Doc. N° 2346

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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114 - 2008/4
Bretanha-Brasil
O canto dos cegos no Brasil e na Bretanha. Paradigma do cego bardo
Reflexões pelo Pardon de Saint Hervé
Lanhourne. Trabalhos da A.B.E., 17 de junho de 2008
A.A.Bispo
O canto dos cegos no Nordeste do Brasil foi alvo já há décadas
de um estudo de pesquisa de campo do Brasil: o de Martin Braunwieser,
desenvolvido em 1938 no âmbito da Missão de estudos folclóricos
do Departamento de Cultura de São Paulo (Cegos pedintes cantadores do Nordeste, Boletin Latino Americano de Música V/6, 1946, 323-325). Esse artigo, publicado no contexto de um
volume de extraordinário significado para a história da reflexão
musical brasileira, reunindo nomes dos mais representativos da
época, destaca-se por ter o seu autor não escolhido algum tema
que correspondesse mais de perto aos interesses intelectuais e
político-culturais de momento, mas sim nele dando presença, de
modo sensível, a um grupo humano particularmente marcado pela
infelicidade e esquecido de uma vida intelectual que se orienta
pela visão e pela palavra escrita.

Trabalhos da A.B.E. 2008. Fotos H. Hülskath
O que impressa nos cegos pedintes é a expressão. Quem os ouviu, jamais esquece aqueles lamentos resignados, que ficam profundamente gravados no coração. (op.cit. 325)
O autor abre o seu texto salientando ter-se impressionado com o pauperismo, a mendicância e sobretudo com o número dos cegos pedintes no Nordeste brasileiro. Reconheceu, no decorrer das observações, que a impressão que eram de mais elevado número do que em outras regiões do Brasil era devido ao fato de poderem ser encontrados em diferentes cidades, pois eram cantadores viajantes que percorriam longas distâncias.
Em nenhuma região do país que percorri, encontrei tantos pobres cegos como no Nordeste brasileiro. Em muitos desses lugares - talvez por falta de organizações beneficientes que amparem e recolham os cegos - eles sejam obrigados a esmolar pelas ruas à procura da própria subsistência e daí eu ter tido a impressão de que essa dolorosa infelicidade humana seja mais frequente naquelas regiões de pauperismo. (...) Hoje estou convicto de que o fato de serem eles inteiramente livres nos seus movimentos, percorrendo léguas e léguas para estarem hoje numa festa popular e amanhã numa concorrida feira de afastado lugarejo do sertão, é que dá ao viajante a impressão duma quantidade maior do que noutras zonas. (op.cit. 323)
Menciona que os cantadores tendiam a criar estórias da própria
existência e das razões da sua cegueira, narrativas que interrelacionavam
experiências reais com interpretações:
Na miséria em que vivem os pobres cegos, como consôlo da perda
da visão, muitos deles constroem com o tempo uma espécie de história. (op.cit. 324)
O principal interesse do autor foi o de constatar qual seria a
razão do canto no peditório dos cegos:
Segundo informações dos próprios, duas são as razões principais
por que pedem cantando, ao contrário da maioria dos pedintes que
falam ou tocam. Sentem alguns, e o dizem de várias maneiras, que
a voz cantada possui maior força de expressão do que a voz falada;
outros (...) acham que cantando, podem chamar melhor a atenção
dos que passam, tendo assim maiores possibilidades de alcançar
o que pretendem. (loc.cit.)
Sendo dos caminhos mais evidentes para o estudo do sentido dos
cantos de cegos pedintes a consideração do conteúdo de seus textos,
o autor salientou que eram, na sua maior parte, de conteúdo religioso,
vinculando-se sobretudo ao culto dos santos:
O assunto dominante é o religioso (...). Para reforçar o pedido,
os cegos não se esquecem de nenhum santo ou santa (...) (loc.cit.)
Hagiografia dos cegos cantantes nos estudos culturais
Os aspectos mencionados nessas observações de 70 anos atrás inserem o Brasil num complexo de questões culturais muito mais amplo. O cego cantador, conhecido de várias culturas e épocas, dirige a atenção a concepções de cunho fundamental do mundo e do homem. Um dos caminhos para uma aproximação a dimensões mais profundas do tema é aquele que considera os paradigmas humanos do cego cantador oferecidos pela hagiografia.
Um desses modêlos ainda particularmente venerados é o de Santo Hervé, relevante por estar estreitamente vinculado com a identidade cultural de uma região, a da Bretanha. Em contraste com muitas outras situações culturais onde se procura evitar o tema e silenciar aqueles que têm a infelicidade da cegueira, o grande santo cego da Bretanha está presente no culto e em diferentes formas de expressão popular.
Esse santo, pouco conhecidos em outras regiões do mundo é alvo de um Pardon, conjunto de práticas festivo-religiosas e que incluem uma procissão rural a uma fonte - na cidade de Lanhourne, no dia de sua festa, 17 de junho.
Estória de Santo Hervé
A história ou lenda de Santo Hervé está intimamente vinculada com a dos cegos cantadores e dos bardos viajantes de mais remotas origens. Conta que um dos mais famosos da Ilha da Bretanha, da época de sua Cristianização, era um de nome Hyvarnion. Este percorria toda a região, cantando por ocasião de feiras e mercados nos vários povoados. Pela expressividade de seu canto e pela sua profunda religiosidade, o seu renome alcançou os mais altos círculos sociais do distante Paris. Foi então convidado à Côrte de Childebert (495-558), um dos filhos de Clóvis e de Santa Clotilde e que, após a morte de seu pai, em 511, assumira a soberania de uma região que ia de Paris até a Somme, do litoral da Mancha até a Bretanha, incluindo Nantes e Angers. Entretanto, o bardo Hyvarnion não aceitou o tão honroso convite, procurando evitar o meio mundano da Côrte e suas glórias passageiras. Preferiu retirar-se do mundo e viver na longínqua Armorica, consagrando-se a Deus.
Entretanto, em sonho, recebeu a visita de um anjo que prenunciou
o seu matrimônio, dizendo que seria vontade de Deus que se casasse
com uma mulher que encontraria, Rivanone, e que o seu filho tornar-se-ia
um grande servidor de Deus.
Assim o foi, mas Hyvarnion arrependeu-se de ter contraído o casamento
logo após tê-lo consumado. Decidindo-se retornar à vida contemplativa,
ouviu de sua mulher a exclamação de que, se tivesse um filho,
pediria a Deus que êle jamais visse a luz falsa e enganosa desse
mundo. Hyvarnion, respondendo-lhe, afirmou que o seu filho, ainda
que não visse a luz do mundo, pelo menos teria a visão dos esplendores
celestiais.
Assim, Hervé nasceu cego. Tinha, porém, a capacidade de ver outro
mundo de luz, o espiritual. Como cego, desde cedo o seu universo
foi marcado pelo mundo dos sons, pela memória e pela transmissão
oral e cantada. Com apenas 7 anos já conhecia de cór os salmos
e os sete hinos mais de uso na sua época.
Confiado por sua mãe a um monge, a sua formação desenvolveu-se
em ambiente contemplativo. Tornou-se um bardo como o seu pai,
não cessando de cantar o que via, o mundo celestial, invisível
aos demais homens. Foi, assim, o criador de um Canto do Paraíso.
Perambulando pelo interior da Bretanha, era guiado por um discípulo
de nome Guiharan. Era também acompanhado por um lobo, animal que
se tornaria uma das características de sua imagem. Esse lobo teria
devorado o burro que o levava, mas, a pedido de Hervé, assumira
o seu papel. A seu redor formou-se uma comunidade itinerante.
Ele e seus acompanhantes guiavam-se segundo o sol e, seguindo-o
em direção ao Oriente alcançaram a localidade de Plouider, onde
se estabeleceram. Esse local seria mais tarde designado como Lanhouarneau,
ou seja, a ermida de Hervé.
Não chegando ao sacerdócio por ser cego, alcançou apenas o grau
de exorcista. Planejou e construiu êle próprio a sua igreja. Três
dias antes de sua morte, abrindo repentinamente os olhos, entoou
um último canto, no qual dizia que via o céu aberto, os seus irmãos,
os seus pais e os seus companheiros; coros de anjos revoavam tais
como abelhas em campo de flores. Três dias após essa visão, chamou
a sua sobrinha, Christina, uma órfã, pedindo-lhe que preparasse
uma pedra para descansar a sua cabeça. Esta, obedecendo, pediu-lhe
que, ao morrer, rogasse a Deus que a viesse buscar: tal como uma
barca que segue a corrente queria morrer com Hervé. Assim aconteceu,
e Christine expirou com êle junto a seus pés. Na hora de sua morte,
os monges presentes ouviram os coros celestes entoando um hino.
Este hino passou a ser cantado através dos séculos.
Relíquias de S. Hervé foram conservadas na capela do castelo de Brest a partir de 878. Num estojo de prata, foram entregues pelo Duque Geoffroy ao bispo de Nantes, em 1002. Geoffroy, filho do conde Conan I de Rennes, tornou-se o primeiro Duque da Bretanha. Morreu em 1008, no retorno de uma peregrinação a Roma. Assim a memória de Hervé relacionou-se estreitamente com a própria história política bretã. Somente à época da Revolução Francesa desapareceram as relíquias de Hervé da Catedral de Nantes.
Interpretações
A estória de Hervé, independentemente de sua veracidade histórica,
pode ser analisada na sua estrutura e nas imagens simbólicas que
insere. O significado transcendente dessa veneração regional bretã
reside no fato de possibilitar a compreensão de fundamentos de
concepções relativas ao canto dos cegos na tradição cristã.
Dentre os diferentes aspectos, pode-se salientar que não se trata
apenas da oposição tematizada entre uma vida mundana, orientada
segundo os sentidos, sobretudo visuais das aparência e uma vida
contemplativa, retirada, monacal. A dimensão mais profunda desse
confronto de duas formas de existência diria respeito à própria
concepção do mundo: em contraposição ao mundo captável pelos sentidos,
visível, haveria um invisível, espiritual. Aquele que apenas enxerga
este mundo das aparências seria o verdadeiro cego, e o cego que
canta as realidades espirituais não seria verdadeiramente cego,
pois enxergaria o mundo da verdadeira luz. O homem que teria fechado
os olhos para este mundo tornar-se-ia cantor do mundo espiritual
e este seria o mundo da luz angelical.
Tais concepções indicam a existência de um sistema de imagens
de compreensão do mundo e do homem de remotas origens que podem
ser estudadas sob diferentes perspectivas. Correspondeu a um antigo
edifício de concepções e imagens do mundo e do homem cristianizado
nos primeiros séculos da era cristã e transmitido por tradição
oral, sobretudo talvez pelos próprios bardos cegos.
Um indício de seus elos com antigas imagens é a figura do lobo
e o seu singular papel de substituto do burro. O lobo, cujas conotações
negativas são conhecidas da antiga mitologia e cuja imagem foi
eternizada na linguagem das constelações e nas tradições, surge
no contexto da estória de Hervé como positivamente transformado.
Aparece claramente como uma imagem simbólica com caráter de tipo,
que experimenta uma espécie de conversão. O tipo do lobo e a sua
metamorfose podem ser analisados segundo diferentes contextos
mitológicos e bíblicos. Um desses complexos seria o de seus elos
simbólicos com Esaú, Edom e Roma, aqui com Marte, bastando essa
menção para que se reconheça a amplidão das possibilidades que
se oferecem para a interpretação fundamentada da estória de Hervé.
O motivo do cego que procura a luz, conduzido por um guia que o leva ao Sol, ao Oriente e ao alto é conhecido tanto da antiga mitologia como da tradição bíblica. Numa e noutra correspondia à figura de Orion. Entretanto, os estudos da tipologia em contexto bíblico devem remontar à Gênese, onde Lameque surge como cego e, segundo algumas interpretações, pela sua fala (Gn 4,23 ss.) como o primeiro cego cantador. Como pai de Jubal, ao lado de Jabal, Tubal-Caim e Naama, surge também como pai-tipo dos músicos itinerantes.
(...)
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).