Doc. N° 2357

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1999 by ISMPS e.V. © 2006
nova série by ISMPS e.V.
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114 - 2008/4
Eleanor Florence Dewey (1912-2008)
Mère Marie du Rédempteur C.S.A.
in memoriam
A.A.Bispo
Formação em Londres e conversão

Eleanor Florence Dewey nasceu em Londres, no dia 8 de outubro
de 1912. Era filha de William Dewey e de Aida Anima Bass. Do pai,
pouco guardaria na memória. Faleceu cedo, ao redor de 1923. Gravado
ficou que contava fatos de sua participação na Primeira Guerra
Mundial, onde lutara na fronte e vivenciara situações dramáticas,
entre êles o bombardeio de um Zeppelin. Quase nada sabia a respeito
da família do lado paterno. Da mãe, porém, sempre conservou muitas
lembranças. Era violinista, de família de músicos, atuando em
concertos. Também a tia era violoncelista. Com a sua prima, que
possuía boa voz e era pianista, recebeu a sua iniciação musical,
ao piano, muito cedo, com apenas quatro anos. Chegou também a
conhecer a sua avó. As suas recordações mais antigas datavam do
fim da Primeira Guerra, quando tomava o trem diariamente da sua
casa na rua Central Park à escola. A sua infância foi, assim,
marcada pela ausência do pai e pela formação recebida exclusivamente
em meio materno, acentuadamente musical.
A grande experiência da primeira juventude - e da vida - de Eleanor
Dewey foi o contacto com o Catolicismo e a sua conversão. Com
o falecimento do pai, a mãe inscreveu-a como interna no Convent of Jesus and Mary (Crownhill Road N.W. 10). As religiosas dessa congregação gozavam
de renome pela disciplina e pelo desvelo para com as alunas. Foi
o início de uma fase que ficou marcada na memória como sendo muito
feliz e protegida, além de ter desvendado um novo mundo religioso.
De 1923 a 1929, ali realizou o seu curso secundário. Em 1928/1929
deu também ali aulas de piano a principiantes.
Durante os anos do Internato sentiu que a sua religiosidade se
intensivava. Recebeu o batismo católico na igreja paroquial. Num
primeiro momento, a sua mãe, de família anglicana, não quis aceitar
a sua conversão. Alegava que, com os seus 14 ou 15 anos ainda
não possuía maturidade suficiente para tal decisão. Quando, porém,
estava para fazer o seu lower School Certificate, pediu mais uma vez permissão para converter-se ao Catolicismo,
o que, na verdade, já tinha feito. Não havendo mais motivo para
recusá-lo, a mãe acedeu, e esse foi o início de uma vida que a
levaria à separação definitiva do mundo familiar.
Estudos nos Países Baixos e na França
Ao terminar o curso secundário, foi indagada pela superiora do
Convento se gostaria de passar um ou dois anos em pensionato católico
nos Países Baixos, em Vught, uma pequena localidade próxima de
's-Hertogenbosch, principal cidade da província de Brabante do
Norte. Para sustentar-se, poderia trabalhar como au-pair junto a famílias locais. Foi com alegria que aceitou essa proposta,
por ser essa uma possibilidade de afastar-se do mundo familiar.
Assim, de 1929 a 1931, fêz o curso colegial no Instituto Regina Caeli, em Vught. No Pensionato adjunto à instituição deu aulas de inglês.
Nesse ambiente, já não mais na diáspora inglêsa, viveu em atmosfera
profundamente marcada pela restauração católica. A cidade der
Hetogenbosch possuía, na sua catedral de São João, um centro de
romaria de projeção, sendo considerada como o edifício sacral
mais importante dos Países Baixos.
Dos Países Baixos foi enviada à França para estudar francês. Em
Nancy, permaneceu dois anos na Alliance Française. Por pouco tempo de novo nos Países Baixos conheceu pela primeira
vez a vida da Congregação das Cônegas de Santo Agostinho. Após
uma estadia de ca. de dois anos em Paris, como governante, voltou
a Londres. Com a proficiência adquirida no idioma francês, atuou
como professora no Convent of Jesus and Mary, a escola onde estudara. A sua principal companheira foi aqui
a sua prima, Marjorie, com quem se iniciara na música, e da qual
recebeu aulas de canto. Ambas freqüentavam a vida de concertos
da capital britânica e cantavam juntas num coral.
Ao completar os seus 21 anos, no próprio dia do aniversário, entrou
no Convento das Cônegas de Santo Agostinho do Monastère de Jupille,
Bélgica. De 1933 até 1940, data da invasão alemã, alí atuaria
sobretudo como professora de inglês. No dia 6 de janeiro de 1936,
fez os seus primeiros votos; no dia 19 de março de 1939, prestou
os seus votos perpétuos. Também dedicava-se à música, preparando
concertos para a comunidade, juntamente com uma organista de sobrenome
Folville, diretora de um coral de música sacra que se apresentava
com obras polifônicas por ocasião de celebrações solenes. Ali
iniciou o estudo e a prática do Canto Gregoriano.
Experiências da Segunda Guerra
A Guerra modificou profundamente a vida comunitária em Jupille.
Numa Quinta-Feira antes de Pentecostes, as religiosas foram evacuadas
por um fabricante de cerveja, Pier Boeuf, que as levou - as mais
jovens e as inglesas - com o seu caminhão até Florene, onde jesuítas
mantinham um noviciado. Ali permaneceram apenas alguns dias. As
suas atividades eram sobretudo as de ajudar à camuflagem e ao
escurecimento do edifício, cortando jornais para colá-los nos
vidros das janelas. Nas Matinas de Pentecostes, sob pesado bombardeio,
deu-se o êxodo, uma vez que o edifício passava a ser usado por
oficiais francêses. No dia anterior, à noite, a superiora havia
perguntado quem desejaria partir. Como nenhuma das religiosas
se manifestou, indicou as mais jovens.
A viagem do exílio passou por Laon. Alcançaram Paris às três horas
da manhã. Na Abbaey-aux-bois descansaram. Com a invasão da linha
Maginot, deixaram rapidamente esse local para tomar o trem em
direção a Dijon. As religiosas dessa cidade possuíam um velho
castelo onde abrigavam as internas. Ali viveram duas ou três semanas.
Por toda a vida nunca se esqueceria do traje que usavam, algo
ridículo, com as faces cobertas com um fino véu. De Dijon, tomaram
o trem para Toulouse. Foram recebidas ali pelos dominicanos. Ao
mesmo tempo, ali chegava um outro grupo, de religiosos masculinos
que também vinham fugindo. As noviças foram enviadas para a propriedade
denominada La Grace de Dieu, os religiosos para outra da escola comunitária. Guardou na memória
as condições pobres das instalações, a falta de camas, os insetos.
Juntamente com outras duas irmãs, precisava ir regularmente pedir
esmolas nas redondezas. Recolhiam, às vezes, legumes nos campos,
e a única proteção contra o sol eram toalhas que colocavam sobre
a cabeça. Aos poucos, conseguiram trabalho: o de costurar botões
em calças de soldados. De Toulouse, duas foram para Portugal para
procurar uma casa para as fugitivas.
Anos em Portugal: Fascínio pelos manuscritos de Palmela
A viagem da França a Portugal, de trem, passou pelos Pirineus,
e já na fronteira experimentaram uma cordialidade até então desconhecida.
Recebidas por um batalhão, cantaram numa missa celebrada com os
soldados. O comandante do batalhão as convidou a jantar, enquanto
os papéis eram examinados. A continuação da viagem levou-as a
Madrid, onde foram recebidas pelo embaixador da Itália, no Colégio
Assunção. Nunca se esqueceria da alegria que se apoderou do grupo
ao ver uma mesa bem posta e em saber que todos poderiam tomar
um banho. Em Saragossa, tiveram uma das maiores impressões religiosas
da viagem: a visita da Basílica do Pilar, a maior igreja barroca
da Espanha, à frente da catedral de la Seo. Em Elvas, porém, as
autoridades de fronteira não permitiram a entrada de algumas das
religiosas, nomeadamente a das inglesas. Estas foram obrigadas
a retornar, podendo atravessar a fronteira para Portugal apenas
após alguns dias.
Em Portugal, foram acolhidas pela Escola das Cônegas de Santo
Agostinho, na Quinta Palmela. A Quinta possuía uma das maiores
bibliotecas particulares de Portugal, instalada em oito salas.
Em inúmeras gavetas eram conservados manuscritos que despertaram
o seu fascínio e fundamentaram o seu posterior empenho em estudá-los.
Para ganhar vida, dava aulas de inglês, literatura inglêsa, história
e matemática. Na época, havia dois cursos, um para portugueses
e outro para franco-belgas, de modo que não perdessem tempo de
estudos devido à Guerra. As aulas eram em francês, mesmo para
os portugueses. Foi Eleanor Dewey que receberia, em 1945, os inspetores
do Estado para a fiscalização da Escola.
O período português, de 1940 a 1945, ficaria marcado positivamente
na sua memória. Foi uma das fases felizes de sua vida. Nessa época,
foi mestra de coro da Escola das Cônegas de Santo Agostinho em
Lumiar, Lisboa, aprofundando a experiência que já trazia de Jupille.
Viagem ao Brasil e adaptação em São Paulo
Retornando a Jupille, ali permaneceu apenas um ano (1945/46).
A superiora da Congregação já havia perguntado, em 1941, se gostaria
de transferir-se para o Brasil. Entretanto, com receio de não
estar à altura, teria recusado, dizendo não valer o preço da passagem.
Assim, duas outras religiosas haviam sido nomeadas, sendo porém
impedidas de viajar por ter sido negada permissão de entrada pelo
govêrno de Getúlio Vargas. A superiora pretendia, então, enviá-la
para a Grã-Bretanha. Como, porém, não havia ainda vôo disponível,
pelo término da Guerra, e chegando pedidos de ajuda do Brasil,
ela e outras religiosas foram enviadas, em 1946, para São Paulo.
A viagem, em vôo da Air France, durou 36 horas, com escalas em
Casablanca e Recife. Da Ilha do Governador, um barco a motor levaram-nas
até o centro do Rio, onde pernoitaram em convento franciscano
no bairro da Glória.
Em São Paulo, ao chegarem ao Colégio das Cônegas de Santo Agostinho, Des Oiseaux, foram acolhidas festivamente. Todas as meninas do Colégio se
encontravam no jardim e, nas escadarias, os membros da comunidade
haviam-se reunido para recebê-las. Ao chegarem, foram recebidas
calorosamente com aplausos. Já no dia seguinte, porém, teve início
o trabalho, constante de correções de exames escritos e de argüições
orais. Lembra-se que somente então teve consciência de ter abandonado
o mundo conhecido, sentindo o ambiente totalmente diverso. Foi
a primeira vez que chorou e sentiu-se desamparada e só, apesar
da cordialidade de todos.
O que mais estranhou foram decisões imprevistas e pouco preparadas.
Assim, por ordem de órgão ministerial responsável, as alunas de
primeira e segunda séries foram obrigadas, de repente, a demonstrar
conhecimento de desenho de formas geométricas. Não havendo professora
para esse ensino, assumiu-o, dando início a uma atividade que
marcaria a sua vida profissional. Assim, ao lado do ensino do
francês, passou a dar aulas de desenho geométrico. No ano letivo
de 1947, assumiu também classes de inglês e de trabalhos manuais,
tendo sido nomeada mestre de disciplina. Uma de suas companheiras
que mais a auxiliaram na adaptação foi Soeur Rosa de Lima, religiosa
que era responsável pelas médias de avaliação.
Esse vínculo entre desenho, na precisão do desenho geométrico,
trabalhos manuais e disciplina pode ser visto como significativo
para o seu interesse posterior pela paleografia. Trazia uma certa
preparação para isso, pois no Monastère de Jupille tinha atuado
como professora de trabalhos de tipografia, de 1933 a 1940, e
de 1945 a 1946. Para melhor se qualificar para o ensino a que
se dedicava, realizou, en 1952, um curso de pintura e desenho
na Casa Pia de São Paulo. Foi professora de desenho no Colégio
das Cônegas de Santo Agostinho de 1947 a 1957, no Colégio Stella
Maris de Santos, em 1958, e novamente no Colégio das Cônegas de
Santo Agostinho, de 1952 a 1966.
Uma interrupção foi dada com a sua estadia em Cambridge, em 1966/1967,
onde residiu no Lady Margareth House.
Atividades musicais
Já em 1947 formou um coral de meninas para as missas solenes.
Também formou um coral composto por crianças e adultos para as
missas de Natal, uma prática que se manteve até 1966. Em 1958,
preparou a missa solene de Requiem pelo Papa Pio XII, com as religiosas
de São Paulo, um trabalho realizado em apenas quatro dias. Durante
a sua estadia no Colégio Stella Maris, de Santos, realizou semanalmente
uma missa cantada. Particularmente relevantes foram as celebrações
de uma Missa de Santo Agostinho cantada por um grupo de jovens
pobres e semi-analfabetos de Santos, e da Missa de Todos os Santos,
cantada pelas religiosas da cidade, na Capela do Colégio São José.
Mais tarde (1981), escreveria, salientando o papel que Tatiana
Braunwieser desempenhara na sua formação vocal e na sua atuação
musical: (...) of those to whom I am profoundly indebted is Tatiana Braunwieser,
who taught me singing for five years. She became our organist
in 1951 and remained at my side until 1967 guiding me at the rehearsals
of the polyphonic choir and always cheching any vocal faults I
may have made during a sung mass.
Estudos do Canto Gregoriano
De 1957 a 1962, participou das sessões anuais da Escola Pio X
do Rio de Janeiro, realizadas em janeiro e julho de cada ano.
No decorrer dos outros meses, os cursos eram realizados por correspondência.
Obteve, no término do curso, o certificado de Canto Gregoriano
e de Regência desse instituto, filial do Institut Grégorien de Paris. A sua formação deu-se segundo o método de Solesmes. Tornar-se-ia
nos anos seguintes uma das mais ativas divulgadoras desse método
e de sua fundamentação teórico-rítmica. A partir de 1959, dedicou-se
a organizar apresenções gregorianas e ministrar cursos intensivos
em São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1962, fundou, em São Paulo,
a Escola Regional Pio X, também filial do Institut Grégorien de Paris.
Em 1964, deu-se a formatura da primeira turma de alunos da Escola.
Com êles, realizou sete missas cantadas. Gravou, nesse ano, sobre
um tema do Natal e da Epifania, um disco de título Adorate Deum. No ano seguinte, apresentou-se na televisão com os seus cantores
e realizou três missas solenes cantadas.
Nesse ano, o grande evento do movimento gregoriano em São Paulo
foi o da realização das Semanas Gregorianas, onde Eleanor Dewey
desempenhou importante papel ao lado daqueles que a acompanhariam
nos próximos anos. Foi responsável pelo 3° ano de Gregoriano,
ao lado de outros gregorianistas tais como a beneditina Madre
Pelágia, o Pe. João Batista e o Pe. Nereu de Castro Teixeira.
Professora de Método Ward era Nicole Jeandot, que fizera todo
o curso em Paris e fazia parte, no Brasil, de uma Comunidade Ursulina
Russa. O Secretariado da semana estava a cargo de Mlle. Jeanne
Coutela, Tesoureira do Instituto Pio X do Rio de Janeiro. A Revista Gregoriana (Ano XI/62-63, Março-Junho 1964, págs. 81-84) ofereceu uma detalhada
crônica do evento:
"Naquela casa grande, naquele Colégio amigo, o mesmo de sempre,
começamos a nos encontrar desde a tarde do dia 18. Professores,
os primeiros a chegar, a fim de tomar posse do ambiente já tão
conhecido. tudo calmo. Nem parecia que no dia seguinte estariam
sustentando um grupo tão grande, com tantas horas de aulas. (...)
No casarão não faltava mais nada. Quartos de hóspedes, dormitórios,
sala de refeição, salas de aula bem adequadas. Maiores, menores,
bem espaçosas, giz de cor, quadros, e mais tanta coisa que só
se pensa quando se faz com muita amizade. Duas Irmãs hospedeiras,
jovens, alunas dos cursos, serviam de ponto de ligação entre o
Colegio e a Direção da Semana. Uma para Canto Gregoriano, outra
para Método Ward. Porque foi a primeira experiência feliz de se
fazer simultâneamente as duas Semanas - Canto Gregoriano e Método
Ward - que até então se davam em datas diferentes. E foi assim
que se chegou a ter, durante os dez dias, os quatro anos de Canto
Gregoriano, o 1° do Método Ward e um 3° do Método Ward que começara
anos atrás. Com uma pedagogia muito segura e moderna o Método
Ward forma os professores que levarão aos alunos do curso primário
ou mesmo do curso ginasial, uma autêntica formação musical. Na
tarde de domingo, a aula inaugural de D. João Evangelista Enout
reuniu professores e alunos na maior sala (...)."
Viagens pela Europa
Em 1966/67, realizou extensas viagens pela Europa, visitando a Inglaterra, França, Bélgica, Países Baixos, Suíça, Luxemburgo, Alemanha e Itália. Particular menção merece a sua estadia em Saint-Pierre de Solesmes, grande centro do estudo e da prática do Canto Gregoriano. O seu objetivo era inicialmente de vivenciar in loco a atmosfera e o cultivo do Canto Gregoriano segundo o método que aprendera. Foi ali que, ao lado de outros grandes especialistas, teve pela primeira vez contacto com D. Eugène Cardine O.S.B. (1905-1988). Realizou, em Roma, um curso particular com esse especialista, de três meses, sobre manuscritos gregorianos, com três horas-aulas diárias, num total de 270 horas-aula. Esse curso e o contacto humano com D. Cardine representariam uma verdadeira transformação na sua visão teórica do Gregoriano e marcariam o resto de sua vida.
Atividades no Brasil
Com os novos conhecimentos que trazia da Europa, passou a desenvolver intensa atividade docente e prática no Brasil. De grande significado nessa época foi o fato de ser convidada por Roberto Schnorrenberg para participar como professora dos Cursos Internacionais do Paraná e Festivais de Música de Curitiba, o que se repetiria em muitos anos (IV: 1968; V: 1969; VI: 1970; VIII: 1975; IX: 1977). Durante esses eventos, aprofundou antigas amizades e desenvolveu outras que perdurariam por décadas, entre elas com Roberto e Tereza Saraiva Schnorrenberg, Osvaldo Lacerda, Renata Braunwieser, Isolda Bassi-Bruch, Neide Carvalho, José Penalva, Samuel Kerr e Marisa Fonterrada. No âmbito do Canto Gregoriano, atuou juntamente com D. João Evangelista Enout O.S.B., Pe. Nereu de Castro Teixeira e Pe. Victor da Silva, entre outros. Ao mesmo tempo, os Festivais deram ensejo a que entrasse em contacto com músicos europeus e norte-americanos, que com êles trocasse idéias e que descortinasse a relevância musicológica dos estudos que desenvolvera. Aos jovens participantes do Congresso, Eleanor Dewey impressionava pela sua erudição e, ao mesmo tempo, pela sua surpreendente abertura a experimentações estéticas. Assim, no âmbito de trabalhos desenvolvidos com o compositor português Jorge Peixinho, auxiliou na gravação de vozes da Natureza para a realização de um Aleluia ecológico, com base gregoriana, que marcaria o início do que viria a ser futuramente o Instituto de Estudos da Cultura Musical do Mundo de Língua Portuguesa.
Em 1968, em São Paulo, passou a dirigir encontros de um grupo
de estudantes e pesquisadores pertencentes ao Centro de Estudos
em Musicologia da Sociedade Nova Difusão. Os encontros, dominicais,
eram realizados no seu estúdio situado no parque do Des Oiseaux, então já abandonado e em vias de ser demolido. Em vários ciclos
de estudos foram realizados os programas de formação gregoriana
para, posteriormente, passar-se ao estudo da paleografia (segundo
D. Mocquereau) e da teoria modal (segundo H. Potiron). Algumas
das principais obras da literatura gregoriana foram discutidas.
Nos primeiros ciclos, os trabalhos deram-se rigorosamente segundo
o método de Solesmes. Por fim, porém, passou-se à discussão desse
método a partir da perspectiva da Semiologia em desenvolvimento
por D. E. Cardine. O grupo foi, assim, o primeiro no Brasil que
se dedicou aos novos aportes teóricos, sob a direção de Eleanor
Dewey.
O objetivo do grupo, porém, inseria-se não no movimento gregoriano
da Escola Pio X, mas sim no escopo do movimento Nova Difusão.
Procurava combinar o estudo do Gregoriano com os estudos de processos
culturais sob novas perspectivas teóricas, sobretudo da sociologia
e da comunicação. Foi pioneiro nesse sentido de dar-se ao Gregoriano
uma perspectiva teórico-cultural.
A atmosfera concentrada - e idílica - desses encontros interdisciplinares
e ecumênicos no parque abandonado do Des Oiseaux marcou profundamente a formação e a vida dos membros do grupo,
muitos deles tendo ali recebido a sua primeira formação de cunho
musicológico. Dentre os participantes, citam-se Roberto Dante
Cavalheiro Filho, Antonio Alexandre Bispo, Marie-Claire Hermann
e Hanna Weissenberg. Ponto alto das atividades foi a realização
de missa solene na Igreja Nossa Senhora do Líbano, no âmbito do
Festival de Outono da Sociedade Nova Difusão e Departamento de
Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo.
Em 1968/69, Eleanor Dewey deu aulas de Canto Gregoriano e técnica vocal no Mozarteum de São Paulo, além de cursos de formação gregoriana para comunidades religiosas masculinas e femininas. Em 1969, chegou a realizar uma missa de Natal cantada pelos alunos do Mozarteum na capela do Colégio das Cônegas de Santo Agostinho. Nesse ano e no seguinte deu aulas no Mosteiro de São Bento de São Paulo. Em 1970, assumiu a direção artística da gravação do Oitavo Congresso Eucarístico Nacional, uma produção onde atuaram, entre outros, D. João Evangelista Enout, Osvaldo Lacerda e Antonio Alexandre Bispo.
O ano de 1971 foi sobretudo dedicado a seus estudos no âmbito
do Curso de Teologia da Vida Religiosa promovido pela Faculdade
de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, além de outros cursos na
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae.
Em 1972, deu início a um trabalho pedagógico-musical junto a crianças
nipônicas ou nipo-brasileiras sob a direção de Tereu Yoshido.
De particular significado foram as três séries de cursos que ministrou
no Departamento de Música da Universidade de São Paulo e em seminário
promovido pelo Centro de Expansão Coral da Juventude Musical.
Nesse âmbito, participou de um encontro de regentes na Escola
Pró-Arte a convite de Klauss-Dieter Wolf.
Nova viagem de estudos à Europa e missa com 400 vozes
Em 1973, realizou novas viagens de estudos pela Europa. Visitou,
entre outros, centros na Espanha, em Portugal, na Grã-Bretanha
(Escócia), Suíça, Itália, Alemanha, França e Bélgica. Ponto alto
de seus estudos deu-se novamente em Solesmes. Em Lyon, participou
da série Stages Théologiques.
No Brasil, a principal realização foi a de ter assumido a direção,
como convidada, da missa gregoriana com mais de 400 estudantes
da Faculdade de Música e Educação Artística do Instituto Musical
de São Paulo, celebrada no dia 17 de junho. Os estudantes, que
haviam sido preparados em cursos de Estruturação Musical e História
da Música dirigidos por A.A.Bispo, apresentaram-se na Igreja de
Santa Ifigênia. Foi a primeira realização nessas proporções depois
de décadas do já não mais existente movimento gregoriano. Praticamente
toda a nave da igreja foi tomada pelos cantores. A celebração
ficou a cargo do Pe. José Geraldo de Souza.
Reforma da congregação e crise
Já desde fins da década de 60, no contexto dos intuitos renovadores do Concílio Vaticano II e de tendências em meios religiosos do Brasil, profundas modificações ocorreram na vida das Cônegas de Santo Agostinho. O Colégio Des Oiseaux, criticado por alguns como por demais elitista, foi fechado, e o edifício, após vários anos, demolido, apesar de ser um prédio de valor patrimonial relevante para São Paulo. Apenas o estúdio de Eleanor Dewey permaneceu ainda por alguns anos por meio às árvores do triste terreno vazio, transformado logo em estacionamento. O abandono gradativo do hábito não foi fácil para Eleanor Dewey. O ambiente internacional dos Festivais de Curitiba contribuiu para que se readaptasse à vida segundo moldes laicos; apenas no início da década de 70 já se tinha acostumado a não mais usar pelo menos um véu. No decorrer desses anos, com a supressão da vida comunitária, passou a viver só, em moradia própria, à frente do terreno vazio do antigo Des Oiseaux, edifício onde passara tantos anos de sua vida. Essas foram as circunstâncias que a levaram a uma profunda crise pessoal e que contribuiriam à sua decisão de retornar à Europa.
Somente uma intensa atividade musical e de ensino podia fazê-la
esquecer do isolamento e do vazio de sua vida. Assim, no dia 20
de fevereiro de 1975, Eleanor Dewey escrevia:
"Mudei, pode adivinhar o que foi no meio do semestre e das conferências
na USP. Terminando as aulas, arranjo de apartamento, Natal, Ano
Bom, confesso que estava sentida sabendo que (...) tinham sido
convidados para o Festival de Curitiba e eu não. Paciência (...)
estava pensando entrar em boas férias bem merecidas quando, no
dia 7 de janeiro, às 22.30 horas, Samuel me telefona de Curitiba,
e Marisa Fonterrada, me convidando com urgência para embarcar
de avião no dia seguinte. Claro, fui (...). Roberto Schnorrenberg
realizou-se na Missa Solemnis de Beethoven. Foi mesmo uma apoteóse.
(...) Marc Wilkinson de Londres, extremamente interessante; tive
de fazer tradução instantânea !!! (pode rir!!!)."
Já nessa época, a sua principal atenção passou a ser a continuidade
do trabalho de D. Eugène Cardine e de sua difusão no Brasil. Procura
encontrar meios para contribuir à institucionalização do movimento
semiológico na Europa e possibilitar que o autor destas linhas
pudesse integrar-se de tal forma nesse movimento a poder vir substituí-la
no seu apostolado no Brasil. No Pontificio Istituto di Musica
Sacra, temia que os esforços de D. Cardine não tivessem continuidade
após a sua retirada por idade, então próxima. Para isso, os seus
companheiros fundaram uma associação, para a qual imediatamente
entrou:
"Formaram uma Associazione romana di Canto Gregoriano para continuar
a obra dele. A associação será legalizada e o dinheiro foi emprestado
(150.000 liras), portanto estão pedindo 5000 liras per capita
afim de cobrir as despesas. Vou dar um geito para mandar o dinheiro.
(...)." (carta citada)
Em carta de 14 de setembro, anunciava a sua ida a Roma:
"Agora uma surprêsa para Você. Vou para Roma em novembro para
estudar a semiologia. (...) não há brasileiro que tenha feito
esses estudos (...). Indo para Roma, penso descer em Zurique e
passar uns dias em Weingarten com uma de nossas religiosas (Irmengarde
Santer). (...) Como D. Cardine passa as férias em Solesmes, espero
passar aquelas semanas com uma amiga minha que fêz sua tese com
10 e summa cum laude. Ela está na França, perto de Dijon, numa
aldeia onde tem uma igreja romana linda, Tournus."
Em São Paulo, porém, dava continuidade na medida do possível a seu trabalho gregoriano, procurando formar um grupo de cantores com conhecimentos e solidários ao movimento semiológico. Muitos deles tornaram-se grandes amigos, apoiando-a em situações difíceis. O desenvolvimento do grupo era relatado em minuciosas cartas à Europa:
"A turma de Gregoriano ia bem (...) Cantamos a missa de São Pedro
e S. Paulo, duas vezes, na igreja de São Gabriel, no dia 28 de
junho, e na de São Luís, no dia 29. Luis Roberto Borges nos ofereceu
de participar no III Festival de Música Sacra. A turma aceitou,
mas falhou, e fui obrigada a retomar a Missa de S. Pedro e S.
Paulo. A última repetição (...) foi horrível. Porém no dia mesmo
e...na igreja de São Domingos, eles cantaram muito bem, fazendo
repercussões na tristropha, etc. etc. Regi também os japonezinhos
no São Luís. Agora, cada um da turma tem de apresentar uma ou
duas peças por semana, a serem executadas só, e vou gravá-las
afim de estudá-las, e levá-las para Cardine dar uma apreciação.
Provavelmente vou dar aulas nas Marcelinas em 1976. Não estou
mais na USP, pois a ECA fêz greve e perdeu-se o semestre!" (carta
citada)
Acontecimento principal do ano de 1975 foi, assim, o curso que
Eleanor Dewey desenvolveu em Semiologia Gregoriana, em Roma. A
escola de Semiologia, anexa ao Pontificio Istituto di Musica Sacra,
recém-aprovada por Paulo VI, sob a direção de D. Eugène Cardine,
havia sido recentemente aberta. Eleanor Dewey foi a primeira e
a única aluna nesse ano de abertura e da escola em geral, uma
vez que esta logo encerrou as suas atividades. Nesse e no próximo
ano, teve acima de 540 horas-aula com Cardine, tornando-se a sua
discípula por excelência.
Encontro em Colonia
Em janeiro de 1976, Eleanor Dewey passou por Colonia para uma
troca de idéias com o autor dessas linhas e para tratar dos diferentes
projetos relacionados com a revitalização do antigo ideal da Academia
Brasil-Europa e da fundação de um instituto para o mundo de língua
portuguesa. Chegou no dia 11 de fevereiro, à noite, saindo de
Nice, com escala em Frankfurt. Permaneceu dois dias.
Após enviar telegrama do Vaticano, escreveu, no dia 29 de janeiro:
"De fato temos muito que conversar - aqui, no PIMS você é muito
conhecido!!! falamos e estamos tentando planejar cursos intensivos.
Tivemos três dias de reuniões a semana passada. O tempo está lindo,
frio, mas lindo. Há uma luminosidade única em Roma, Oh cidade
bela! ... D. Cardine é formidável, mas exigentíssimo! O que coisa!
mas dou risada, é o único geito! mas também êle é gozadíssimo!"
Um plano para a realização de mais um encontro em Colonia nos
próximos meses não pode ser realizado. Em carta enviada da Inglaterra,
a 15 de abril, dizia:
"(...) não recebo notícias da Itália me dizendo quando podem me
receber de volta. Faço o possível para não me preocupar, mas o
meu caráter não me dá sossego! Além de tudo quero tanto estar
de volta a Roma afim de estar com D. Eugène e aproveitar o máximo
do pouco tempo que fica, pois as aulas lá terminam muito cedo."
De Roma, no dia 16 de junho, Eleanor Dewey comunicava interlóquios
com F. Haberl, Preside do P.I.M.S. relativos aos projetos euro-brasileiros
e a realização de uma assembléia da associação recém-fundada:
"Ontem houve a reunião da Associação Internacional de Estudos
Gregorianos (...) Acontece que os três alemães semiólogos, um
defendeu sua tese monumental segunda à noite e fomos em dez (cinco
beneditinos, um padre canadense amigo de Cardine, o presidente
da A.I.S.C.G., uma senhora que tinha passado três anos em São
Paulo e falava correntemente a língua, Marie Claire e eu), à casa
de Michiko, a presidente (...) Tudo isto para lhe dizer que falei
com Padre Godehard Joppich. (...) A minha estadia está terminando.
No fim do mês vou-me embora daqui, onde está fazendo um calor
fortíssimo, 27°-28°. Acho que passo por Torino e de lá vou para
Solesmes. Preciso parar para rezar Bispo, faz muito tempo que
não o faço, e Cardine me convidou, então lá vou eu; vou (...)
ter umas aulas ainda com êle, e umas conversas sérias também.
Dia 20 de julho vou para Epinal onde se fará o grande encontro
da Congregação, umas 450 mais ou menos. Espero passar com Irmengarde
uns dias em Weingarten e conforme for o dia dos aviões, 31 ou
dia 1 de agosto embarco para a terra de Santa Cruz!!!"
Esse ano de 1976 foi, assim, marcado pelo alcance único do diploma
de Licenciatura em Semiologia conferido pelo Pontificio Istituto
di Musica Sacra, o ponto alto da carreira acadêmica de Eleanor
Dewey. Em São Paulo, deu início a um coral gregoriano a ser formado
segundo os preceitos mais atuais da pesquisa semiológica e que
seria posteriormente o núcleo do Coral São Pio X. Com esse grupo,
participou do III Festival de Música Sacra de São Paulo, com a
execução de duas missas e uma apresentação em programa de televisão.
Inserção na polêmica interpretativa internacional
Já nos encontros de Colonia foi tratado, com Eleanor Dewey, o
problema da polêmica constatada em meios relacionados com a música
sacra referente à interpretação do Canto Gregoriano. Membros da
Consociatio Internationalis Musicae Sacrae, sobretudo sob a égide
do Mons. Johannes Overath, e alguns outros círculos alemães combatiam
a renovação interpretativa do Gregoriano com base na pesquisa
semiológica. Eram da opinião que essa preocupação pela notação
valorizava por demais a grafia, dedicando-se a detalhes sem maior
significação, um labor de "tirar leite de camundongos" que poderia
desviar a atenção da função do Gregoriano como oração cantada.
Segundo esses argumentos, toda a atenção deveria ser dirigida
à propagação ampla do Canto Gregoriano, ao impedimento que desaparecesse
da prática litúrgica com as reformas mal-entendidas dos preceitos
do Concílio, e para isso seria necessário fomentar um tipo de
interpretação que possibilitasse a participação de grandes comunidades.
Um outro aspecto seria a da generalização de uma prática baseada
na interpretação de sinais, cuja cientificidade como método colocavam
em questão e, sobretudo, viam como não adequada às diferentes
tradições e culturais do mundo. Havia, naturalmente, questões
culturais e político-eclesiais relacionadas com essa polêmica.
Culturalmente, a prática de canto na Alemanha, ainda que sob a
alegação que seguia o método de Solesmes, diferia, já pelo volume
de voz empregado, totalmente de uma estética francesa de canto,
mais suave, mais flexível e com menor volume. Os alemães ridicularizavam
esse estilo francês como "sem sangue" e efeminado, enquanto que
aqueles formados realmente segundo os preceitos franceses, entre
êles Eleanor Dewey, criticavam os coros alemães como rudes e inflexíveis.
Também negava que grupos, tais como a Schola Cantorum Colonienses,
então fundada, seguisse realmente o método de Solesmes. Ao mesmo
tempo,negava que o Método Ward, que então passava a ser valorizado
na Alemanha através de uma dissertação de doutoramento em preparação,
e já muito conhecido e divulgado no Brasil há décadas, pudesse
ter realmente um interesse atual, sobretudo por basear-se em princípios
rítmicos do antigo Método de Solesmes.
Essa situação de tensão surpreendia sobretudo pelo tom polêmico
e agressivo que reinava nos meios sacro-musicais alemães. Devido
à inserção de brasileiros nesse debate, também teve repercussões
no Brasil. Marcou os eventos que se seguiram e prejudicou muito
um desenvolvimento construtivo das relações, levando posteriormente
a crises. Como o autor dessas linhas encontrava-se atuante na
Alemanha, estava em contacto com os meios alemães, críticos de
Cardine e de seus discípulos. Pela sua formação, vínculo com Eleanor
Dewey e interesse científico, porém, reconhecia o nível muito
mais elevado de investigação dos semiólogos. Um dos problemas
que via, porém, era de cunho teórico-cultural relativamente à
aproximação semiológica em si, por questões fundamentais de grafias,
imagens, interpretações e hermenêutica.
Já de São Paulo, respondendo uma carta com comentários a respeito
de um encontro e de uma missa solene em Maria Laach, Eleanor Dewey
escrevia, a 21 de novembro:
"Como foi a execução do Gregoriano? Que pensou do Gregoriano de
Maria Laach?"
Já aqui manifestava Eleanor Dewey a sua opinião negativa sobre
a prática de execução do Gregoriano nos mosteiros alemães, em
particular na Abadia de Maria Laach. Via como promissor o caminho
semiológico de Godehard Joppich O.S.B., estudioso que era, por
sua vez, freqüentemente criticado pelos oponentes da Semiologia.
Apostolado semiológico e saída do Brasil
Nesse contexto tenso, determinado no Brasil pela infeliz situação de solidão e ausência de vida comunitária que se encontrava, em época econômicamente difícil, e internacionalmente pela necessidade que via em apoiar o trabalho de D. Cardine, contribuindo para a sua continuidade, compreende-se a sua decisão de abandonar o Brasil, após quase 30 anos de residência no país.
Na mesma carta citada, comunicava a sua decisão de voltar à Europa:
"Bispo, tenho de comunicar a Você uma decisão minha que tomei
e que ninguém aqui, sobretudo na Congregação, sabe (...) Bispo,
só fico mais um ano aqui no Brasil. Não há nada que me fará mudar
de idéia. Rezei muito, e ponho a minha vida religiosa, minha consagração
a Deus acima de tudo, laços de amizades, o gregoriano pelo qual
sei que tenho um papel para preencher. (...) Conto com você para
me substituir. Talvez você se espante perante minha decisão, pois
é, não sou brasileira, e desde bastante tempo estou sendo podada
no meu trabalho (...). Não pense, Bispo, que a decisão foi tomada
sem muita reflexão e sobretudo muitíssima oração. (...) Mas morar
só, nunca ter uma vida comunitária, não ter com quem partilhar
nem meus sentimentos nem a oração, não pode continuar, não fui
feita para a vida eremítica."
Todos os esforços realizados no sentido de lembrar que também
na Europa a situação não era fácil e que o meio sacro-musical
era marcado por animosidades odiosas, foram em vão. Pelo contrário,
Eleanor Dewey procurava unir o seu grupo de cantores do Brasil
com os círculos renovadores dos semiólogos europeus. No dia 24
de abril de 1977, Eleanor Dewey escrevia:
"(...) você me estima muito acima do que na realidade sou. Mas
não posso deixar de agradecer-lhe também pela confiança em mim
depositada, (...) Pois é, Bispo, desde 1969 a amizade foi crescendo
entre nós, e a sua carta me prova isto. Não mudei a minha decisão.
Pouco a pouco vou enfrentado no íntimo da alma, o desapêgo que
deixar amigos vai exigir de mim. Fiquei feliz em saber que Você
passou por Solesmes, apenas dois meses após ter eu estado lá!
Pessoalmente achei o canto péssimo!!! Depois de Sto. Jerônimo
em Roma, onde eles cantam tão bem com D. Cardine. Bispo, sabe,
agora Cardine vai ficar em Roma... Mas a Escola fechou, meu certificado
é único!!! (...) A turminha aqui vai indo bem. Vamos mandar umas
gravações para Joppich para em seguida seguir para o Primeiro
Simpósio de Semiologia em Cremona, do 25 ao 27 de maio. Claro
que não posso ir; o dolar vai subindo vertiginosamente. A situação
está se agravando dia a dia e não sabemos onde vamos."
As cartas nas quais transmitia o desespêro de jovens músicos e
estudantes no Brasil da época são muitas. Pedia informações sobre
possibilidades de estudo na Europa, instituições de auxílio e
cartas de recomendação. Assim, a 16 de julho, escrevia:
"Qualquer coisa vai estourar, e estoura mesmo; correm as piades,
mal sinal; o movimento estudantil é seríssimo, a inflação, nem
se fala (Nescafé está a Cr$ 368.00 o Kilo), o café a mais de Cr$
60.00 - na terra do café. (...) A minha turminha está trabalhando
bem, mas também lá estou preocupada, pois não sei qual o certificado
que vou poder fornecer, pois não estou afiliada a uma escola superior
como inicialmente pensei que estaria, i.e. com as Marcelinas;
não adianta nada, nem tentar, qualquer coisa com a USP. (...)
creio que este semestre saia um curso de gregoriano (...) Mais
uma experiência para constar no curriculum vitae meu, antes de
voltar para a Inglaterra, pois lá tenho uma concorrente terrível,
numa das nossas irmãs que é PhD em Cambridge, tese: Late Medieval
Chant (...) uma daquelas inteligências esmagadoras. So faz um
ano que descobriu o Cardine!"
Em 22 de setembro, uma de suas últimas apresentações, dirigiu
o Coral Pio X na Igreja do Gólgota, numa noite solene de cantos
gregorianos.
Chegada à Inglaterra e primeiras decepções
No dia 17 de fevereiro de 1978, Eleanor Dewey escrevia contando
as circunstâncias de sua despedida do Brasil e de sua chegada
na Inglaterra. Já sentia a dúvida se havia tomado a decisão correta.
Assim como em 1936, via a decisão do retorno como um ato da vida
religiosa, quase que de apostolado gregoriano. Considerava porém
ter sido muito mais difícil ter-se despedido do Brasil do que,
nos anos trinta, da sua própria terra:
"Nem vou tentar contar o que foram as últimas semanas em São Paulo.
Simplesmente uma loucura! Consegui lugar num cargueiro; foi ótimo.
Única inconveniência foi o atraso, do dia 15 de dezembo até o
17 ou 19, com hora marcada de embarque. Fomos para Santos no domingo,
18 (...) O navio só saiu de Santos um pouco antes da meia-noite
do dia 23 (...) Six passageiros, ninguém de meu gosto... todos
mais jovens e sem muita educação. O capitão não valia muito mais
(...). chegamos em Dublin no sábado, dia 5, bem cedo. Saímos de
Ferry para Liverpool, viagem comprida de 7 horas. Apesar das complicações
aqui, provindo do fato que a minha carta do dia 20 de dezembro
enviada de Santos com todas as explicações da chegada, não chegou,
e o telegrama que mandei do navio pensando confirmar a carta,
tudo isso criou uma confusão! (...) Passamos a noite perto de
Flint (....) e domingo chegamos em Londres, dia 9. Primeira missa
qui, o 42° aniversário de meus votos. Achei tão significativo,
pois creio, Bispo, que o que deixei para melhor seguir o Senhor
é muito, muito mais do que deixei em 1936. Você pergunta o que
vou fazer - pois é, eu também - mas as superioras aqui estão sendo
formidáveis, (...) estão me deixando viver, por enquanto. Mas
vou me por em contato com os mosteiros beneditinos para ver se
há possibilidade de penetração para renovar o gregoriano. (...)
fim de abril vou a Liège, pode ser que dou um pulo até Colonia,
a não ser se você pode ir até Liège, mas não volto para cá sem
tê-lo visto. Não sei quando, exatamente, pois vou ajudar a preparar
o centenário de Jupille, que era a casa-mãe nossa."
A sua esperança era a de atuar intensamente no movimento semiológico, em particular no âmbito da associação à qual pertencia. Assim, no dia 17 de agosto, escrevia de Londres:
"(...) vou a Cremona em junho próximo, pois o Congresso da Associazione Internazionale Studi di Canto Gregoriano (AISCG) passar-se-á nos dias 5,6,7,8 de junho. Cardine será la, Luigi Agustoni, minha grande amiga Marie-Claire Billecocq, Rupert Fischer O.S.B., J.B.Geschl O.S.B. e Nino Albarosa, o nosso secretário, um encanto de homem e professor da Universidade de Cremona; está para acabar um grande trabalho sobre os manuscritos de Nonatola (...). "
Entretanto, já nesse ano mostrava-se abertamente decepcionada com a sua vida na Inglaterra. Acostumada com a movimentação da vida musical de São Paulo, com as possibilidades que tinha para os seus empreendimentos, não conseguia adaptar-se a uma vida de retirada, onde era tratada como uma pessoa de idade, aposentada.
"(...) você pergunda de minha vida inglêsa? O que te dizer? (...) Na primeira semana de setembro vou fazer uma semana de retiro com meu amigo beneditino no norte de Londres, o que vai ser maravilhoso para mim, pois há 9 anos que não faço um retiro. (...) E como você pode imaginar, não está sendo fácil a adaptação; no plano cultural está sendo formidável, mas de um outro lado sinto que não tenho nada em comum com elas, tando do lado de Jupille quanto do do Brasil. É Deus que tem que me dar com superabundância a plenitude de Seu amor, que pode me ajudar a superar a transformação tão grande na minha vida. (...)."
Crise pessoal em Londres
No ano de 1979, as cartas de Eleanor Dewey demonstravam que a
decepção com a sua vida na Inglaterra a deixava cair em profunda
depressão. Para superá-la, procurava dedicar-se a pesquisas semiológicas
e à vida cultural dos meios brasileiros da capital britânica.
Assim, no dia 20 de março, escrevia de Londres. :
"(...)a instabilidade na qual vivi durante meses por não poder
desfazer malas e instalar-me foram, sobretudo, o último fato,
a razão da depressão espiritual, pois as saudades quase matam
a gente. (...) O contato regular com um sacerdote extraordinário
me ajudou muitissimo (...). Depois chegou uma carta de Cardine
me pedindo uma pesquisa do podatus no ataque silábico, em Laon.
Fiz fichas, etc. etc. Agora vou recomeçar a estudar um pouco o
canto, pois não canto mais, para poder fazer a gravação para o
Congresso.(...) Heitor Alimonda esteve dando duas conferências
na sociedade Anglo-Brasileira (...)."
No dia 17 de outubro, respondendo à carta onde o autor dessas
linhas lhe comunicava o doutoramento, voltava mais uma vez a acentuar
a situação de quase desespêro em que se encontrava e de arrependimento
por ter abandonado o Brasil:
"Só posso dizer que estou vegetando; não lhe escondo, às vezes
pensando seriamente se fiz bem em sair do Brasil, sobretudo ultimamente.
Parcialmente, suponho, é culpa minha, mas preciso de muita coragem
para escrever a pessoas desconhecidas paresentando-me a mim mesmo."
As suas últimas esperanças de sair da Inglaterra eram através de seus amigos semiólogos:
"Fui ao Colloque de Pont-à-Mousson organizado pelo Centre europeen d'Art Sacré. Éramos apenas 20 pessoas, Cardine, claro, Janneteau, que não conhecia pessoalmente, sábio, mas demais didático, Benoit Neiss e Etienne Stoffel. Benoit directeur de la Psallette Grég. de Strasbourg e Etienne du Centre d'Études Grègoriennes de Metz. Estão sem professor de gregoriano, me ofereci, nem que precise mudar para lá!!!"
Collectanea Musicae Sacrae Brasiliensis
Em 1979, teve-se a oportunidade de realizar um plano já antigo, o da publicação de uma coletânea de textos de estudiosos brasileiros sobre vários aspectos da cultura sacro-musical e das tradições religiosas do Brasil. O projeto constituiu o primeiro do seu gênero na Europa e seria publicado no Vaticano. No contexto da preparação do livro, procurou-se integrar Eleanor Dewey da forma mais intensa quanto possível na sua organização. Com a sua experiência de décadas, era a pessoa mais indicada para nela colaborar e, ao mesmo tempo, poderia oferecer-lhe um caminho para refletir sobre a sua própria obra de vida no Brasil e o seu passado. Convidada, imediatamente aceitou, embora salientando que já não possuía materiais suficientes, sendo obrigada a reconstruir o seu passado da memória. Na sua resposta, salientou mais uma vez que se encontrava perdida em Londres:
"Quanto ao trabalho que você me pede, claro que farei, tem muita urgência? Vou ter que me lembrar de muitas coisas, pois enterrei todo o meu passado, não aguento mais pensar nele, não voltará e aqui ninguém se interessa por ninguém. É impressionante como os inglêses estão insulados. Acham-se os tais, que gente chata. (...) Pertenço a um outro mundo, nem sei o qual, mas não o delas. Em Pont-à-Mousson foi tão bom falar uma linguagem comum, cada um ouvindo o outro, aceitando-o e os seus ideais."
Paralelamente, procurou-se integrá-la em outro projeto em andamento, o da realização do Congresso Internacional de Música Sacra em Bonn, no Centro das Ciências da então capital alemã. Ela teria, aqui, a oportunidade de rever companheiros seus do Brasil e participar de reuniões paralelas destinadas a discutir projetos referentes ao Brasil, independentes do Congresso, tais como o da criação de uma Sociedade de Musicologia e de um instituto de pesquisas da cultura musical para o mundo de língua portuguesa.
O seu receio era dos problemas que poderia ter de enfrentar participando de um evento da organização cujos membros tanto combatiam os semiólogos. Em 14 de fevereiro de 1980, escrevia, com muitas sugestões de nomes brasileiros que deveriam ser convidados para o trabalho em desenvolvimento:
"Bispo, será que você quer mesmo que participe do congresso? Será
que minha presença vale a pena aqui na Europa? Além do mais, não
sou membro da CIMS (...) Disse a minha superiora que tinha sido
convidada, mas só pediria a licença de participar mediante a resposta
de você."
No dia 21 de março, deixava que perceber mais uma vez a sua amargura
na Inglaterra:
"Muito obrigada pela confiança e a estima que você me dedica,
já esqueci que uma vez sabia qualquer coisa, pois aqui permaneço
uma ilustríssima desconhecida!!! Aceito de coração e com gratidão
o seu convite (...) Agora estou tentando construir literalmente
o artigo. Estou fazendo um fichário juntando o que lembro de meu
trabalho, mas não está fácil, e realmente não sei como vou redigí-lo.
(...)"
Após várias cartas relativas ao artigo, escreveu, por fim, no
dia 24 de julho: "(...) acho que não falta nada do que fiz, mas não tenho, ou melhor,
simplesmente não me recordo do nome das igrejas onde cantamos
há quase 20 anos, ainda mais dos programas, pois não guardei tais
coisas. Virei as páginas de onze agendas que guardei, mas pouco
achei que podia ajudar."
Deu a seu artigo o título "Three decades of work for the cause of Gregorian Chant in Brasil
(1946-1977)" (A.A.Bispo et alii, Collectanea Musicae Sacrae Brasiliensis, Musices Aptatio 1981, Roma: Urbaniana 1981, 151-166). Terminou a história da
sua vida salientando o entusiasmo que achava tão importante para
o trabalho musical e para a própria vida, e do qual tanto sentia
falta na Inglaterra: "I really am convinced that if musicians and especially church
musicians had more knowledge of the splendid treasury of Gregorian
Chant, its beauty and the great spirit of prayer with which it
is inspired, they would be far more enthusiastic about it, and
enthusiasm could well kindle a new flame from the still glowing
ashes." (pág. 165)
Em Bonn, auxiliou na organização do Congresso, atuando no seu
Secretariado, tomando parte nas suas sessões e em debates paralelos.
Juntamente com outros brasileiros presentes, entre êles Prof.
Dr. José Geraldo de Souza, Prof. Dr. José Penalva e Profa. Nicole
Jeandot participou de reuniões e conferências destinadas a propor
à assembléia que a organização pontifícia tomasse parte de um
evento a ser desenvolvido no Brasil, em 1981, um projeto do autor
destas linhas.

Eleanor Dewey entre representantes da Conferência Nacional dos
Bispos de Angola e da Abadia de Solesmes
Entretanto, a sua opinião relativa ao meio sacro-musical alemão
não se modificou. Pelo contrário, ficou confirmada. Tendo conhecido
o ambiente da CIMS e do instituto de Maria Laach, escreveu, a
13 de agosto:
"Coitado de você devendo viver com o (...). Quando escrevi para
D. Eugène contando do congresso, contei-lhe também de sua vida
lá, etc., e êle me escreveu o seguinte: Ce que vous me dites de
Bonn e de Maria Laach m'interesse beaucoup, mais ne me surprend
nullement. (je me demande comment il peut rester là-bas sans y
mourir)...Para que D. Eugène dissesse isto, Bispo, um monge tão
santo, quer dizer que é ruim mesmo, e não é imaginação sua. (...)
Pelo amor de Deus, não fique lá mais do que o estrito necessário,
pois não vale a pena se auto-destruir."
A preocupação era recíproca. Sabendo da situação de Eleanor Dewey
na Grã-Bretanha, procurava-se uma possibilidade para trazê-la
de volta ao Brasil:
"Quanto aos planos que tenho para consigo não são planos, mas
apenas o desejo de tentar descobrir alguma possibilidade onde
a Sra. pudesse aplicar a sua enorme capacidade intelectual. Acho
um absurdo que a Sra. esteja sendo desperdiçada aí em Londres.
Há pouco sugerí a Sra. - desculpe-me a liberdade- para um Instituto
a ser fundado provavelmente em Lisboa." (carta de 24 de agosto)
Retorno ao Brasil e Simpósio Internacional em São Paulo

Encontro em Colonia, 1980
No dia 16 de fevereiro, Eleanor Dewey respondia positivamente
a convite para que retornasse ao Brasil:
"Sua carta foi uma surprêsa muito grande e inacreditavalmente
inspirada pelo Espírito Santo que sopra onde quer e na hora certa.
Pouco sabia que desde outubro minhas superioras maiores acharam
que seria melhor voltar ao Brasil. Há oito dias estava em Paris,
falando com a Madre Geral. (...) Cheguei, Quinta, à noite, sua
carta chegou na Sexta de manhã, e telefonei a Paris (...) Você
imagina o impacto que tive com sua carta? (...) Vou sim, sem dúvida.
Mas tenho compromissos que me impedem de partir em março; tenho
o coralzinho de Gregoriano que tem uma missa no dia 19 de março.
Devo providenciar alguém para me substituir nesta responsabilidade.
Depois, tenho uma sessão na França. Saio dia 20, e depois do dia
23, queria seguir para Ravensburg, pois Ir. Irmengarde estima
o Brasil e quer conversar comigo. (...) Pois é, a situação está
seríssima no Brasil, mas Bispo, aqui é uma das piores na Europa."
A sua despedida da Grã-Bretanha deu-se com uma missa solene na
igreja Oratory, cantada pelo London Gregorian Choir, no dia 19 de março. A despedida da França deu-se com um Ofício
e Missa solene cantada na igreja de Longyon, no dia 22 de março.
Voltando ao Brasil no dia 30 de março, as suas principais atividades
foram logo dedicadas aos preparativos do Simpósio Internacional
Música Sacra e Cultura Brasileira, a ser realizado pela Secretaria
de Cultura do Estado de São Paulo em cooperação com o Instituto
de Estudos Hinológicos e Etnomusicológicos de Maria Laach.
No dia 4 de abril, foi-lhe endereçada a primeira carta ao Brasil:
"Espero que a Sra. tenha chegado bem ao Brasil. eu lhe desejo
para a sua nova vida tudo de bom e que a Sra. possa ser mais feliz
no Brasil do que na sua velha pátria. Muito obrigado pela sua
carta de despedida da Inglaterra. Estou muito feliz em saber que
vou poder encontrá-la brevemente, por ocasião do Simpósio. (...)
A gente precisa estar consciente de que nunca houve no Brasil
um simpósio de tal porte e de tal significado (...) Por isso,
estamos tomando cuidado para não tornar o Simpósio de forma alguma
parcial. Todos os grupos e interessados deverão participar, na
tentativa sincera de colaborar na organização da vida musical
(...)."
Na sua primeira carta do Brasil, de 8 de abril, dizia ter entrado
em contacto com D. Luciano Mendes de Almeida, secretário da CNBB
e expressava a sua alegria em estar em São Paulo:
"(...) a parte material é insignificante ao lado do afeto, o calor
humano, o gesto amigo. Graças a Deus, tenho esta oportunidade
(...)."
No dia 18 de maio, escrevia a respeito da organização do Simpósio
e do seu estado de espírito, já totalmente modificado:
"Temos feito um esforço muito grande e com amor de satisfazer
o que você pede, mas, creio que estando aqui, estamos mergulhados
na realidade brasileira (...) Eu já estou dentro como se não tivesse
estado ausente. (...) Esta é a primeira carta que escrevo desde
que cheguei. Ainda não escrevi para a Inglaterra. Nem saudades
sinto, a não ser de algumas pessoas, e da minha terra ou cidade.
(...) estou dez anos mais jovem, achei uma nova vitalidade."
Em intensivo trabalho de organização, Eleanor Dewey colaborou
na preparação de apresentações gregorianas, na orientação litúrgica
das diferentes celebrações, na tradução de textos e no contacto
com os conferencistas e grupos. A seu cargo ficaram vários programas,
sobretudo aqueles que tiveram lugar em São Luís do Paraitinga,
dedicados ao tema "Música Sacra no Brasil Colonial". Ali se executou
Te Deum anônimo do século XVIII, descoberto pelo autor dessas
linhas, atuando como solista, ao lado de Martha Herr. Em São Paulo,
no Museu de Arte Sacra, responsabilizou-se pelas partes gregorianas
das Vésperas Solenes. Na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, em
missa solene com obras do século XIX, também assumiu a execução
das partes gregorianas. O ponto alto de sua atuação, porém, foi
a celebração da missa gregoriana na Basílica do Mosteiro de São
Bento, no dia 1 de outubro, núcleo da parte do programa dedicado
ao Gregoriano no Brasil. A partir dessa execução, deram-se os
debates posteriores no âmbito do Simpósio, levados a efeito por
renomados especialistas do Exterior e do Brasil. O seu trabalho
de organização disse respeito também à preparação da Sociedade
Brasileira de Musicologia, fundada no âmbito do Simpósio, no dia
29 de setembro. Nessa data foi confirmada a sua nomeação ao núcleo
diretivo da Sociedade, no cargo de Tesoureira.
O Coral Gregoriano do Estado, nessa época, possuía 33 vozes femininas
e 18 masculinas. No dia 29 de setembro, na sessão levada a efeito
na Igreja da Ordem Terceira do Carmo, cantaram as mulheres, na
Missa votiva do Espírito Santo, no dia 1 de outubro, na Basílica
do Mosteiro de São Bento, atuaram 20 cantores.

Coral Gregoriano sob a regência de Eleanor Florence Dewey.
Simpósio Internacional Música Sacra e Cultura Brasileira, 1981
Após o Simpósio, participou também como especialista em encontros
realizados no Museu da Música, em Mariana, e no Instituto dos
Meninos Cantores, em Petrópolis.
Em 6 de novembro, recebeu Eleanor Dewey a seguinte carta de agradecimentos
pelo seu trabalho e pela sua atitude conciliante com relação a
personalidades que tanto combatiam o direcionamento semiológico
que representava:
"(...) o único objetivo desta carta é lhe dizer mais uma vez,
desta vez por escrito, o meu muito obrigado, e coração. O que
a Sra. fez nem pode ser na verdade valorizado condignamente por
palavras. (...) Os nossos últimos dias em Minas e em Petrópolis
foram um tanto complicados. Creio, entretanto, que isso foi um
fato normal, causado pela convivência de tantas pessoas difíceis
por um período tão longo. Até que tudo correu muito melhor do
que estava esperando do ponto de vista pessoal. Aliás, a sua presença
foi essencial para ajudar a manter a harmonia nos relacionamentos
(...). Até mesmo o Prof. (...) reconheceu a sua função harmonizante,
dizendo que se a Sra. não estivesse estado sempre presente provavelmente
teria até saído brigas entre eles, como de costume em congressos
de música sacra..."
De novo na Europa
Em 1982, na França, participou da série Stage d'études grégoriennes de Metz. Chegou a Strasburg no dia 21 de fevereiro. Os cursos
foram ministrados em diferentes cidades, a saber: Nancy Amnéville,
Bar-le-Duc, Toul, Cirez-sur-Vezouze, Thionville e Longuyon. Nessas
cidades foram cantadas missas dominicais. Por duas vezes tomou
parte como observadora de ensaios corais sob a direção de Benoit
Neiss. Na Alemanha, participou de eventos em Saarbrücken e tomou
parte em conferências em Maria Laach e em Colonia, estas sobretudo
destinadas a discutir questões relacionadas com as atividades
internacionais da Sociedade Brasileira de Musicologia e do instituto
em planejamento.
Em carta de 16 de abril, já no Brasil, relatava o seu encontro
com D. Cardine e as preocupações de seus companheiros dos estudos
semiológicos em vincular o movimento a uma instituição ou organização
distinta da AISCG:
"A última quinzena na Europa foi loucura! Longuyon-Colonia, Strasbourg,
um dia de viagem para Roma, dois dias em Roma, e na Quinta-Feira
uma semana depois de deixar Colonia, embarcava para Paris, com
horas de espera, mas Air France tem hotel e foi ótimo, e 22.30
saída para o Brasil. Para o meu espanto, alguém a minha espera
em Viracopos! (...) Dos dois dias em Roma, Dom Cardine tinha me
reservado as duas matinées. Foi tão bom estar com o mestre querido.
Trocamos idéias sobre o que (...) e eu tínhamos discutido no aeroporto
de Strasbourg (...) O nosso problema é uma escola? instituição?
associação internacional que possa emitir certificados que não
esteja ligada à Igreja e que não provoque problemas com AISCG.
(...) Estas amizades trazem tanta alegria, mesmo na separação.
Que mistério que é a amizade pura, sincera, acho que Deus foi
muito bom me proporcionando vários amigos verdadeiros, amigos
e amigas (...)."
Intensas atividades no Brasil e experiências negativas
Em maio, retornando ao Brasil, ministra um curso de iniciação
ao Canto Gregoriano patrocinado pela Secretaria de Estado da Cultura
de São Paulo, com duração de oito meses. Dentre as missas cantadas
que organizou, salientaram-se a de ação de graças na Sala Dinorah
de Carvalho, na Secretaria de Cultura, no dia 15 de maio, e a
celebrada na Igreja Imaculada Conceição, a 30 de maio e na Igreja
do Colégio São Luís, a 26 de junho. De 5 a 16 de julho dirigiu
um curso intensivo de Canto Gregoriano na Secretaria da Cultura
do Estado de São Paulo, com missa solene cantada pelos 45 participantes
do curso, celebrada na Igreja de São Francisco, no dia 16. A 28
de agosto, pelo quadragésimo aniversário da fundação da Associação
Santo Agostinho Madre Alix, realizou missa solene cantada. A 11
de setembro, responsabilizou-se pela missa festiva em honra da
Padroeira Nossa Senhora da Consolação, na Igreja da Consolação.
A 24 de outubro, apresentou-se à frente do seu coro em missa solene
na Igreja São Luís.
Fechando o ano de 1982, co-realizou o Festival de Natal na Igreja
da Imaculada Conceição a 30 de novembro, com o Coral Gregoriano
do Estado, e o Collegium Musicum sob a direção de Roberto Schnorremberg
e com o acompanhamento ao órgão de Dorotéa Kerr. Tomou parte também
de um concerto realizado em colaboração com a Associação Paulista
dos Organistas, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, a 5 de dezembro,
de uma missa cantada na Capela do Colégio de São Bento, a 13 de
dezembro, e de uma missa de Requiem na Igreja de São Francisco,
a 19 de dezembro.
Um dos acontecimentos tristes do ano foi o fim de Sete Quedas,
assunto que foi comentado em várias cartas. Em carta de 4 de novembro,
escrevia a respeito, salientando também a situação política que
vivenciava e que lamentava:
"Pensei tanto em você quando fecharam as Sete Quedas e agora estão
inundando as terras. Pessoalmente, acho um crime o que fizeram.
Não sei se você ao voltar ao Brasil percebeu o quanto tudo está
comercializado, abismado no materialismo? Me chocou, e vivendo
agora a propaganda eleitoral, a corrupção, a vingança, a destruição
de um candidato pelo outro, violência em toda a parte, surge tudo
como tão triste, e todo aquele que pensa um pouco que seja, não
pode não ficar profundamente angustiado e apreensivo pelo futuro
próximo. Compreendo que você viva ligado com problemas e coisas
brasileiras, pois apesar de tudo a gente ama a terra natal. Foi
o que mais sentí ao voltar ao Brasil, o quanto amo a minha terra,
a minha cidade, a cultura, etc. Sinto muito que você não se sinta
realizado no seu trabalho. Pergunto-me, será que aqui na sua terra
acharia um trabalho que o satisfaz e no qual se acharia plenamente
realizado? Será que ciúmes, inveja, política-politicagem etc.
deixariam você desabrochar? Mais penetro neste mundo musical mais
decepcionada e triste fico - e o que dizer da política musical?"
Situação do Canto Gregoriano no Brasil e "stress"

O ano de 1983 foi marcado pela consideração internacional dos trabalhos de Eleanor Dewey a favor do Canto Gregoriano no Brasil.
Em encontros em Colonia, em 1982, haviam sido discutidos os novos
caminhos que se abriam e as dificuldades que enfrentava a Sociedade
Brasileira de Musicologia. Foi então convidada para escrever um
trabalho para um livro em preparação pelos 70 anos do Mons. Johannes
Overath e que deveria ser lançado no ano seguinte. Aceitando-o,
enviaria o trabalho de título "Cantate Domino Canticum Novum - A Meditation". Nesse artigo, com verdadeira coragem civil e lealdade a seu
mestre, salientou a obra de D. Cardine:
"At this point, of course, a question may be raised: what about
the theory, the semiology? The answer ist that of my revered master,
Dom Eugène Cardine O.S.B.: Faites chanter, faites chanter!". Experience
has shown me many a time what a weak group of singers can actually
achieve, not to mention the quite astonishing results attained
with better musicians and even with small children." (In: Musices Aptatio 1983, Roma: Urbaniana 1983, 95 ss., pág. 96-97)
A sua atuação no Brasil foi considerada em conferência proferida
pelo autor deste texto em Simpósio Internacional de Canto Gregoriano
e Educação Musical promovido pela Universidade Católica de Washington,
D.C., através do seu Centro de Método Ward. Para a obtenção dos
dados relativos a seus trabalhos e à situação de momento, realizou-se,
a 29 de janeiro, uma entrevista por correspondência. Aqui, Eleanor
Dewey respondeu a numerosas questões que oferecem um panorama
de seu trabalho em São Paulo, das condições de trabalho junto
à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e da situação do
cultivo do Canto Gregoriano no país.
De sua resposta, de 4 de fevereiro, pode-se compreender a razão
de sua grande atividade na realização de missas cantadas e concertos,
muito mais intensa do que seria de se esperar considerando-se
a sua concepção fundamentalmente religiosa. Essa razão residia
no fato de ser a isso obrigada, caso desejasse que o seu contrato
fosse prolongado. Para isso, sentia-se levada a uma atividade
quase que impossível de ser realizada e que era acompanhada por
circunstâncias que surgiam como estranhas e pouco dignas para
a sua consciência marcada pela exatidão e correção de antiga mestra
de disciplina:
"Respondo à última pergunta de você. O meu contrato... Para serem
contratados novamente todos os regentes devem apresentar dez concertos
até o fim de maio... Já cantamos uma missa na Abadia de São Bento
domingo passado (dia 30), mas o atestado tem de ser datado do
dia 5 de fevereiro, e cantaremos dia 6 de fevereiro na Consolação.
Não dou concertos por princípio, pois acho que o canto gregoriano
faz parte integral da liturgia para qual foi composto. (...) O
que se pode fazer? (...) há uma corrupção inacreditável, é muito
triste. (...) Não gostaria de recorrer às pessoas na política,
porém conheço bem as filhas e a nora de (...), que foram minhas
alunas, e sei que pessoas conhecidas farão o possível para que
eu fique com o coral ou cargo semelhante, sem porém que precise
pedir. (...) sei muito bem que Deus providenciará o que Ele achar
melhor para mim. Às vezes acho difícil manter um perfeito equilíbrio
psíquico e espiritual, me confiando totalmente no Senhor."
"(....) Segue a programação dos 'concertos' planejados até o fim
de maio, conforme estipulado no contrato assinado na Secretaria
da Cultura. Loucura...: 5 de fevereiro: Abadia São Bento; 6 de
fevereiro: Igreja da Consolação; 20 de março: Igreja Nossa Senhora
de Fátima; 27 de março, Igreja São Francisco de Paula, Rio de
Janeiro; 10 de abril, Igreja do Calvário; 24 de abril, Atibaia;
1 de maio, Igreja da Imaculada Conceição; 15 de maio, Basílica
do Carmo; 22 de maio, Igreja da Imaculada Conceição. Depois de
tudo isso, Deus só é que sabe o que vai acontecer."
Para esses "concertos", o Coral do Estado contava com 20 cantores.
As atividades que foram realmente desenvolvidas nesse ano foram
as seguintes:
Missas solenes no Mosteiro de São Bento de São Paulo (25 de fevereiro)
e na Igreja da Consolação (26 de fevereiro, 6 de março) precederam
concerto de Domingo de Ramos na Igreja de São Francisco de Paula,
no Rio de Janeiro a convite da Sociedade Brasileira de Musicologia,
levado a efeito no dia 27 de março. A 10 de abril, celebrou-se
com Gregoriano a Abertura do Ano Santo na Igreja do Calvário.
Seguiram-se várias outras missas solenes gregorianas: Capela do
Colégio São Luís (24 de abril), Igreja da Imaculada Conceição
(1 de maio, 22 de maio), Basílica do Carmo (15 de maio) e Basílica
de São Bento (16 de outubro). Em outubro, no dia 16, apresentou-se
na missa de encerramento da Semana "São Paulo para crianças",
no Mosteiro de São Bento. O ano foi encerrado com concertos de
Natal em colaboração com vários corais nos dias 4, 10 e 18 de
dezembro.
Em carta de 3 de agosto, Eleanor Dewey relatava o seu adoecimento
por motivo do excesso de trabalho:
"O trabalho foi uma loucura. (...) Infelizmente, por razões políticas,
mas exatamente politicagem, nem todos os regentes foram contratados
igualmente, houve diferenças berrantes. (...) conseguiu um contrato
mais longo e com cachê muito mais alto. Teve três meses para preparar
seu programa, que foi apresentado x vezes. Com o gregoriano, ainda
mais com a quaresma e a páscoa, tive muito trabalho em organizar
as missas, tentando diminuir o trabalho do grupo que assumiu ajudar-me,
pois estava sem coral. Às vezes só 6 ou 8 pessoas apareceram para
cantar a missa. O stress foi demais para mim. Em maio tive uma
febre de 38.5°, altíssima para quem só tem 35 diariamente. Consegui
transferir uma apresentação. Estudamos 40 peças em menos de quatro
meses. Cleofe organizou um concerto no Rio para o coral de Roberto,
no sábado antes do domingo de Ramos, e a missa cantada em conjunto
com meu coral, no domingo. Nunca na minha vida vi uma cerimônia
tal, é o que chamo de pandemônio. (...) tínhamos estudado o tracto,
o mais longo do ano, todo, e o padre celebrante logo após iniciarmos
o terceiro versículo nos cortou (...) o que fazer? parar - e aí
por diante. (...) Amigas cotisaram para me pagar o avião de volta!"
A situação da prática do Canto Gregoriano no Brasil, segundo os
seus dados, era a seguinte: além do Coral Gregoriano do Estado
não havia outro de maior significação em São Paulo, pois um outro
grupo orientado por Eleanor Dewey era "sem interesse, pois não queriam participar da liturgia de forma
alguma" (carta de 4 de fevereiro). Pretendia, por isso, atuar na Faculdade
de Música Santa Marcelina, na esperança de ali formar um novo
grupo. Havia também um pequeno coro dirigido por Paulo de Tarso,
político, amante do Canto Gregoriano, assim como os monges do
Mosteiro de São Bento, por ela orientados. Um grupo em Santos
estava para ser dissolvido.
"Não se canta gregoriano em igreja nenhuma em São Paulo. Para
cantar a missa no Rio fomos obrigados a recorrer ao Bispo Auxiliar,
e depois ao Cônego Amaro!!! Inimaginável. Desde quando se precisa
de autorização para cantar uma missa polifônica com gregoriano,
por ser em latim? Em alguns mosteiros ainda se canta o gregoriano:
Santa Maria em Itapecerica da Serra e Campos de Jordão - Sorocaba,
segundo informações fornecidas pelos Beneditinos. Nos seguintes
lugares canta-se ainda o gregoriano: nos mosteiros beneditinos
do Rio, Ponta Grossa, Serra Clara, Belo Horizonte, Uberaba, Juiz
de Fora, Petrópolis, Caxambú, Olinda. Muito está traduzido em
português. Não sei onde se cantaria ainda o gregoriano. A Escola
Pio X fechou-se há muito tempo. Sei que de vez em quando Dom João
Evangelista Enout do Rio canta (...) e faz palestras no rádio
misturando polifonia e gregoriano, ou outros compositores de música
profana (...)."
Caso o contrato não fosse renovado após a mudança do Govêrno,
Eleanor Dewey pensava em continuar com o grupo que estava trabalhando
com ela há tempos, pois sem êle não haveria outro. Recomeçar outro
grupo sob as condições impostas estaria fora de cogitação. "Com a alta de vida e a inflação (9% no mês de janeiro) não há
dinheiro que chegue." (4 de fevereiro)
A atuação de Eleanor Dewey no Brasil foi devidamente salientada
no Simpósio Internacional de Washington, embora não tenha sido
possível encontrar meios para o financiamento de sua viagem, apesar
de todas as tentativas:
"A não ser o fato que seria maravilhoso poder tê-la encontrado
e que seria talvez interessante para a Sra. conhecer ou encontrar
de novo algumas pessoas que a Sra. conhece, posso consolá-la dizendo
que, do ponto de visto específico do Gregoriano, a Sra. nada perdeu
(...)". (o autor a Eleanor Dewey, 19 de julho).
Também não foi possível levar à frente o intento de conseguir
que lhe fosse conferido o título de Doutor honoris causa pelo
Istituto Pontificio di Musica Sacra: "Mais uma vez êles asseguraram a intenção de tudo fazer nesse
sentido, acham, no entanto, que isso deveria ser feito numa solenidade
onde tomassem parte outras pessoas de vários países que deveriam
também receber tal honra. Já existem vários nomes em cogitação.
Trata-se, primeiramente, de uma questão financeira, já que tal
cerimônia exige uma vultosa quantia. (...) Todos estão, no momento,
muito atribulados devido à mudança do PIMS para uma antiga Abadia
em Roma e sua reestruturação" (o autor a Eleanor Dewey, 19 de julho).
Uma das maiores preocupações de Eleanor Dewey, nesse ano de 1983,
disse respeito à Sociedade Brasileira de Musicologia. Com o falecimento
de Roberto Schnorrenberg, o trabalho por correspondência aumentou.
Em numerosas e longas cartas Eleanor Dewey tratava dos problemas
financeiros e sobretudo humanos da entidade:
"Cleofe e Você teriam de ter o tempo e amadurecer a situação.
(...) achou o mesmo, e repetiu, não se devem precipitar demais
as coisas. Nós não podemos ser precipitados agora. O futuro da
obra de você está em jogo, e temos de ser muitíssimos prudentes
e cautelosos (...). Deve ser alguém de pêso, e tanto quanto possível
fora da politicagem do mundo musical, pelo menos em São Paulo.
Pedi insistentemente a Cleofe que escrevesse para você expondo
as idéias dela." (12 de novembro).
O ano de 1984, ao lado do prosseguimento de intensos trabalhos
para a Sociedade Brasileira de Musicologia, foi marcado pela realização
de Cursos de Gregoriano pela Secretaria de Cultura do Estado de
São Paulo, de 8 de abril a 31 de dezembro.
Com a colaboração do Coral São Pio X, foram cantadas missas na
Basílica do Mosteiro de São Bento (18 de agosto), Igreja Mãe de
Deus (19 de agosto), Missa Cívico-Religiosa comemorativa da emancipação
política de Alagoas na Capela de Santo Expedito da Polícia Militar
(22 de setembro), Igreja da Consolação (24 de novembro) e na sede
de O Estado de São Paulo.
Menção especial merece a realização de uma conferência ilustrada
em Pindamonhangaba, a 7 de outubro, a convite do Departamento
de Artes e Ciências Humanas da Secretaria de Estado da Cultura
de São Paulo.
Também celebrou-se uma missa solene em Gregoriano de Natal no
Condomínio Chatel Dijon, no dia 24 de dezembro.
Congresso Internacional de Música Sacra em Roma
O mês de janeiro de 1985 foi marcado por aulas de Canto Gregoriano a convite da CIMBRA, Conferência Inter-Monástica do Brasil. A 9 de março, realizou musicalmente a primeira missa solene de D. Mateus de Sales Penteado O.S.B., na Capela das Irmãs Mercedárias. De 23 de abril a 31 de julho, ministrou curso de Canto Gregoriano na Secretaria da Cultura de São Paulo. Com o apoio do seu Coral Pio X, cantou a 17 de agosto a Missa da Assunção no Mosteiro de São Bento de São Paulo, repetindo-a a 18 de agosto no Páteo do Colégio. A 15 de setembro, realizou missa solene na Igreja da Imaculada Conceição, a 6 de outubro, outra na Basílica de São Bento. Em outubro, no dia 20, participou dos festejos do Cinquentenário da paróquia Sagrado Coração de Jesus, no Brooklin Paulista. A 3 de novembro, deu-se o encerramento do mês missionário com a Missa de Todos os Santos celebrada no Mosteiro de São Bento de São Paulo.
No ano de 1985, por motivo da passagem dos 80 anos de D. Eugène
Cardine, Eleanor Dewey procurou levar à frente o seu projeto de
editar as obras do pesquisador no Brasil. Entrando em contacto
com a Abadia de Solesmes, para pedir permissão, recebeu, a 28
de maio, a resposta positiva e a notícia triste de que o seu mestre
D. E. Cardine havia sofrido um ataque cerebral:
"Ma Soeur, En réponse à votre lettre du 12 février je suis très
heureux de savoir que vous avez pu avoir une subvention de l'Etat
por éditer en portugais la Première année de Chant Grégorien et
la Sémiologie Grégorienne de D. Cardine. Vous pouvez éditer ces
livres aux conditions suivantes: I. Inscrire sur les livres en
portugais 'Publié avec l'autorisation de l'Abbaye Saint Pierre
de Solesmes, France'; 2. Nous autoriser à reproduire sans frais
cette traduction dans les cas où nous en aurions besoin. 3. Nous
envoyer 3 exemplaires gratuits de ces deux livres pour notre bibliothèque;
4. Vendre éventuellement à notre librairie les livres (...) Le
Père Cardine a eu dernièrement une petite attaque cérébrale dont
il se remet assez bien. Il est encore un peu paralysé du côté
gauche et n'a pas encore retrouvé l'usage parfait de sa main.
Il commence à marcher un peu. Il a beaucoup de courage et son
moral est tout à fait remarquable. Je le reommande à vos prières."
Ponto alto do ano de 1985 foi a sua participação no VIII Congresso
Internacional de Música Sacra, em Roma, realizado de 16 a 23 de
novembro (Christus in Ecclesia Cantat, ed. J. Overath, Musices Aptatio 1985, Roma: CIMS 1986). Ali encontrou-se com outros participantes
vindos do Brasil, tais como Prof. Dr. José Penalva e Pe. Dr. José
Geraldo de Souza, de Portugal, sobretudo com a Dra. Júlia d'Almendra,
com os especialistas que havia participado do Simpósio em São
Paulo, em 1981, e com os membros do Instituto de Estudos da Cultura
Musical do Mundo de Língua Portuguesa, ISMPS, que então era oficialmente
fundado como entidade de utilidade pública. Realizava-se, assim,
um projeto que tinha sido acalentado há muitos anos e do qual
Eleanor Dewey sempre tivera sido um dos principais protagonistas.
A sua opinião sobre as execuções de Canto Gregoriano nas cerimônias
do evento, apesar do renome dos grupos participantes, foi negativa.
Ela se mostrava preocupada em ver que os princípios semiológicos
não eram seguidos pelos diversos coros. Viajou também por outros
países, visitando centros de estudos na Bélgica e sobretudo na
França, salientando-se mais uma vez Solesmes.
Continuação das intensas atividades no Brasil e convite para viver em Maria Laach
O ano de 1986 foi marcado pela conferência que pronunciou para
a inauguração de uma série dedicada à Música Litúrgica Brasileira.
De 7 de maio a 31 de agosto, ministrou um curso intensivo de Canto
Gregoriano na Secretaria de Estado da Cultura. A 18 de maio, dirigiu
missa cantada de Pentecostes na Basílica de São Bento, repetindo-a
na Igreja da Imaculada Conceição, no dia 19. A 17 de junho, cantou
em missa televisionada celebrada na Igreja de São Dimas. De 19
a 31 de maio, participou do XIV Festival de Música e Artes Plásticas
do Estado de Goiás (UFG), cantando, a 31 de maio, a Missa Solene
de encerramento do Festival.
Dentre as missas cantadas a seguir em São Paulo, salientaram-se
missa nupcial na Basílica de São Bento, a 14 de junho, e a missa
solene da Exaltação de Santa Cruz na Igreja da Imaculada Conceição,
a 14 de setembro. Como regente convidada do Coral do Estado, dirigiu
concerto no MASP e no Museu Histórico e Pedagógico Dr. Campos
Salles, em Campinas, a 1 de outubro. Seguiram-se uma missa solene
na Basílica de São Bento, a 12 de outubro. um novo concerto no
MASP como regente convidada, a 28 de outubro e, a 1 de novembro,
Missa Solene de Todos os Santos no Mosteiro de São Bento das monjas
beneditinas de Campos de Jordão. O mês de dezembro foi marcado
por três missas: a missa solene cantada pelo Coral do Estado na
Igreja da Sagrada Família, no dia 7, a missa solene cantada na
sede de O Estado de São Paulo, no dia 8, e a missa solene no Páteo
do Colégio, a pedido da Associação dos Procuradores de São Paulo,
com o coral Pio X, no dia 10.
A partir das inúmeras cartas com notícias preocupantes a respeito
da vida que Eleanor Dewey levava em São Paulo, com a intensidade
de concertos e com as dificuldades da Sociedade Brasileira de
Musicologia, procurou-se possibilitar para ela uma posição de
trabalho no Instituto de Estudos Hinológicos e Etnomusicológicos
de Maria Laach. Com a saída do Dr. Robert Skeris, que assumira
posto diretivo no Istituto Pontificio di Musica Sacra, a sua presença
poderia ser útil ao Instituto, apesar das divergências quanto
a métodos e concepções. Em carta de 24 de setembro, ela explicou
a razão por não aceitar o convite:
"Antes de mais nada, Bispo, achamos que, com 74 anos não é mais
o momento de me desarraigar novamente após minha estadia pouco
feliz na Inglaterra. Você foi o instrumento de Deus que me proporcionou
uma vida nova no Brasil. Será razoável me afastar de tantos e
tantos amigos para me isolar totalmente em Maria Laach, num país
cuja língua é-me desconhecida, num lugar muito bonito, é verdade,
mas longe de tudo, sem amigos, ladeada por senhores também desconhecidos?
(...) sinto que não tenho condições psicológicas nem físicas de
me desenraizar, nem mesmo sabendo que, se não der certo, poderia
retornar ao Brasil. (...) Além do mais, tenho um contrato com
M.H. e o Coral do Estado, com eventos marcados, parece-me impossível
deixá-la agora."
I° Congresso Brasileiro de Musicologia em São Paulo
O evento central do ano de 1987 foi a realização do Primeiro Congresso
Brasileiro de Musicologia, em São Paulo. Na preparação do evento,
tomou parte ativa, realizando intensos esforços para a sua concretização.
Colaborou na organização das sessões e das conferências, além
de atuar como tradutora de trabalhos apresentados no âmbito do
Encontro Regional para a América Latina e o Caribe do Conselho
Internacional de Música/UNESCO que teve lugar paralelamente ao
Congresso. Realizou súmulas e traduções de mais de 50 conferências.
Como pesquisadora, apresentou conferência sobre o tema "A interpretação e o ensino do Canto Gregoriano à luz dos manuscritos
pesquisados durante os últimos 60 anos". Nessa comunicação, tratou a problemática da interpretação musical
e da estética do Canto Gregoriano à luz dos manuscritos pesquisados,
limitando-se porém a considerar os de Saint Gall, na Suíça. Mais
uma vez acentuou que a maioria dos presentes deveria ter estudado
o Canto Gregoriano pelo Método de Solesmes, de modo que haveria
a necessidade de discorrer a respeito do papel histórico-musical
dessa Abadia na pesquisa paleográfica, sobretudo sobre a obra
de D. André Mocquereau. Entretanto, outro monge de Solesmes, D.
E. Cardine, teria feito descobertas quanto à execução e ao rítmo
do Gregoriano que não poderiam deixar de ser consideradas. Concluindo
a sua comunicação, um pequeno grupo do Coral Pio X cantou o Introitus
da Missa do IV Domingo do ano litúrgico e que seria executada
por completo no dia do encerramento. O presidente da sessão, Eurico
Nogueira França, salientou a relevância da verdadeira aula que
consistuiu a comunicação e o fato de o Gregoriano "ser um tesouro musical que se desdobra ante nós com as suas dificuldades
específicas". Fêz um apelo para que o estudo do Gregoriano fosse intensificado
no Brasil.
Eleanor Dewey preparou, para a missa solene de encerramento do
Congresso, celebrada em homenagem aos 80 anos do compositor Camargo
Guarnieri, o canto do Proprium gregoriano; a missa polifônica,
obra do homenageado, foi executada pelo Coral Camargo Guarnieri,
de Poços de Caldas.
A 29 de novembro de 1987, Eleanor Dewey escrevia a respeito do
incentivo que o Congresso representou para o seu grupo:
"O Coral Pio X vai muito bem. O sucesso do congresso deu asas
à turma. Vou tentar registrá-lo em cartório e depois no MinC,
o que permitirá receber patrocínios para viajar, e dar o recibo
que permite deduzir a doação do IR. (...) Vou cantar em Campinas
na festa de Assumpção, em Santos em setembro, e vamos ver onde
depois. (...) Recebi um convite do Rio para o II Congresso Nacional
de Música em homenagem aos 80 anos de José Siqueira, mas acho
que não vou, pois será muitas coisas em seguida. Estou ficando
experta em quedas... no domingo de Páscoa caí subindo as escadas
e parei no Pronto Socorro, graças a Deus nada quebrado. Quarta-feira
passada tropecei na sarjeta no meio da Consolação e lá fui de
todo o meu comprimento (...) mas só estou trincada, as costelas,
não sei se é uma ou duas, mas sofrendo um bocado..."
De 18 a 25 de abril, na Universidade Federal de Ouro Preto, como
conseqüência de sua conferência realizada em São Paulo, apresentou
um trabalho sob o título de "Histórico do Canto Gregoriano e sua
Espiritualidade". Com um grupo de participantes voluntários, executou
o Proprium da missa de encerramento.
Nesse ano houve muitas apresentações do Coro Pio X: no dia 31
de maio, no Mosteiro de São Bento, de São Paulo, no dia 28 de
junho, com a missa de São Pedro e São Paulo, na Basílica do Carmo,
no dia 17 de agosto, com a missa da Assunção, na paróquia do Divino
Salvador, em Campinas, no dia 26 de setembro, com a missa de encerramento
da Semana de Música "Maria Luiza", em Santos, no dia 29 de novembro,
com missa solene na Catedral São Francisco de Assis, em Taubaté,
promovida pela Prefeitura Municipal e Departamento de Educação
e Cultura de Taubaté, no dia 8 de dezembro, com missa na sede
do jornal O Estado de São Paulo, no dia 15, com missa no Páteo do Colégio, promovida pela Procuradoria
do Estado e, por fim, no dia 18 de dezembro, com concerto de Natal
na paróquia Santa Margarida Maria.
Publicação de obras de D. Cardine em português
Já na sua comunicação ao Primeiro Congresso Brasileiro de Musicologia,
Eleanor Dewey anunciara que a sua intenção seria a de publicar,
em português, obras básicas de D. Eugène Cardine, possibilitando
a difusão dos conhecimentos no Brasil. Essa preocupação acompanhou-a
no ano de 1988, sendo os trabalhos porém sempre interrompidos
pelas numerosas apresentações do seu Coro Pio X e da sua intensa
atividade de ensino.
O primeiro semestre de 1988 foi marcado por concertos de Páscoa
promovidos pelo Instituto Hans Staden, respectivamente na Igreja
da Paz, a 24 de abril, e no Mosteiro de São Bento, de São Paulo,
a 30 de abril. Seguiu-se a Novena do Espírito Santo em Gregoriano,
realizada na Paróquia do Divino Espírito Santo e, a 13 de maio,
a missa solene de Pentecostes na Capela do Hospital Santa Catarina.
Eventos relevantes do segundo semestre de 1988 foram: missa da
Assunção de Nossa Senhora na Basílica de São Bento, a 21 de agosto,
concertos na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, a 9 de
setembro e 6 de novembro, gravação, na Televisão Bandeirantes,
do programa Anunciamos Jesus; missa solene no Mosteiro de São Bento de Sorocaba, a 27 de novembro,
missa na sede do Tribunal da Justiça, a 6 de dezembro, concerto
de Natal na Paróquia Santa Margarida Maria, a 9 de dezembro, concerto
na Igreja da Imaculada Conceição, promovido pela Associação Paulista
de Organistas, a 13 de dezembro e a 18 de dezembro, e, por fim,
concerto de encerramento do ano na Basílica do Carmo, a 20 de
dezembro.
O ano de 1989 abriu-se com missa da Epifania cantada na Basílica
do Mosteiro de São Bento de São Paulo, a 8 de janeiro. Seguiu-se
um concerto no âmbito da apresentação de obra de François Couperin,
em conjunto com a Associação Paulista de Organistas e com o apoio
do Prof. Dr. Roger Cotte, a 23 de abril, e concerto de Páscoa
com Canto Gregoriano e órgão na Basílica do Carmo, no dia 7 de
maio. Além do canto da missa solene dos Apóstolos Pedro e Paulo,
na Basílica de São Bento, a 2 de julho, participou da missa de
ordenação diaconal celebrada no mesmo Mosteiro, no dia 2 de agosto.
Ponto alto desse ano foi o lançamento dos livros Primeiro ano de Canto Gregoriano e Semiologia Gregoriana de D. Eugène Cardine, por ela traduzidos, ocorrido no dia 16 de
agosto (Eugène Cardine, Primeiro ano de canto gregoriano/Semiologia gregoriana, trad. E. F. Dewey, São Paulo: Palas Athena/Athar 1989). Realizava-se,
assim um dos sonhos da sua vida, - tinha outros ainda -, como
bem salientou. A publicação foi possibilitada pelo patrocínio
do Dr. José Mindlin e do Dr. Luiz Diederichsen Villares.
Eleanor Dewey ressalta nas suas palavras introdutórias um fato
que não correspondia bem à realidade que ela própria experimentara
amargamente nos círculos sacro-musicais europeus: "(...) pacífica é a aceitação das descobertas de D. Cardine ..."
(pág. 8). Tão pacífica não era, pelo contrário! Era a causa de
graves e odiosas animosidades nos meios sacro-musicais. A edição
foi feita a partir de uma tradução inicial feita por Egle Conforto
por ocasião de um curso de semiologia gregoriana que E.F.Dewey
ministrara em 1976/77. A obra contou também com o apoio de seu
discípulo Marcos Isola Pavan, assim como de Alvaro de Souza Machado,
Augusto Rissuke de Moraes Tada, Jane Dias Allessandrini, Antonio
Roberto Morelli e do Dr. José Pinheiro Neto. Nessa obra, Teresinha
S. Schnorrenberg assim apresenta Eleanor Dewey:
"Personalidade adorável, competente, de sólida formação musical,
batalhadora incansável da causa do Canto Gregoriano no Brasil.
(...) O presente trabalho confirma a vivência, dedicação e domínio
alcançado pela sensível amiga."
No dia 20 de agosto, cantou missa solene da Assunção de Nossa
Senhora na Basílica de São Bento, a 8 de dezembro missa solene
na sede do jornal O Estado de São Paulo. O ano foi encerrado com concertos de Natal na Basílica do Carmo,
a 18 de dezembro, e na paróquia Santa Margarida Maria, a 22.
Infelizmente, Eleanor Dewey não teve a oportunidade de participar
do Colóquio Internacional de Estudos Culturais levado a efeito
na Alemanha com um grupo de pesquisadores brasileiros. O seu objetivo,
para o qual na época procurava meios, era o de trazer o seu Coro
Pio X para a Europa, com o escopo de demonstrar nos centros europeus
as qualidades interpretativas possibilitadas pelos preceitos semiológicos.
Assim, em 30 de agosto de 1989, escrevia:
"Falando de meus sonhos, resta um, que só poderia se realizar
com ajuda de você, Bispo. Quero levar o meu coral para o próximo
congresso de canto gregoriano, suponho em 1990, é só isto meu
sonho !!! e porque não? Se (...) e outros podem levar os seus,
e exigir a viagem por avião, porque o Brasil não pode mostrar
aos europeus que sabe cantar o Gregoriano? Quero levar as vozes
femininas que estão cantando lindamente, e os homens, já em número
de 11, que cantam bem, mas a maioria é de novatos, embora sensíveis
à música. (...) Que tal? Onde devo começar? Deixando tudo nas
suas mãos? Missas e concertos não me preocupam, temos bastante
peças etudadas para enfretar as críticas dos 'nossos' amigos."
Em 26 de dezembro, insistia mais uma vez na necessidade de trazer
os seus cantores à Europa, embora a situação, pelo menos na Alemanha,
se mostrasse muito difícil: "O tempo está passando, e não acredito que o projeto não esteja
em andamento já, apesar do que a Julieta (de Andrade) me disse.
Por favor me responda au retour du courrier, não posso definir
nada sem você agora."
Uma de suas grandes preocupações continuava a ser a Sociedade
Brasileira de Musicologia. Em longas cartas onde transmitia pormenores
de reuniões e encontros, salientava a crise por que passava a
entidade: "Bispo, se eu não te conto, ninguém vai te dizer nada. Aja enquanto
há tempo. Não quero ver seu sonho arruinado, não. Brasileiro não
sabe fazer um trabalho desinteressado, sempre procura a sua própria
promoção."
Com a obra traduzida, Eleanor Dewey realizou uma viagem à Europa
com o intuito, entre outros, de apresentá-la nos principais centros
com os quais tinha relação. Visitou Lisboa, Coimbra, e sobretudo
Saint Gall e Einsiedeln, na Suíça, assim como Solesmes na França
e outros conventos da Bélgica e da Inglaterra. Na Bélgica, realizou-se
um encontro com membros da Academia Brasil-Europa, então em fase
de atualização. Promoveu-se uma apresentação do livro em Colonia.
O primeiro semestre de 1990, além de possibilitar a celebração
gregoriana de missas de casamento (3 de fevereiro, 8 de junho
Mosteiro de São Bento) e de sétimo dia (9 de março, Igreja de
Nossa Senhora do Rosário), incluiu a celebração de várias missas
gregorianas: missa solene da Ascenção na Faculdade de Música Santa
Marcelina, a 27 de maio, a de Pentecostes no Mosteiro de São Bento
e Maria, Mãe da Igreja, a 3 de junho.
A 15 de agosto, celebrou musicalmente a missa solene da Assunção
na Capela do Colégio Assunção. A 26 de agosto, realizou concerto
comemorativo dos 437° anos de fundação de São Bernardo do Campo
e dos 900 anos de morte de São Bernardo. A 30 de setembro, cantou
missa solene na Fundação Antonio Prudente e, dando seqüência a
uma prática que já se tornara tradicional, solenizou com Gregoriano
missa na sedo do jornal O Estado de São Paulo, a 7 de dezembro. O ano foi encerrado com um concerto no Santuário
do Sagrado Coração de Jesus.
O ano de 1991 foi aberto com as preocupações relacionadas com
os graves problemas enfrentados pela Sociedade Brasileira de Musicologia.
Assim, no dia 11 de janeiro, escrevia:
"Ontem, após uma longa conversação com o Pe. José Geraldo de Souza
muito amical (aliás a terceira), estava num estado de colapso,
não por falta de entendimento, em absoluto, mas pela atitude negativa
e sobretudo confusa dela. (...) Nunca sonhei que seu projeto ia
me proporcionar tanto trabalho. Creio que está bem acima das minhas
forças físicas; não esqueça que estou no meu 79 ano, e não tenho
mais o ânimo dos meus 70. (...) Sua idéia de formar um grupo coeso
é excelente, mas pela conversa de ontem com o Pe. José Geraldo
de Souza não sei se ele o faria, por falta de tempo (...) Sei
que posso contar com ele, mas ele torna tudo tão complicado."
De 4 a 9 de junho de 1991, ministrou curso de extensão promovido
pela Universidade Federal de Uberlândia, sob a direção de Calimério
Soares, com missa de encerramento na Catedral Santa Terezinha,
cantada pelos alunos do curso. (veja video)
A seguir, dirigiu-se de novo à Europa, onde visitou, de 10 de
junho a 18 de julho instituições da Inglaterra e da Bélgica, e,
de 15 de setembro a 1 de novembro, Solesmes. Esteve novamente
na Inglaterra e na Bélgica, participando de encontros do ISMPS
e da Academia Brasil-Europa.
Do segundo semestre desse ano, destacam-se a missa solene da Assunção
de Nossa Senhora em Bom Jesus dos Passos, a 18 de agosto, a missa
solene da Imaculada Conceição na sede de O Estado de São Paulo, a 6 de dezembro, e a missa de sétimo dia por Martin Braunwiser
na Basílica do Carmo, no dia 7 de dezembro.
II° Congresso Brasileiro de Musicologia, Rio de Janeiro
O ano de 1992 foi marcado pela realização do II° Congresso Brasileiro
de Musicologia, no Rio de Janeiro, em cujo âmbito realizou-se
o III° Simpósio Internacional Música Sacra e Cultura Brasileira.
Antes desse evento, Eleanor Dewey dirigiu um concerto promovido
pelo Centro de Expansão Cultural de Santos na Capela do Colégio
Stella Maris, a 11 de abril.
Na sessão de abertura do evento, no Salão Leopoldo Miguez da Escola
de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, representou
o Prof. Dr. Roberto Stevenson, do Departamento de Musicologia
da Universidade da California, impossibilitado de estar presente,
lendo a sua conferência de título Musical Remembrances of Columbus's Voyages. A sua principal atuação deu-se na sessão do dia 23 de abril,
realizada no Auditório do Mosteiro de São Bento, dedicada ao Canto
Gregoriano. Após a missa de abertura, cantada pelos monges a Abadia,
os trabalhos foram presididos pelo Prior do Mosteiro, D. João
Evangelista Enout O.S.B.. A primeira conferência foi proferida
pelo Abade Prof. Dr. Bonifacio Baroffio O.S.B., Preside do Pontificio
Istituto di Musica Sacra, de Roma, dedicada ao tema "O canto litúrgico
monódico na Península Ibérica no contexto geral da história do
Canto Gregoriano na Europa." Seguiu-se conferência do Prof. Dr.
Hans Schmitt, da Universidade de Colonia e a comunição do Cónego
Dr. José Augusto Alegria, da Universidade de Évora.
Para o Congresso, Eleanor Dewey realizou um pormenorizado levantamento
da situação da prática e do estudo do Canto Gregoriano nos mosteiros
do Brasil, apresentando os resultados da pesquisa em sessão realizada
no auditório do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. Enviara
67 questionários, recebendo 39 respostas. A conferência, de título
Estudo e prática do Canto Gregoriano e sua fundamentação conceitual,
histórica e interpretativa foi posteriormente publicada nos anais do evento. Salientou que
as instruções do Concílio Vaticano II não foram bem interpretadas
no Brasil, causando problemas para a prática musical. O quadro
geral era "lastimável, desanimador; transparece a total falta do mínimo
esforço, tanto nos seminários, quanto nos mosteiros e conventos
para ensinar o Canto Gregoriano e ainda menos os fundamentos musicais
que permitam uma execução razoável de outras formas musicais convenientes,
quando o forem" (In: Correspondência Musicológica 20/6, 1992, 12 ss., 13). Participou, juntamente com alunos seus
do Mosteiro de São Bento de São Paulo, da missa solene de encerramento
do Congresso, na igreja do Mosteiro, regendo o Proprium gregoriano
para a apresentação da Missa de 2 de fevereiro do Pe. José Maurício
Nunes Garcia, regida por Cleofe Person de Mattos.
Após o Congresso, participou ativamente dos trabalhos que se seguiram
para a elaboração de seus resultados. Mesmo assim, encontrou tempo
para cantar missa de ordenação sacerdotal alternada com os monges
do Mosteiro de São Bento, no dia 7 de junho e na missa de um dos
setores das equipes de Nossa Senhora na Igreja Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro, no dia 22 de junho. O ano foi encerrado com
um concerto na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Tatuapé.
Concretização de projeto: apresentações do Coral Pio X na Europa
Um dos grandes projetos de Eleanor Dewey foi realizado em 1994, quando esteve na Europa com alguns de seus cantores do Coral Pio X. Mais tarde (1999), recordaria:
"We decided to go ahead and try to raise the necessary funds.
It was certainly an ambitious project. Somehow we had to raise
money, which was not going to be at all easy. I started by going
to her Majesty's Consul General, and he referred me to the British
Council. the Council's Director Mr. John Coope suggested that
we should try to raise the money on our own and let him know our
progress. Over fifty fund-raising letters were sent to Banks and
influencial firms. All the replies were negative. Time was running
short so I rang John to let him know how our position was. Two
days later I was summoned to the offices of the Cultura Inglesa
de São Paulo and was presented with 15.000 dollars in hand."
Em Watou, na Bélgica, cantaram uma missa pré-abertura do International Congress of Grégorian Chant Choirs. Ficou surprêsa em constatar que toda a comunidade cantou o segundo
Kyrie, assim como o Gloria, dialogando com a Schola. Após a missa,
dirigiram-se a Brügge, onde assistiram à procissão do Santíssimo
Sangue. Essa experiência foi única, pois constatou que os cantores
sabiam ouvir-se mutuamente, fruto do trabalho do seu diretor.
Um de seus principais discípulos, Marcos Pavão, veio de Roma para
o encontro, não podendo porém seguir a Solesmes. Sobre esse seu
discípulo, escreveria (1999):
"He left for Rome to study for the priesthood, and soon his musical
aptitudes were put to good use. He was soon invited to sing at
some of the Pope's Masses, including the Exsultet!at Easter and
the Martirology before Midnight Mass. In 1998 he was appointed
director of the boys'choir of the Sistine Chapel. He was ordained
in 1997 and has continued in Rome preparing for his doctorate.
With Marcos's arrival our number was complete."
Após o Congresso, em Solesmes, muito bem recebidos, cantaram para
os monges. No cemitério do Mosteiro, cantaram Misericordias Domini perante o túmulo de D. E. Cardine. Em Chartres, realizaram um
concerto na catedral. De retorno ao Brasil, cantaram cinco missas
e realizaram um concerto.
As atividades musicais em São Paulo prosseguiram nos anos seguintes.
Em 1995, cantaram 20 missas e realizaram 2 concertos.
Em 1996, festejando o seu jubileu de diamantes, celebrou-se uma
missa cantada na Basílica de São Bento. No dia 2 de julho, data
da ordenação de Marcos Pavan, o Coral Pio X cantou na sua primeira
celebração solene, em latim. Em 1997, o Pio X cantou para os funcionários
da Caixa Econômica de São Paulo, solenizou uma missa em ação de
graças para a Associação Santo Agostinho e realizou um concerto
para a Academia Paulista de Letras. Em 1998, entre outras realizações,
cantou para a Associação Médica do Hospital de São José e, na
Páscoa, na Catedral de Piracicaba, em missa celebrada pelo bispo
D. Eduardo Koiak. Também apresentou-se com o seu coro no Teatro
Universitário de Baurú e em missa solene na Catedral de Taubaté.
Congresso de abertura das comemorações dos 500 anos
O último grande evento no qual Eleanor Dewey participou foi o Congresso Internacional "Brasil-Europa 500 anos: Música e Visões", realizado em 1999 em Colonia e em Bonn, abertura do triênio de eventos científicos pelas comemorações do V° centenário do Descobrimento do Brasil. Alguns meses antes, em visita à Academia Brasil-Europa, havia sido entrevistada e as suas memórias registradas. Tratava-se, agora de possibilitar a sua participação como conferencista, apesar de sua já avançada idade. Paralelamente ao Congresso, realizar-se-ia o IV Simpósio Internacional Música Sacra e Cultura Brasileira, em Maria Laach, e a sua presença, como co-organizadora dos simpósios anteriores, surgia como particularmente importante. Entretanto, após tantos anos de relativo afastamento dos meios musicológicos e até mesmo da prática musical, sentia receio de não estar em condições de oferecer uma contribuição significativa para o evento, sobretudo por tratar-se em primeiro lugar de um evento dedicado a temas mais genéricos das relações euro-brasileiras.
Assim, no dia 7 de julho de 1999, escrevia: "(...) fiquei abismada perante o fato que devo fazer uma palestra
para um público acadêmico. Não tenho a mínima idéia do que deveria
ser o assunto, tenho mêdo de que os conhecimentos da gente presente
sejam muito superiores aos meus. Será que você sugeriria umas
idéias para mim? É que estou totalmente isolada do resto do mundo,
também do mundo gregoriano!!"
Em resposta, procurou-se demonstrar a conveniência de que a sua
contribuição possibilitasse um tratamento teórico mais profundo
da questão da semiologia, uma vez que diz respeito a sinais, ao
visível e ao audível, e a interpretações de conteúdo e de interpretação,
e o tema do Congresso era o de visões e música e, portanto, de
imagens:
"(...) Talvez a Sra. pudesse salientar o tema Visão, pois é o
título do Congresso. Qual era a imagem que a Sra. tinha do Brasil
antes do partir e como a sua imagem modificou-se no decorrer do
tempo? Houve mudanças na imagem que se tem do Canto Gregorio e
de sua interpretação? Essas são apenas sugestões." (9 de agosto)
A 5 de agosto, anunciava, com alegria, que a APCM (Associação Paulista de Canto Medieval) pagaria a sua passagem e que tomaria parte no evento.
No dia 9 de agosto, escrevia: "(...) Visão, tudo bem, mas a visão é triste sem esperança de melhorar o nível cultural... que permanece lamentable."
A sua conferência, de título "Three Decades of Gregorian Chant in Brazil", retomou de forma atualizada o tema que havia tratado em 1981, na Collectanea Musicae Sacrae Brasiliensis. Assim, iniciou a sua comunicação com a última frase daquele seu artigo, onde acentuara a necessidade do entusiasmo. O seu entusiasmo, pelo menos, permanecia vivo, e assim anunciava o seu próximo projeto, o realização de um CD no primeiro semestre do ano 2000.
A última participação de E. Dewey em evento de relevância musicológica
deu-se por ocasião do encerramento do triênio científico pelos
500 anos do Brasil, em 2002. Nessa ocasião, porém, por motivo
de suas condições de saúde, já não pode estar presente. Enviou
porém a sua mensagem por discípulos que a representaram após a
sessão efetuada no Teatro São Pedro, em São Paulo, no dia 23 de
setembro.
Eleanor Florence Dewey, Mère Marie du Rédempteur C.S.A., faleceu
no dia 28 de abril de 2008.