Doc. N° 2348

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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114 - 2008/4
Bretanha-Brasil
Nossa Senhora Negra de Guincamp
Notre Dame de Bon Secours
Guincamp. Trabalhos da A.B.E. 2008
A.A.Bispo
No âmbito do ciclo de estudos Normândia-Bretanha-Brasil, desenvolvido
pela Academia Brasil-Europa em maio-junho de 2008, dedicou-se
uma jornada de reflexões a uma questão de simbologia de particular
relevância para o Brasil: o da representação de Maria em imagens
negras. Não se pode esquecer que esse é o caso da própria padroeira
do Brasil, Nossa Senhora da Aparecida.

Trabalhos da A.B.E. 2008. Fotos A.A.Bispo
Considerando-se a importância de Maria nas concepções antropológicas
do Catolicismo, onde a Mãe do Redentor também é designada como
mãe dos homens, compreende-se o extraordinário significado dessas
representações para a identidade de populações que apresentam
na sua formação contribuições africanas e indígenas.
É compreensível, também, que a representação e a veneração de
Maria em imagens com essa característica - assim como a de outros
santos - tenham sido interpretadas inadequadamente sob um aspecto
etnológico ou daquele de extensões culturais africanas.
A literatura cultural latinoamericana - sobretudo a referente
ao Brasil e a Cuba - apresenta inúmeros exemplos de interpretações
que, apesar de bem intencionadas, são errôneas e não podem ser
justificadas e mantidas. Trazem consigo problemas teóricos de
graves conseqüências, colocando obstáculos à compreensão adequada
de edifícios conceituais e simbólicos.
Para a discussão dessa questão no contexto euro-brasileiro, escolheu-se
a igreja da Nossa Senhora Negra de Guincamp, a Notre Dame de Bon Secours, uma das mais veneradas imagens de Nossa Senhora negra na França.
Trata-se de uma das mais importantes igrejas de peregrinação da
Bretanha, de monumental arquitetura, datada de fins da Idade Média,
visitada por milhares de pessoas por ocasião de sua festa e do
seu pardon, a 27 de junho. Nessa ocasião, realizam-se também apresentações
musicais, de danças e de tradições populares. É famosa pela sua
procissão de velas e pelos seus fogos de artifício.
Também os habitantes de Guincamp indagam a razão da côr da venerada
imagem. Podendo-se excluir qualquer influência africana direta,
tem-se aventado a hipótese de se tratar de um escurecimento causado
por velas, der ter sido causado pelo tipo de madeira utilizada
ou por qualquer outra causa mais ou menos explicável pelo envelhecimento
ou pela transformação do material.
A explicação, porém, deve ser muito mais profunda. Tais hipóteses
não poderiam explicar o número avultado de imagens negras de Maria
em muitos países da Europa, algumas delas objeto de veneração
em centros de romaria de projeção internacional. Citam-se aqui,
como exemplos, os da Polonia, Tschenstochau, e os da Alemanha,
tais como de Santa Maria da Kupfergasse, em Colonia.
Difusão de imagens negras na América Latina
Para o estudo da difusão de Nossa Senhora negra nos países do atual Mercosul, a principal imagem é a de Alttöttingen, na Baviera. A sua Schwarze Madonna, na capela octogonal, talvez do ano 700, constitui o mais importante alvo de peregrinações da Alemanha.
Sabe-se que foi o jesuíta P. A. Sepp (1655-1733) que, no século
XVII, levou grande quantidade de imagens na sua viagem a Buenos
Aires, já as destribuindo entre os africanos que subiram a bordo
da nave que o transportava. No seu relato, salienta a influência
que a cor negra das imagens bávaras tiveram sobre os africanos.
"Só o negro recém-batizado deitou-se a morrer. Recebeu, pois,
os santos Sacramentos, levei-lhe minha imagem de Nossa Senhora
de Alt-Oettingen, que lhe deu extraordinário ânimo e que ele estreitou
contra o peito e beijou. Aconselhei-o a que tivesse grande confiança
nessa imagem sagrada da Mãe, que a ela se recomendasse que não
abandona a ninguém quem a invoca. Quando então o pobre negro contemplou
a imagem e notou que o rosto da Mãe de Deus e do Menino era preto
e igual ao dele, oh, é indescritível a alegria e o consolo que
lhe inundaram o rosto!" (Anton Sepp, Viagem às Missões Jesuíticas e Trabalhos apostólicos, Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Ed. Univ. São Paulo 1980,
88-89)
"Depois da ceia, dei instrução às mulheres dos negros, que também
eram pretas, ensinando-lhes a doutrina cristã, contei-lhes exemplos
e lhes mostrei Nossa Senhora de Alt-Oettingen, para a qual tomaram
particular devoção. Beijavam e veneravam a imagem, como aquele
negro doente acima citado. Cada uma dessas mulheres, pretas como
carvão, queria uma imagem para si. Para satisfazê-las, dei-lhes
outras, pequenas reproduções, que o Pe. Böhm e eu havíamos feito
de argila, às centenas, quando estávamos em Sevilha e Cádiz. As
mulheres veneravam essas imagens mais do que ouro e prata, porque
até aí nunca haviam visto uma imagem de Nossa Senhora negra e
semelhante a elas." (op. cit. pág. 89)
Imagem-modêlo e a tradição de Notre Dame de Bon Secours
A Notre Dame de Bon Secours de Guincamp dirige a atenção à tradição de Nossa Senhora do Socorro
ou do Perpétuo Socorro e de sua difusão nas várias partes do mundo.
Essa tradição vincula-se com uma questão de particular interesse
para os estudos imagológicos, pois diz respeito a famoso ícone
que, segundo a tradição, remonta a uma pintura do próprio evangelista
Lucas. Esse ícone, em estilo bizantino, é venerado desde 1499
em Roma. Representa Nossa Senhora como Mãe de Deus, a Senhora
das Dores, em ato de socorrer o seu Filho diante de uma visão
que indica a futura Paixão. Essa visão é representada por S. Miguel
com um vaso de vinagre, à esquerda, e S. Gabriel com a Cruz, à
direita. A difusão maior dessa imagem pelo mundo é sobretudo obra
dos Redentoristas, que a receberam de Pio IX, em 1866. O quadro
original encontra-se na igreja de S. Afonso de Ligório, em Roma.
Através dos Redentoristas, a veneração também foi amplamente difundida
no Brasil.
Nessa tradição, porém, a representação de Nossa Senhora não se
relaciona necessariamente com o simbolismo da cor escura. A Notre Dame de Bon Secours de Guincamp prende-se a outro caminho de transmissão, também
secular, e que teve as suas repercussões no Novo Mundo. A tradição
de Notra Dame de Bon Secours francesa, particularmente venerada por marinheiros, é sobretudo
mantida em Montreal. Foi ali introduzida por Marguerite Bourgeoys
(1620 Troyes-1700 Montreal), a fundadora da Congrégation de Notre-Dame. Desde 1653 no Canadá, atuou como educadora, fundando escolas
e missões. De uma segunda viagem à França, em 1672, trouxe uma
pequena imagem de Notre Dame de Bon Secours e que até hoje é venerada. A capela, edificada em 1711, representa
hoje um dos centros culturais e religiosos do Canadá. Assim como
na França, a capela é forrada por pequenos navios oferecidos como
ex votos de marinheiros que alcançaram graças.
Theotókos
A festa de Guincamp, a 27 de junho, é celebrada no mesmo dia da
festa de S. Cirilo de Alexandria (330-342), bispo e doutor da
Igreja. Presidiu o Concílio de Éfeso (431), quando foi proclamada
Maria como Mãe de Deus. O Concílio realizou-se em época que se
colocava em questão essa concepção pela difusão do movimento nestoriano.
A doutrina do Concílio de Ephesos reforçou a da encarnação, formulada
em Nicéia (325). A identidade do encarnado com o filho de Deus
permitiu que Maria fosse designada como mãe de Deus. Pressuposto
para essa concepção é a da conceição pelo Espírito Santo.
A antiga tradição da representação negra de Maria pressupõe, para
a sua compreensão, a consideração da estrutura tipológica do edifício
de concepções relacionados com a conceição pelo Espírito Santo
e que pressupõe uma união. Sobretudo os Cantares de Salomão oferecem aqui fundamentais subsídios para análises da linguagem
simbólica. Trata-se da imagem da esposa: Eu sou morena, mas agradável, ó filhas de Jerusalem, como as tendas
de Quedar, como as cortinas de Salomão (Cant. 1.5). Logo a seguir, tem-se a elucidação da côr escura: Não olheis para o eu ser morena, porque o sol resplandeceu sobre
mim (...) (Cant. 1.6).
Esse texto tem sido interpretado sobretudo no sentido místico,
ou seja em função da segunda vinda de Cristo, em espírito, no
presente, àquele que o ama. A alma amante, elevando-se às núpcias
com o amado, a êle se une. Ela é assim sombreada pela luz por
excelência, pelo fogo divino no sentido metafórico do termo.
A questão da côr escura de imagens de Maria leva, assim, à consideração de diferentes caminhos de transmissão de tradições locais européias ao continente americano e da maior ou menor presença da concepção mística na compreensão da linguagem simbólica. Uma orientação da espiritualidade sobretudo segundo o presente, a da alma que anela pela união com o amado, permite também que se compreenda projeções simbólicas ao passado, ou seja, ao mistério da primeira vinda, da encarnação.
Em todo o caso, apesar das necessárias diferenciações, devem ser refutadas elucidações simplistas que partem de hipóteses de cunho etnológico de extensões africanas. Também os estudos voltados aos elos com a antiga mitologia, embora fundamentais nos estudos da linguagem simbólica e dos edifícios de concepções, devem ser desenvolvidos com o necessário cuidado diferenciador. Se as concepções narradas mitologicamente da Antiguidade forem compreendidas no seu sentido mais profundo, então abrem-se de fato perspectivas para considerações interculturais. Também na Antiguidade não-bíblica conhecia-se a imagem da noiva terrena que se queimava quando surgia o noivo divino na sua real aparência. Este foi, segundo o mito, o caso de Semele, quando confrontada com a natureza ígnea, o fogo celestial de Zeus. Somente nesse nível mais profundo de interpretação é que a consideração dos elos entre as linguagens de imagens das diferentes culturas manifesta toda a sua potencialidade. Intenções polêmicas ou apologéticas no tratamento das chamadas "virgens negras" não correspondem à necessária seriedade dos estudos culturais.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).