Academia Brasil-Europa
de Ciência da Cultura e da Ciência (Culturologia e Sociologia da Ciência)
e institutos integrados de pesquisa

© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1998 e anos seguintes by ISMPS e.V.© 2009 by ISMPS e.V. Todos os direitos reservados.
ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501

N° 117/6 - (2009:1)

_________________________________________________________________________________________________________


Índice da edição     Índice geral     Portal Brasil-Europa     Academia     Contato     Convite     Impressum     Editor     Estatística     Atualidades

_________________________________________________________________________________________________________


Da „utilidade“ da Filosofia no debate interdisciplinar e intercultural


Ciclo Alemanha-Brasil de estudos interdisciplinares e sistêmicos. Pelos 10 anos da morte de N. Luhmann. Reflexões em Klausen





  1. Local das reflexões: Igreja de romaria S. Lourenço. Eberhardsklausen, o maior centro de peregrinação da Diocese de Trier. O monge Eberhard iniciou, no século XV, a veneração de uma imagem de Maria. Após ter construído uma pequena clausa para a imagem, em terreno doado por proprietários de terra na aldeia de Krames, vendeu todos os seus haveres, adquirindo um sino, um candelabro de ferro e uma imagem de Maria. Passou a viver como guardião em cabana construída ao lado da capela. Esta adquiriu com o tempo fama de ser palco de milagres. Por ciúmes, o pároco de Piesport procurou destruir a capela. No decorrer de um processo contra o religioso responsável pelo culto, a imagem foi transportada para a igreja de Piesport. Após ter sido preso como refém, o religioso pode recuperar a imagem. Em 1444 construiu-se uma capela maior, sendo ampliada entre 1447/48. Uma nova igreja foi sagrada em 1449. Fundou-se a seguir um convento da Congregação de Windesheimer, possivelmente sob ação do Cardeal Nikolaus von Kues. Em 1456, para ali vieram Cônegos Agostinhos dos conventos Niederwerth, de Koblenz e Bödekken. O local tornou-se importante centro da vida conventual ascética do século XV, contribuindo para a renovação da vida religiosa. Á época francesa, o convento foi suprimido.

 

No âmbito das discussões referentes ao diálogo e à cooperação interdisciplina levanta-se a questão do papel a ser exercido pela Filosofia. Até há poucas décadas, a Filosofia era a disciplina-guia, condutora das Ciências Humanas no sistema universitário de vários países. Estranhamente, a Filosofia é praticamente ausente de eventos e empreendimentos bi-laterais ou de cooperação internacional.


Como se poderia tratar adequadamente a relação entre esferas da Unidade do Conhecimento e do pensamento com a Diversidade das culturas? Quais seriam as possibilidades de desenvolvimento de uma Filosofia Intercultural, como concebida por alguns pensadores europeus e discutida em seminários da A.B.E.? Uma Filosofia Intercultural, subordinando-se à Ciência da Cultura, não daria a esta o papel condutor na cooperação interdisciplinar? Não haveria lugar então para a Filosofia na tradição do pensamento e do sistema universitário no trabalho interdisciplinar em contextos internacionais? Representaria expressão de eurocentrismo considerar a história da Filosofia, as suas correntes e tendências no âmbito de estudos regionais e supra-regionais? Não haveria „utilidade“ no estudo da Filosofia para estudantes vindos de países não-europeus nas Universidades da Europa? Não haveria lugar para filósofos em eventos e publicações bi-laterais ou internacionais?


A questão da „utilidade“ das Ciências Humanas, por mais superficial que possa parecer, vem desempenhando um certo papel em círculos administrativos e políticos relacionados com a cultura e as ciências, como o demonstra a assim-chamada Teoria da Compensação (veja texto nessa edição).  Para o trabalho interdisciplinar, a Filosofia surge como de fundamental relevância, também para os representantes da Teoria da Compensação. Por essa razão, os filósofos possuem um papel significativo em cooperações interdisciplinares. Eles trazem da sua tradição uma compreensão de séculos pela não consensualidade de posições fundamentais, de convivência com aporias abertas e dissenções. Assim, o problema secular da falta de consenso na Filosofia seria um fator positivo para o presente. O filósofo não é o especialista, e isso contribui para que surja como catalisador.


Posição especial da Filosofia


Um dos textos críticos concernentes a essa teoria partiu do problema da „utilidade das Ciências Humanas" (Minu Hematti e Kai Buchholz, "Vom Nutzen der Geisteswissenschaften", Universitas 53/629, Novembro 1998, 1074-1086).


Os autores, criticando sobretudo o pragmatismo que se encontra à base da teoria da compensação, salientaram as posições singulares ocupadas pela Psicologia e pela Filosofia no edifício universitário, demonstrando a imprecisão da argumentação. A primeira, a Psicologia, seria tanto Ciência do Espírito quanto Ciência Natural, e a segunda, a Filosofia, nem seria uma Ciência, na verdade, sendo inadequado considerá-la no seio das Ciências Humanas em debates relativos à interdisciplinaridade.


A posição especial que ocupa a Filosofia no contexto das disciplinas da universidade atual não é sempre bem compreendida. Para os autores, a sua verdadeira tarefa não seria de expor afirmativamente conhecimentos científicos, mas sim de examinar proposições de outras disciplinas segundo os seus pressupostos semânticos, argumentativos e práticos. A Filosofia não possuiria, assim, campos de aplicação tais como aqueles de outras disciplinas. Seria inapropriado dela esperar-se finalidades práticas e usos concretos, tais como aqueles que se esperam da Medicina ou da Tecnologia. Não seria por isso, entretanto, que ela não teria relevância. Ela atuaria também sem ter uma área especial de objetivos.


Filosofia como Teoria da Ciência

Compreendida como Teoria da Ciência,segundo os autores do estudo, a Filosofia poderia fazer das outras ciências o seu tema. Sob esse aspecto, possuiria 3 campos de tarefas: 1) o exame crítico de métodos das várias disciplinas e os seus resultados segundo fundamentação, adequabilidade e consistência terminológica; 2) a relativação e a sistematização de teorias científicas em desenvolvimentos mais amplos com a ajuda de estudos históricos, e 3) a tematização da relação entre Ciência e Mundo de Vida.


Sob o primeiro ponto, a Filosofia pode oferecer auxílios para a construção de linguagens científicas adequadas e facilitar o trabalho heurístico dos cientistas. Sob o segundo ponto, a Filosofia abriria a possibilidade de se considerar resultados científicos esquecidos na solução de problemas atuais e de se evitar que êrros cometidos no passado sejam repetidos no presente. A pesquisa histórico-científica pode também mostrar a dependência de objetivos de pesquisa de condições histórico-contingentes. Sob o terceiro ponto, a Filosofia apoiaria tanto a Ciência quanto a Sociedade. Ela mostraria como as Ciências se desenvolvem a partir da praxis social e nela atuam. Ela pode surgir como intermediária entre as duas, ou seja, como como mediadora. A Filosofia poderia também questionar normas independentemente de objetos especiais. A Filosofia teria aqui três campos de ação: 1) a ética; 2) o exame da questão do sentido da vida; 3) a filosofia política, que questionaria a organização racional de instituições sociais. A Filosofia assumiria em alguns campos um papel similar ao do juíz que deve julgar entre pontos de vista de especialistas.


Filosofia e História, Filosofia da História


A Filosofia desempenha ainda sob um outro aspecto um papel de importância na crítica à Teoria da Compensação. Um dos principais argumentos dos defensores dessa teoria diz respeito à questão da diversidade das Histórias, da pluralidade que seria própria às Ciências da Cultura em contraposição à globalidade, à unidade quase que a-histórica que seria própria das Ciências Naturais. Os críticos dessa teoria, no exemplo do artigo citado, vêem aqui, e com razão, um dos pontos vulneráveis da argumentação. Segundo eles, seria pouco defensável pensar-se que as Ciências Humanas existiriam sobretudo para as Histórias.


Sob esse aspecto, o debate retornou a um dos principais complexos de questões da assim-chamada Filosofia Intercultural: o da Unidade na Diversidade e o da Diversidade na Unidade.



Anotações sumárias do tratado. Grupo Redatorial



  1. Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui aparato científico. O seu escopo deve ser considerado no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que se oriente segundo o índice desta edição e o índice geral da revista (acesso acima). Pede-se ao leitor, sobretudo, que se oriente segundo os objetivos e a estrutura da Organização Brasil-Europa, visitando a página principal, de onde obterá uma visão geral e de onde poderá alcançar os demais ítens relativos à Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência (culturologia e sociologia da ciência), a seus institutos integrados de pesquisa e aos Centros de Estudos Culturais Brasil-Europa: http://www.brasil-europa.eu


  2. Brasil-Europa é organização exclusivamente de natureza científica, dedicada a estudos teóricos de processos interculturais e a estudos culturais nas relações internacionais. Não tem, expressamente, finalidades jornalísticas ou literárias e não considera nos seus textos dados divulgados por agências de notícias e emissoras. É, na sua orientação culturológica, a primeira do gênero, pioneira no seu escopo, independente, não-governamental, sem elos políticos ou religiosos, não vinculada a nenhuma fundação de partido político europeu ou brasileiro e originada de iniciativa brasileira. Foi registrada em 1968, sendo continuamente atualizada. A A.B.E. insere-se em antiga tradição que remonta ao século XIX.


  3. Não deve ser confundida com outras instituições, publicações, iniciativas de fundações, academias de letras ou outras páginas da Internet que passaram a utilizar-se de designações similares.



 

Doc. N° 2413