Academia Brasil-Europa
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ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 117/9 - (2009:1)

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Consenso e/ou opção na ação comunicativa


Ciclo Alemanha-Brasil de estudos interdisciplinares e sistêmicos. Pelos 10 anos da morte de N. Luhmann. Reflexões em Koblenz





Local das reflexões:
Esquina Alemã na confluência dos rios Mosela e Reno, Koblenz. Fotos A.A.Bispo

 
A passagem dos 40 anos de fundação da sociedade Nova Difusão, entidade constitutiva da organização Brasil-Europa, deu ensejo, no ano 2008, à retomada de reflexões referentes à Difusão Cultural, relacionando-as com o desenvolvimento da discussão teórica das últimas décadas.


Sob muitos aspectos, questionamentos de fins dos anos 60 parecem manter a sua atualidade, merecendo ser recolocados e rediscutidos, agora sobretudo em contextos internacionais. Para isso, torna-se necessário atualizar modêlos de pensamento, considerar outros tipos de argumentação e tendências dos debates nas várias áreas do saber. Assim, durante os trabalhos realizados pela A.B.E. em 2008, procurou-se considerar continuidades e descontinuidades no debate teórico nos últimos 40 anos. Um dos aspectos considerados disse respeito à questão da teoria da comunicação nos seus elos com a Teoria de Sistema de Niklas Luhmann, sociólogo falecido há 10 anos atrás. (ponto de partida das reflexões: Dirk Baecker, ed. Einführung in die Systemtheorie, Niklas Luhmann, 2a. ed. 2004, ISBN 3-89670-459-1)


O objetivo principal da Nova Difusão era o de questionar a prática e os fundamentos conceituais da difusão cultural, procurando caminhos para procedimentos e posições refletidas. Criticava-se uma prática e uma política de difusão cultural que agiam de forma não consciente e não adequada às transformações sociais de então, assim como ao desenvolvimento dos meios de comunicação. Era a época em que os primeiros cursos de Teoria da Comunicação passavam a ser realizados, salientando-se aqueles levados a efeito por Décio Pignatari para o Departamento de Cultura de São Paulo.


No âmbito da Nova Difusão, os modêlos teóricos do processo comunicativo passaram a ser aplicados na análise de processos culturais. Analisava-se a questão da difusão cultural privilegiadamente sob essas concepções, analisando-a no sentido de uma comunicação. A crítica da passividade do receptor na assimilação do transmitido e o intuito de transformá-lo em observador consciente implicavam em colocá-lo numa posição de sensibilidade mais acurada que permitisse relativar aquilo que estava sendo difundido. Esses problemas então percebidos tiveram paralelos em questionamentos discutidos nas décadas seguintes na Europa.


Consenso como finalidade da Comunicação?


Uma das situações controversas na discussão teórica de fins da década de sessenta dizia respeito aos diferentes posicionamentos quanto aos caminhos a serem seguidos na difusão cultural e na sua renovação. Algumas dessas posições divergentes foram tratadas nas edições anteriores desta revista. Em visão retrospectiva, essa situação controversa apresenta pontos de contato com a discussão relativa ao consenso, levada a efeito na Europa nas décadas seguintes. A dimensão teórica desse debate revela-se sobretudo na crítica de N. Luhman sobre o consenso como finalidade da Comunicação. Essa criticada concepção basear-se-ia na idéia de que, na transmissão de uma informação, haveria uma tentativa de convencer alguém de algo. A informação seria compreendida como base de uma orientação comum ou de uma ação conjunta.


Um dos pensadores da história recente que mais se destacaram na convicção de que o objetivo da Comunicação seria o estabelecimento de consenso foi J. Habermas (Theorie des kommunikativen Handels). Segundo êle, haveria muitos tipos de comportamento comunicativo, mas a ação comunicativa seria sempre orientada para o alcance de consenso.


Segundo N. Luhmann, porém, partindo-se da concepção de Autopoiesis, dever-se-ia levantar a questão do que aconteceria após ter-se alcançado o consenso. Na realidade, a ação comunicativa deveria terminar com o alcance do consenso. O "Mundo de Vida" (Lebenswelt) incluiria porém tantas possibilidades de discrepâncias que não haveria possibilidade de alcance de consenso completo. Por essa razão, não se deveria fazer de uma improbabilidade uma norma, dizendo que toda a ação comunicativa se orienta necessariamente para o consenso, como se todo o resto não representasse ação comunicativa. Essa concepção de alcance de consenso basear-se-ia na idéia de que aquele que age corresponde a normas e comunica de forma dirigida ao entendimento e ao consenso.


N. Luhmann, porém, parte da idéia de que Comunicação é um processo em si. Esse processo pode definir informação como ação, mas isso não representa toda a Comunicação. Comunicação seria um processo acima da ação, um processo que constrói ações, mas que não é ação.


Uma teoria que permite que o ato comunicativo, a unidade de um acontecimento comunicativo termine com o compreender, deixando livre o que acontece posteriormente, permite segundo N. Luhmnann que seja dito sim ou não para aquilo que se entendeu. O que se produz não é consenso ou, ao contrário, lamentável discrepância e mal-entendimento, mas sim uma situação de opção.


Quando o processo alcança o ponto da compreensão pode-se aceitar ou negar aquilo que se entendeu como premissa para o prosseguimento da comunicação. Seria errôneo, segundo essa argumentação, considerar-se a comunicação sob a perspectiva da retórica ou da persuasão, negando a possibilidade do dizer-se Não. A opção para o sim e o não deveria permanecer aberta para o próprio prosseguimento da Comunicação.


Ter-se-ia aqui a abertura do sempre continuar a fazer e da não-linearidade do que sucede e, sob esse aspecto, a comunicação não teria apenas um direcionamento - o do consenso - mas sempre deixaria abertas duas possibilidades.


(...)


Anotações sumárias do tratado. Grupo Redatorial

























  1. Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu


  2. Brasil-Europa é organização exclusivamente de natureza científica, dedicada a estudos teóricos de processos interculturais e a estudos culturais nas relações internacionais. Não tem, expressamente, finalidades jornalísticas ou literárias e não considera nos seus textos dados divulgados por agências de notícias e emissoras. É, na sua orientação culturológica, a primeira do gênero, pioneira no seu escopo, independente, não-governamental, sem elos políticos ou religiosos, não vinculada a nenhuma fundação de partido político europeu ou brasileiro e originada de iniciativa brasileira. Foi registrada em 1968, sendo continuamente atualizada. A A.B.E. insere-se em antiga tradição que remonta ao século XIX.


  3. Não deve ser confundida com outras instituições, publicações, iniciativas de fundações, academias de letras ou outras páginas da Internet que passaram a utilizar-se de designações similares.



 

Doc. N° 2419