciada, de repetição de hipóteses e modêlos elucidativos superados.


As Ciências da Cultura são as grandes perdedoras desses simpósios realizados por fundações e outras organizações em nome do intercâmbio humano e científico internacional. Esses eventos prejudicam o desenvolvimento dos estudos culturais mais aprofundados no Brasil e no Exterior. Estudantes e pesquisadores europeus, que neles participam e posteriormente passam a atuar em organizações culturais mantidas ou apoiadas por fundações e órgãos estrangeiros no próprio Brasil tornam-se multiplicadores de concepções superficiais e insuficientemente refletidas. A influência dessas fundações e organizações surge, assim, como negativa para o desenvolvimento de uma Ciência da Cultura tanto na Europa como no Brasil.


„Inevitabilidade“ do pluridisciplinar


Uma situação de pluridisciplinaridade é, de fato inevitável na situação dos estudos e mesmo devido à natureza dos complexos considerados. O estabelecimento de elos entre as disciplinas representadas é, em geral, deixado para o observador. Aqui, porém, ter-se-ia a necessidade de interferência de teóricos culturais devidamente formados, com competência interdisciplinar, que auxiliem na construção de pontes e na manutenção da necessária profundidade diferenciadora no emprêgo de conceitos e na elucidação de fatos e expressões culturais.


Não se pode evitar, na situação atual, que se solicite às diversas disciplinas que ofereçam a sua contribuição singular a partir de seus próprios objetivos e finalidades, da sua história institucional, de suas perspectivas e procedimentos metodológicos. Sem essa cooperação multidisciplinar não seria possível traçar-se e oferecer-se panoramas gerais e perfís. Os representantes das diferentes áreas disciplinares ou esferas do saber podem oferecer a sua contribuição para a formação de uma espécie de mosaico como todo a ser considerado e analisado.


Certos complexos temáticos nem poderiam ser tratados de outra forma, ou seja, sem a contribuição das várias disciplinas com as suas distintas perspectivações. Entretanto, o uso de diferentes discursos e vocabulários exige sempre tentativas de aproximação e de compreensão recíproca para que o todo não se revele como de tal forma incoerente que impossibilite visões globais fundamentadas.


Implicações culturais de configurações


Quando se oferece um complexo temático geral a ser tratado sob aspectos particulares pelos representantes de diferentes áreas disciplinares ou esferas do saber, cria-se também aqui em geral uma moldura que possibilita a percepção de um quadro, de um todo. São em geral elementos culturais que contribuem à configuração desse todo, imagens, símbolos, expressões visuais e sonoras identificadas com o país ou com determinadas regiões. Com isso, porém, contribui-se para a aceitação irrefletida desses elementos culturais e, portanto, para a perpetuação de um diletantismo cultural. Por mais diferenciadas que sejam as contribuições dos representantes das diferentes áreas, a apresentação de expressões culturais como elementos unificadores de quadros gerais, sem consideração do desenvolvimento dos estudos respectivos determina, por último, a falta de cientificidade do todo.


Na pluralidade das disciplinas renuncia-se por um lado à criação de uma moldura conceitual única ou até mesmo a de escolha de estrategia coerente e refletida. Por outro lado, cria-se um quadro cultural que exprime de antemão uma certa síntese ou sugere uma integração de conhecimentos.


Insuficiência da multidisciplinaridade


Apesar da inevitabilidade da multidisciplinaridade nos estudos dedicados às relações Europa-Brasil, ela não é suficiente para o desenvolvimento satisfatório da ciência. A experiência dos estudiosos particulares, as focalizações especializadas são necessárias, exigem, porém, a orientação competente de teórico-culturais. Aqui não se trata apenas de estudiosos com formação em várias disciplinas, representantes por assim dizer da multidisciplinaridade e, assim, adequados para a consecução adequada de projetos multidisciplinares. Tem-se a necessidade sobretudo de teórico-culturais de formação específica e de competência interdisciplinar, familiarizado também com esforços e tendências metadisciplinares.


Trata-se, sobretudo, de um maior respeito por parte de fundações políticas, culturais e religiosas do Exterior pelo desenvolvimento das Ciências Culturais no Brasil e relativas ao Brasil. Uma verdadeira cooperação intelectual e científica deve partir desse respeito mútuo e basear-se sobretudo no intercâmbio teórico e metodológico.


Transdisciplinaridade e crossdisciplinarity


Um dos aspectos da discussão da multidisciplinaridade no âmbito dos estudos culturais em contextos internacionais diz respeito à transdisciplinaridade. Esse conceito, embora entendido com diferentes conotações, implica na transpassagem de limites e fronteiras disciplinares. Não deveria ser empregado no sentido negativo do termo, significando a transgressão indevida de áreas de competência e de especialização, mas sim o processo refletido metodologicamente e competente de superação de fronteiras. Infelizmente, é no sentido negativo de transgressão indevida que se constata a atuação interdisciplinar nessa área de estudos. Sobretudo a consideração de questões culturais e teórico-culturais por parte de jornalistas poderia oferecer aqui exemplos de transgressões indevidas e de negativas conseqüências para o desenvolvimento dos estudos. Um intelectual transdisciplinar deveria apresentar formação e experiência em todas as disciplinas envolvidas.


Tentativas de transpasse de fronteiras disciplinares não servem apenas à aproximação de intelectuais ou ao diálogo supra-disciplinar. No seu aspecto mais profundo, deveria partir do pressuposto de que, sob determinados aspectos, as fronteiras existentes são artificiais ou inadequadas.

Sob o aspecto teórico e metodológico, o procedimento transdisciplinar deveria poder basear-se em princípios teóricos, conceituais e metodológicos mais abrangentes e aptos a serem aplicados nas diferentes disciplinas. Isso poderia ser visto, por exemplo, na aplicação de concepções teológicas, filosóficas e teóricas como caminho transdisciplinar, quando, por exemplo, se trata de concepções cristãs em várias disciplinas ou de determinados edifícios teóricos políticos e sociológicos. Esse caminho já foi percorrido em vários sentidos em eventos da A.B.E. Tanto a consideração de concepções religiosas no sentido transdisciplinar marcou a realização de simpósios e de seminários e mostrou a sua produtividade na interpretação do sentido de expressões culturais transmitidas no contexto da história colonial e missionária. Tem-se procurado, por outro lado, de forma cada vez mais intensa, aplicar-se critérios éticos de respeito à vida na consideração transdisciplinar.


Deve-se considerar, nas reflexões dirigidas à transdisciplinaridade, também a produção de conhecimento não confinada a disciplinas. O saber pode assim também ser produzido por organizações que não se inserem no edifício universitário. Ter-se-ia assim uma produção por assim dizer horizontal de conhecimentos, através das disciplinas e uma vertical, produzido por grupos e indivíduos. Transdisciplinaridade implicaria, nesse sentido, na interação de conhecimentos gerados pelas disciplinas e por processos não disciplinares.


Um outro aspecto que necessitaria ser considerado mais pormenorizada nos estudos culturais em complexos euro-brasileiros é o designado pelo termo Crossdisciplinarity. Ter-se-ia aqui um procedimento que surge como muito mais freqüente do que normalmente se supõe. O cruzamento de elos disciplinares com o intuito de exposição de um tema, de uma expressão cultural ou de uma situação a partir de critérios e de termos de outro contexto é comum nos estudos culturais regionais e, em particular, nos estudos em contextos euro-brasileiros. Freqüentemente constata-se por exemplo intuitos de consideração política da história literária ou artística através do emprêgo de concepções e argumentos da politologia, como exemplificados em números anteriores desta revista. Procedimentos de disciplinaridade cruzada podem ocorrer paralelamente e conjuntamente àqueles propriamente transdisciplinares e metadisciplinares. O aguçamento da capacidade de percepção dos diferentes intuitos e procedimentos deveria vir a constituir uma preocupação dos envolvidos.


Os debates deverão ter prosseguimento.


Anotações sumárias do discutido. Grupo Redatorial



  1. Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu


  2. Brasil-Europa é organização exclusivamente de natureza científica, dedicada a estudos teóricos de processos interculturais e a estudos culturais nas relações internacionais. Não tem, expressamente, finalidades jornalísticas ou literárias e não considera nos seus textos dados divulgados por agências de notícias e emissoras. É, na sua orientação culturológica, a primeira do gênero, pioneira no seu escopo, independente, não-governamental, sem elos políticos ou religiosos, não vinculada a nenhuma fundação de partido político europeu ou brasileiro e originada de iniciativa brasileira. Foi registrada em 1968, sendo continuamente atualizada. A A.B.E. insere-se em antiga tradição que remonta ao século XIX.


  3. Não deve ser confundida com outras instituições, publicações, iniciativas de fundações, academias de letras ou outras páginas da Internet que passaram a utilizar-se de designações similares.



 

Doc. N° 2409