Doc. N° 2342

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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114 - 2008/4
Entre céu e terra: Mont Saint-Michel e as montanhas sagradas do mundo
Saint-Michel-au-Péril-de-la-Mer
XIII Centenário do Mont Saint Michel
Mont Saint Michel. Trabalhos da A.B.E., maio-junho 2008
A.A.Bispo
O ciclo de estudos Normândia-Bretanha-Brasil, realizado pela Academia
Braisl-Europa em maio e junho de 2008, iniciou-se com uma revisita
do Mont Saint-Michel por motivo do seu XIII Centenário. A exposição
fotográfica ali apresentada, de título "Entre Terra e Céu", deu
ensejo a reflexões que representaram uma introdução aos trabalhos.

Trabalhos da A.B.E. 2008. Fotos A.A.Bispo
Pelos muros, escadarias e espaços da Abadia apresentaram-se fotos
de montanhas sagradas de diversas partes do mundo, de templos
em serras e de ritos e cerimônias realizados em lugares altos.
Sobretudo regiões orientais, entre êles o Tibet, a China e a Índia,
foram consideradas em expressivas imagens. Também montanhas de
conotações religiosas de aborígenes australianos ou mesmo do Novo
Mundo estiveram representadas.
A exposição, mesmo sem ser de forma explícita, apontou para aspectos
quase que universais relacionados com a montanha nas suas implicações
simbólicas, sensibilizando o visitante a outra percepção do Mont
Saint-Michael. Não deixou, assim, de ter uma conotação religioso-comparativa,
questionável talvez sob o ponto de vista de determinadas correntes
teológicas, mas sugestivas certamente para questionamentos culturais.
No vasto espectro de montanhas, igrejas e templos considerados,
o Brasil poderia ter estado representado com vários exemplos,
desde o Monte Roraima às igrejas da Penha no Espírito Santo e
no Rio de Janeiro, de Monteserrate em Santos, além de muitos outras
templos em cidades e bairros.
Esboço histórico
A história do Mont-Saint-Michel remonta ao início da história
cristã da região. Em 966, sob o Duque Ricardo, os primeiros religiosos
do local foram substituidos por beneditinos da Abadia de Fontenelle
(hoe Saint Wandrille). Construíram uma igreja maior, com amplos
arcos, mais tarde ainda mais ampliada. Tendo sido a igreja primitiva
por assim dizer soterrada sob construções posteriores, existe
até hoje sob a designação de Notre-Dame-sous-Terre. É importante
salientar esse fato e essa denominação, pois aqui se encontra
uma chave para a elucidação das questões relativas às alturas,
infelizmente não suficientemente considerada na exposição.
O mosteiro tornou-se um grande centro de peregrinação. Foi visitado,
entre outros, por Carlos Magno, Guilherme o Conquistador e Luís
- o Santo. Os reis da França, até Luís XI, procuravam pelo menos
uma vez na vida peregrinar ao Mont Saint-Michel.
Planos para um edifício ainda maior, de 80 metros de comprimento,
remontam ao Abade Hildebert. Uma parte do edifício foi construída
sobre a igreja carolíngia, agora transformada em cripta. Em 1103,
a parede norte da nova igreja ruiu, arrastando consigo várias
partes do conjunto, entre êles o convento, o abrigo dos pobres,
o dormitório e o perambulatório. A reconstrução já mostra indícios
do gótico.
Sob o Abade Robert de Thorigny (1154-1186), o Mont Saint-Michel
vivenciou uma fase de grande florescimento. Sendo o abade amigo
do rei Henrique II Plantagenet da Inglaterra, de grande influência,
as construções puderam prosseguir levando a um conjunto monumental
de edifícios.
O caráter geral permaneceu o de um burgo-fortaleza. Embora praticamente
inexpugnável, a sua história foi marcada por tentativas de assédio
e ocupação. Em 1203, Guy de Thouars e Felipe-Augusto, inimigos
do Duque da Normândia, procuraram apoderar-se do Mont Saint-Michel,
que se achava desde Guilherme o Conquistador nas mãos dos inglêses.
Não o conseguindo, incendiaram a aldeia de pescadores que se encontrava
a seu pé. As chamas alcançaram o mosteiro e destruíram algumas
de suas partes.
Uma nova fase de apogeu deu-se graças a doações de Felipe-Augusto.
Construiu-se, na parte norte do rochedo, o edifício que recebeu
o nome de La Merveille. Sob Richard Turstin surgiu o edifício
da Oficialidade e a Procura.Nos anos seguintes, fortaleceu-se
a dfesa com a construção de uma muralha.
Na Guerra dos Cem Anos, o Mont Saint-Michel teve significado estratégico.
A ilha próxima, Tombelaine, encontrava-se nas mãos dos inglêses.
Após o contrato de Troyes, Robert Jolivet, abade, ofereceu os
seus serviços ao rei da inglaterra, comandando exército inimigo
contra a sua própria fortaleza. O Mont St. Michel situou-se no
centro das beligerâncias entre a Inglaterra e a França. Em 1434,
os inglêses atacaram-no no período da maré baixa; a subida da
maré trouxe grandes baixas entre os atacantes que retornavam.
Na batalha de Formigny, os franceses conquistaram toda a região
litorânea, com a Ilha Tombelaine, sob o comando de Louis d'Estouteville.
Seu irmão, Cardeal Guillaume, assumiu o cargo de abade. Planejou
a edificação de uma igreja em estilo gótico. O coro, que desde
então dá continuidade e fecha a nave românica levou 75 anos para
ser construído.
Época dos beneditinos de Saint Maur e o Mont Libre
Fala-se de um período de decadência após o século XVI. Os abades
titulares, nem sempre religiosos, por vezes nunca visitaram a
ilha. A disciplina monacal sofreu. Para dar novo impulso espiritual
à Abadia, ela foi confiada aos beneditinos de Saint-Maur. Com
isso, passou a um círculo de religiosos de alta formação espiritual
e cultural. Dessa época datam reformas que são consideradas como
infelizes. Assim, em 1780, no lugar de partes românicas caídas,
as lacunas foram fechadas com construções de estilo classicista.
Na época da Revolução, os monges foram expulsos, e pilhagens destruíram
o patrimônio material e a valiosa biblioteca. A ex-abadia foi
transformada em prisão e o monte denominado de Mont Libre. Somente
em 1863 a prisão foi extinta, podendo então os monges retornar.
Desde 1874, encontra-se sob proteção patrimonial. No espírito
do século XIX, construiu-se uma torre gótica com uma estátua do
Arcanjo.
Entre Céu e Terra
Há dimensões mais profundas da temática exposta por meio de imagens na exposição de fotografias pelo Centenário do Mont Saint-Michel do que aquelas consideradas à primeira vista em constatações comparativas. Concepções relacionadas com lugares elevados na mitologia e na história das religiões já foram tratadas em publicações, inclusive em eventos da A.B.E. Somente a consideração dessas dimensões mais profundas é que permite a compreensão de uma concepção do mundo que não apenas tem a sua expressão concreta em igrejas sobre montanhas, mas sim também na própria hagiografia, mitologia e na linguagem visual de expressões culturais.
Atualidade
Esse debate é particularmente atual, uma vez que o Mont Saint-Michel
está sendo alvo de uma das maiores e mais dispendiosas obras de
engenharia da atualidade européia. O Mont Saint-Michel está perdendo
cada vez mais a sua condição insular, pois o terreno em que se
encontra está sendo cada vez mais aterrado pelas areias trazidas
por rios e pela maré. Uma das razões desse fenômeno foi o atêrro
feito há décadas para a construção de uma via que liga a terra
firme ao monte e que impede o livre fluxo das marés. A grande
obra de engenharia que está sendo realizada, e cujos resultados
não são garantidos, baseia-se em questão mais cultural do que
paisagística. Trata-se da recriação de uma posição natural que
marcou a imagem do Mont Saint-Michel através dos séculos. Aqui,
porém colocam-se questões relativas à justificação mais profunda
dos argumentos, questões estas relacionadas com o tema sugerido
na própria exposição sobre as montanhas sagradas do mundo.
Na argumentação, esquece-se que havia, no local onde posteriormente
o mar se expandiu, uma floresta, a floresta de Scissy, que cobria
o interior e parte da baía. O Mont Tombe, mais tarde Mont Saint-Michel,
salientava-se, ao lado do Mont Dol, como duas elevações no meio
da floresta. Nessas elevações já os druídas teriam realizados
os seus atos de culto. Com a romanização, construíram-se templos
para os deuses do Império. Nos primórdios do Cristianismo, tais
elevações foram procuradas por eremitas que, no Mont Tombe, construíram
duas igrejas, dedicadas ao Protomártir, S. Estevão, e a Symphorianus.
Foi apenas no decorrer dos séculos que o mar penetrou na floresta
de Scissy, assumindo aos poucos o domínio da região, talvez definitivamente
após uma inundação, no ano de 709. Foi a partir dessa época que
o Mont Saint-Michael tornou-se uma ilha que se eleva a 92 metros
sobre o nível do mar.
Segundo a tradição, o próprio Arcanjo teria anunciado essa inundação.
Em aparições ao bispo de Avranches, S. Aubert, teria aconselhado
várias vezes que se edificasse uma igreja no cume do Mont Tombe.
A construção foi possibilitada pelos duques da Normândia e alguns
monges ali se estabeleceram.
Não haveria, portanto, razão pela qual hoje se procura reconquistar
a região para o mar, com grandes dispêndios, uma vez que teria
sido anteriormente coberta de florestas e a sua cobertura pela
água uma inundação. Há, porém, razões simbólico-religiosas que
necessitam ser consideradas. Cumpre recordar, por exemplo, que
houve uma troca na invocação, de Santo Estêvão a São Miguel.
Como se tem discutido em publicações e eventos, tanto o Protomártir
quanto o Arcanjo estão associados com as esferas mais elevadas
do edifício de concepções, seja por ter sido Estevão o primeiro
mártir a alcançar a posição alta perdida por Adão, seja por ser
S. Miguel o condutor dos exércitos celestes e o guia do povo.
Entre essas duas imagens há, porém, uma grande diferença. Nas
associações com a concepção dos céus, Estêvão foi, em representações
simbólicas, imaginado próximo ao polo superior do globo celestial,
vinculado com a constelação de Cepheus. S. Miguel, por outro lado,
também localizado nas regiões mais elevadas do globo celeste,
foi simbolizado pela constelação da Ursa minor. Essas associações
se encontram porém em relação com partes ascendentes e descendentes
da Eclipse e, essas, com o ciclo do ano e suas estações. A verdadeira
montanha simbólica por excelência é aquela que é alcançada das
profundezas do inverno (do hemisfério norte) às alturas do verão
(do hemisfério norte).
Como foi rediscutido, a parte ascendente, corresponde ao período
do ano que supera a região das águas e é caracterizado pela terra;
a parte descendente, corresponden ao período que, descendo, leva
novamente à cobertura das águas. Há, portanto uma coerência nas
concepções, resultante do próprio edifício de concepções do mundo
e que torna compreensível a mudança de invocações - de S. Estevão
a S. Miguel. S. Miguel estaria, portanto, na ordem simbólica,
estreitamente vinculado não apenas com as alturas mas sim também
com o período marcado pela subida das águas.
Essas elucidações já bastariam para indicar que há, na linguagem
simbólica relacionada com as altitudes, substratos e fundamentos
de cunho filosófico-natural. Dentre os elementos, é o fogo aquele
que tem a tendência a subir, encontrando o seu lugar nas alturas.
O mundo do fogo ou da luz espiritual é, segundo a tradição, aquele
dos seres intelectuais, dos anjos. Compreende-se, assim, os elos
simbólicos que unem o Arcanjo São Miguel, o líder dos exércitos
celestiais, a esse elemento, na sua acepção espiritual, e às alturas.
A verdadeira chave para a compreensão desse sistema de concepções
relacionado com os elementos é, porém, a da própria concepção
de matéria, a mãe dos elementos. É dela que se tira a concepção
da terra, um de seus elementos e, portanto, dos montes, da parte
sêca que se eleva sobre as águas. Entretanto, o antigo debate
filosófico-natural salienta que a sua verdadeira natureza deve
ser procurada no meio que une altos e baixos, céus e terra, na
atmosfera, no ar, tal como alma do cosmos. Daquí chega-se à conclusão
que a verdadeira chave para a compreensão do simbolismo tematizado
pela exposição Entre Ceús e Terra reside na misteriosa e soterrada
Notre-Dame-sous-Terre. Nas construções sacrais sob montes ter-se-ia, portanto, um substrato
simbólico de fundamentação mariológica.
(...)
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).