Doc. N° 2384

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1999 by ISMPS e.V. © 2006
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116 - 2008/6
68: Renovação de repertórios e musicologia histórica européia
Vespro della Beata Vergine de Monteverdi no Brasil
Klaus-Dieter Wolff e Roberto Schnorrenberg
Revendo 1968 na vida musical Paulistana. Trabalhos da A.B.E. 2008
40 anos de fundação da sociedade Nova Difusão
constituidora da Organização Brasil-Europa
Um dos maiores empreendimentos de cunho musicológico de entidades musicais paulistanas de 1968 foi a realização do Vespro della Beata Vergine, de Cláudio Monteverdi. A obra foi apresentada no Teatro Municipal, a 17 de novembro e a 7 de dezembro. O segundo concerto foi patrocinado pelo Hospital de Interlagos. A récita foi levada a efeito pelo Conjunto Coral de Câmara de São Paulo, pelo Madrigal Ars Viva de Santos, pelo Collegium Musicum de São Paulo e por orquestra sob a direção de Roberto Schnorrenberg. O maestro preparador foi Klaus-Dieter Wolff.
Klaus-Dieter Wolff (1926 -1974)

A vida, a obra e as atividades de Klaus-Dieter Wolff ainda não foram consideradas à altura de seu significado pela pesquisa hitórico-musical do passado mais recente no Brasil. A sua vida e a sua atuação surgem sobretudo como relevantes para uma história cultural dos elos entre a Alemanha e o Brasil. Pela sua morte prematura, caiu injustamente no esquecimento.
Klaus-Dieter Wolff dedicou-se durante muitos anos à renovação
criteriosa do repertório musical, acompanhando-a com estudos aprofundados.
Tendo nascido em Frankfurt, transferiu-se para o Brasil em 1936.
No Brasil, adquiriu singularmente uma formação musical de cunho
alemão. Estudou com Hans Joachim Koellreutter, proveniente de
região próxima àquela de Klaus-Dieter Wolff, na Escola Livre de
Música Pró-Arte.
Klaus-Dieter Wolff perfeiçoou-se em regência coral com Kurt Thomas,
tornando-se um dos expoentes da regência como atividade tecnicamente
elaborada no Brasil. Como cantor solista (baixo), tendo estudado
com Lilly Wolff e Ula Wolff (Ursula Simon Wolff), apresentou-se
em recitais em várias cidades. Procurou difundir a canção de câmara
de compositores pouco conhecidos no país.
À época da realização da obra de Monteverdi, havia há pouco visitado os Estados Unidos, a convite de Robert Shaw.
Klaus-Dieter Wolff foi um dos vultos de uma fase da história da
difusão musical no Brasil caracterizada por conceitos de expansão
e que foi acompanhada de intuitos de formação de regentes como
multipladores e de criação de uma rêde de conjuntos corais. Significativamente,
tornou-se um dos principais protagonistas do Centro de Expansão Coral da Juventude Musical de São Paulo.
Conjunto Coral de Câmara de São Paulo
O Conjunto Coral de Câmara de São Paulo foi fundado por Klaus-Dieter Wolff a 15 de novembro de 1951.
Tinha o escopo explícito de cultivar e divulgar o repertório musical
menos conhecido do público brasileiro. Compreendia-se aqui sobretudo
a música medieval, renascentista, assim como a música contemporânea
e aquela de autores brasileiros. Para o cumprimento desses objetivos,
tornava-se necessário a realização de pesquisas e estudos, o que
dava à iniciativa um cunho acentuadamente musicológico, ou melhor,
histórico-musicológico.
O Conjunto Coral de Câmara foi premiado em concurso promovido pela Comissão Estadual de
Música, em 1959. O trabalho também foi reconhecido através de
prêmios concedidos pela Associação Paulista de Críticos Teatrais,
em 1961, 1966 e 1967.
Era constituído, em 1968, por Alcina Moreira Leitte, Antonieta
Moreira Leite, Cheila S. Terra Simão, Inês Peralva Costa, Lucin
H. Kechichian, M. Aparecida Antunes da Costa, Maria Aparecida
Ferraz Wey, Maria Aparecida T. Villas Boas, Maria Aparecida Jorge,
M. Regina Medeiros de Assis, Maria Tereza Grassetto, Ruth Zonory
Ohnstein (sopranos); Jacyra Pires de Carvalho, Laís C. de Faria,
Lisolette Schachtitz, Maity Meyer, Maria Helena T. Villas Boas,
Maria Ignez Ribeiro Lopos, Marina Ribeiro Leite, Rosmarie Appy,
Stela Panzolo F. de Souza, Yeda Ribeiro de Souza Carvalho (contraltos);
Laudo Olavo Datri, Luis D. Villares, Marzo Freire, Pietro Lapiccirella,
Samuel Carlos O. Pachego, Sérgio Benedetti, Victoriano Pietro
Puentes (tenores), Antonio Casemiro Pereira, Augusto Cezar Romanelli,
Carlos Augusto Vial, Carlos Stegmann, Fábio Moreira Leite, Jorge
Tarcha, Nelson Manzani e Ruy Brandão Azevedo (baixos).
Madrigal Ars Viva de Santos
Entre as iniciativas e entidades que foram lideradas por Klaus-Dieter
Wolff destaca-se o Madrigal Ars Viva de Santos. Fundado dez anos após o Conjunto Coral de Câmara de São Paulo, o conjunto era constituido por professores e aficcionados da
música. Era outro conjunto que se dedicava a cumprir a missão
de Klaus-Dieter Wolff de divulgar obras desconhecidas da Idade
Média, da Renascença, além de composições de autores brasileiros
e da música nova. Também esse conjunto recebeu vários prêmios,
salientando-se aquele da Associação Paulista de Críticos Teatrais,
em 1963.
Era constituído, na época, pelos seguintes cantores: Carmen Vallejo,
Luci de Oliveira, Maria Georgina Rodrigues, Maria Luiza de Moura
Carvalho, Maria de Paula e Silva, Sylvia Maura Lassala Freire,
Silvia Helena F. de Sampaio, Tereza Barreto Vallejo, Yone Pereira
(sopranos), Adriana de Oliveira Ribeiro, Dirce de Paula e Silva
Mendes, Dulce Fonseca Dias Pinto, Ema Ferreira Basile, Maria Regina
NAscimento Telloes, Marisa F. Fonterrada (contraltos), Antonio
Barja Filho, Gilberto Mendes, Luiz Edson Negrão, Marzo Freire,
Ubirajara Escobar, Walter Simoni (tenores), e Antonio Rodrigues
Fernandez, Carlos Sshiomi, Josias Ferreira Nobre, Milton dos Santos
e Roberto Gomes Martins (baixos).
Roberto Schnorrenberg (1929-1983)

O regente titular e mentor do Collegium Musicum era Roberto Schnorrenberg, uma das personalidades da vida musical brasileira que mais se salientava pela sua erudição e pela dedicação a estudos especificamente histórico-musicais. Seguia o o desenvolvimento internacional desses estudos através de publicações, monografias, periódicos, de estudo de fontes prático-musicais editadas, chegando a possuir vasta biblioteca especializada. Assumiria, mais tarde, a pedido do autor destas linhas, a Presidência da Sociedade Brasileira de Musicologia (1981). Como Klaus-Dieter Wolff, também tinha sido um dos discípulos de Hans-Joachim Koellreutter. Estudara além do mais com Ernst Krenek, tornando-se um dos representantes da estética e da técnica dodecafônica no Brasil.
Correspondendo à orientação também constatada em outros músicos da geração formada sob a influência de Koellreutter, o seu interessa se voltava sobretudo à música mais antiga, que cultivava à frente do Collegium Musicum, e à música contemporânea, como compositor e professor de matérias teóricas. Distinguia-se sobretudo pela sua erudição histórico-musicológica e pela sua capacidade de liderança e de empreendimento.
Havia estudado no Mozarteum de Salzburg (1954/55) com Gerhard Wimberger e Igor Markevitch, e, na Alemanha, em Detmold, com Wolfgang Fortner. Fora regente da orquestra Música Viva, em Bruxelas, de 1955 a 1957. Desde o seu retorno ao Brasil, em 1957, adquirira renome a partir dos Seminários de Música Pró-Arte, em São Paulo e no Rio de Janeiro, tornando-se personalidade altamente considerada como professor, regente, e diretor de festivais e seminários internacionais no Rio de Janeiro (Teresópolis, 1959, 1961, 1963), no Rio Grande do Sul (1961-1963) e, mais recentemente, a partir de 1965, do Paraná. À época da realização da obra de Monteverdi era membro da Comissão Estadual de Música de São Paulo. Havia realizado recentemente uma tournée pela França e pelos Estados Unidos e tinha sido contratado como regente da Orquestra Sinfônica Municipal, exercendo ao mesmo tempo a função de assessor artístico do Departamento Municipal de Cultura.
Collegium Musicum de São Paulo
O Collegium Musicum de São Paulo foi fundado em 1964, ou seja, alguns anos após o Madrigal Ars Viva de Santos. O seu intuito explícito era o da divulgação do repertório
da Idade Média, da Renascença, do Pré-barroco e do Barroco. Também
aqui atuava Klaus-Dieter Wolff. O Collegium Musicum tinha sido reconhecido no seu trabalho através de prêmios da
Associação Paulista de Críticos Teatrais, em 1964 e em 1967.
Era constituído na época, pelos seguintes cantores: Maria Cecilia
Braga e Silva, Mariinha Lacerda, Maria Pupo, Neide Carvalho, Nina
Montenegro (sopranos), Mariangela Réa, Marilena T. Oliveira, Maria
Penalva (contraltos), Alasdair Burman, José Zula de Oliveira,
Samuel Kerr, Ian Capps (tenores), e Klaus-Dieter Wolfrf e Tarcísio
Teixeira (baixos).
Discussão musicológica - stile antico e stile moderno
A realização do Vespro della Beata Vergine vinha de encontro a um novo interesse pela música sacra de Monteverdi
na musicologia histórica internacional.
O estágio dos estudos histórico-musicológicos de Schnorrenberg
- e de Klaus-Dieter Wolff - por ocasião da realização da obra
de Monteverdi ainda não foi devidamente considerado. No texto
publicado nos programas salientava-se o redescobrimento dessa
obra após a sua apresentação, em 1935, por H. F. Redlich. Após
esse estudo, ter-se-ia novamente dado atenção às obras do compositor
inseridas em coletânea mariana ublicada em 1610, em Veneza, pelo
editor Ricciardo Amadino. Essa coletânea continha uma missa a
seis vozes, sobre um moteto de N. Gombert, uma série de Motetos
e os Salmos, Hino e Magnificat das Vésperas em stile moderno. Das duas versões do Magnificat, uma com vozes e instrumentos,
outra a seis vozes e órgão, os realizadores escolheram a primeira.
A segunda já tinha sido apresentada pelo Collegium Musicum em São Paulo.
Como Roberto Schnorrenberg salientava, muito se discutia a compilação
do texto. Segundo L. Schrade, os Motetos teriam aqui substituído
as antífonas da prática litúrgica, cantadas antes e depois dos
Salmos. Segundo D. Stevens, a sequência das peças seria apenas
resultado de conjecturas práticas e comerciais do editor. Segundo
W. Osthoff, para o esclarecimento desses problemas litúrgicos
necessitar-se-ia analisar mais pormenorizadamente a concessão
papal de liturgia especial outorgada aos Gonzaga, em 1583.
A realização do Vespro della Beata Vergine representava um desafio sob o aspecto de uma prática musical
refletida histórico-musicologicamente. Os seus realizadores salientaram
os problemas textuais e musicais que se prendiam a essa obra.
As partes correspondentes ao ofício (Salmos, Hinos e Magnificat)
constituiriam um todo que justificavam a sua realização como um
conjunto. Entretanto, tratando-se de concerto, e não de ofício
litúrgico, optaram por omitir as antífonas. Preferiu-se empregar
a Sonata "sopra Sancta Maria" para o início da segunda parte da apresentação.
O estudo da literatura musicológica correspondente incentivou
a discussão de questionamentos histórico-musicológicos no Brasil.
Um dos aspectos debatidos dizia respeito à questão do stile antico e do stile moderno no desenvolvimento da música européia. Esse questionamento -
ampliado por aspectos relativos à sua relevância histórico-cultural
- seria prosseguido pelo autor destas linhas na Europa, a partir
de 1974, em estreito relacionamento dialogal com Roberto Schnorrenberg.
A extensão da discussão musicológica à pesquisa musical do passado
brasileiro teria a sua expressão máxima no concerto dedicado a
obras em stile antico da tradição do país pelo encerramento do Simpósio Internacional
Música Sacra e Cultura Brasileira, em 1981. A apresentação, pelo
Collegium Musicum de São Paulo, sob a direção de Roberto Schnorrenberg, deu-se
na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco.
Teve-se, aqui, um marco na mudança de posições relativamente à
difusão cultural, seguindo-se proposições já defendidas pela sociedade
Nova Difusão, em 1968. À época da apresentação do Vespro della Beata Vergine, questionava-se o sentido cultural e sócio-cultural de uma extensão
do debate histórico-musicológico europeu ao Brasil. Essa extensão
faria apenas sentido se não ocorresse dentro da tendência então
dominante de "expansão", mas sim se fosse guiada por uma concepção
refletida de difusão cultural a partir de estudos diferenciados
do passado e do presente brasileiros. Não se trataria de difusão
de uma obra européia apenas com o sentido de ampliação e renovação
do repertório cultivado em concertos no Brasil, mas sim de estabelecimento
de uma visão ampla no estudo de processos culturais euro-brasileiros.
Essa visão teria repercussão na própria pesquisa européia, uma
vez que representava uma superação de limitações histórico-musicais
constatadas na Europa e uma reorientação intercultural da assim-chamada
musicologia histórica.
A.A.Bispo
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).