Doc. N° 2354

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1999 by ISMPS e.V. © 2006
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114 - 2008/4
Cultura mortuária na Bretanha e no Brasil
St. Theogonnec e Plougrescant. Trabalhos da A.B.E. 2008
A.A.Bispo
No âmbito do ciclo de estudos "Normândia-Bretanha-Brasil" da Academia
Brasil-Europa, realizado em maio e junho de 2008, deu-se especial
consideração à cultura mortuária sob a perspectiva intercultural.

A escolha dessa temática foi sugerida pelo significado dos cemitérios
e dos Calvários na Bretanha, monumentos arquitetônicos que caracterizam
a região. Não há região na Europa onde a cultura mortuária seja
tão manifesta como na Bretanha.
O tema vem de encontro também a preocupações atuais. Frequentemente
se ouve a opinião de que a morte foi por demais afastada da cultura
contemporânea, que ela pertence à vida e que seria necessário
uma nova atitude para com o fato da temporalidade da existência.
Essa nova consciência teria conseqüências para a própria vida
e, sobretudo, para a humanização das relações com aqueles marcados
pela morte próxima.
Sob o ponto de vista dos estudos culturais, a A.B.E. já dedicou
algumas de suas sessões a esse complexo temático. Esse foi o caso,
por exemplo, no Congresso de Estudos Culturais Euro-Brasileiros,
em 2002, quando foram tratados, em conferências, aspectos da Encomenda
das Almas em regiões de Minas Gerais e da Comunhão entre Vivos
e Mortos no Brasil Central e do Norte. Como salientado nessa e
em outras ocasiões, o complexo temático está longe de ser esgotado.
Com a renovação teórica dos estudos culturais, cumpre também aqui
procurar novas perspectivas para o seu tratamento. Que o significado
da cultura mortuária no contexto geral da cultura não se limita
a contextos rurais e tradicionais isso o demonstra a magnitude
dos cemitérios nas grandes cidades latino-americanas, seja o do
Araçá em São Paulo, o de São João Batista no Rio de Janeiro ou
o da Recoleta, em Buenos Aires.
Para o tratamento do tema nos diversos contextos, torna-se necessário
um estudo mais aprofundado do sistema de concepções inerente às
expressões culturais e, para isso, impõe-se a consideração de
contextos globais. Também na Europa os grandes cemitérios marcam
a fisionomia e a vida das grandes cidades, bastando aqui lembrar
os monumentais de Paris e de Milão. Também aqui oferecem inúmeras
possibilidades para estudos escultóricos e arquitetônicos e, muito
mais, para análises de formas de representação de famílias, de
comunidades e grupos. Apesar das potencialidades para estudos
culturais e interculturais, os cemitérios - e a cultura mortuária
- em geral são quase que ignorados (ou evitados?) pelos estudiosos.
A Bretanha, com os seus cemitérios em áreas paroquiais fechadas,
marcados por monumentais calvários, oferece condições especiais
para estudos de base do edifício de concepções e expressões mortuárias
do Ocidente.
Uma primeira evidência da importância dos cemitérios bretões é a sua localização central nas aldeias. Os mortos repousam não em campo afastado, mas no centro da comunidade. Essas áreas não são apenas de interesse histórico-artístico. Representam expressão do desejo de pequenas comunidades de se sobreporem às vizinhas, em competição de fé e de posses, constituindo assim um fenômeno de significado para análises histórico-sociais e histórico-culturais relacionadas com a identidade de comunidades do passado.
Não é de hoje, é verdade, que os cemitérios e os calvários na Bretanha vêm despertando o interesse de estudiosos da cultura.
Tem-se procurado, já há muito, identificar as raízes desse significado dado aos mortos nessa região e um dos caminhos de elucidação tem sido fazê-lo remontar a um substrato celta na cultura. Invertendo-se o caminho elucidativo, em verdadeiro círculo de argumentação, salienta-se que entre os celtas os mortos não estariam mortos, extintos, mas continuariam a estar presentes entre os vivos, até mesmo na vida quotidiana. Essa crença ter-se-ia mantido após a cristianização da Bretanha nos primeiros cinco séculos da nossa era.
Tal elucidação foi tratada em estudos de tradições populares de fins do século XIX e início do século XX e amplamente difundida em revistas ilustradas de divulgação mundial. Uma delas, também lida no Brasil, era a Revue Universelle et Populaire Illustrée, publicada em Paris, que, em 1912, incluiu um alentado estudo sobre os cemitérios da Bretanha (H. le Goffic, "Dernier Sommeils en Terre Bretonne", Lectures pour Tous: Revue Universelle et Populaire Illustrée, 15/1/1912, Paris: Hachette, 107-114).
Já nesse artigo salientava-se o significado dos cemitérios bretões para a auto-consciência e a representação das comunidades. Eles guardavam uma misteriosa força, que seria duplamente sagrada, pela religião e pela história. Por essa razão, concentrando sobre êle toda a sua piedade, os fiéis de cada paróquia rivalizavam-se em lhes dar toda a magnificência possível e um aparato superior àquele dos cemitérios da aldeia vizinha. O cemitérios da Bretanha representariam não apenas uma forma de religiosidade mas também uma forma de "patriotismo municipal".
A morte nas narrativas cantadas
A presença da morte e dos cemitérios manifesta-se também em textos
cantados, sobretudo naqueles com cunho de lamento (gwerz).
Num desses cantos, recolhido no século XIX por M. Géniaux, conta-se
que uma pequena doméstica, de nome Louison, encontrava-se triste
por não poder fazer celebrar uma missa em intenção de seus pais
mortos. No dia de Todos os Santos, um desconhecido a ela ofereceu
dinheiro para a celebração da missa sob a condição que fosse à
meia-noite buscar ossos de um dos mortos no cemitério. Após preparar-se,
orando pelas almas do Purgatório, dirigiu-se ao ossuário. Foi
envolvida então por uma claridade, ouvindo então gritos de almas
sem familiares e amigos que pediam aflitas por orações e água
benta. Tomando um dos braços do meio dos ossos, levou-o àquele
que encomendara. Com o dinheiro, mandou rezar missas e, com isso,
enviou centenas de almas ao Paraíso.
Esse canto tradicional bretão permite primeiras aproximações ao
universo de concepções relacionadas com a morte na cultura popular
da região. Entre outros aspectos, deixa evidente que os vivos
e os mortos estão unidos por laços de solidariedade e de responsabilidade,
uma vez que as almas necessitam do cultivo da memória. A consciência
de que a vida terrena é passageira, que representa apenas um trânsito,
surge como particularmente marcante na cultura rural bretã. Como
se tem salientado, aqui residiria uma das elucidações para o fato
de que as entradas para os cemitérios apresentam-se monumentais,
até mesmo triunfalistas: aqueles que passavam por essas portas
para sempre teriam morrido na esperança de alcançar uma vida eterna
de alegria e de glória.
O respeito por essas áreas paroquiais manifestava-se no passado por uma série de preceitos. Em parte registrados por pesquisadores empíricos da cultura, oferecem hoje subsídios para estudos do conjunto de concepções e expressões. Assim, em alguns cemitérios, como o de Lanrivoaré, era de preceito que neles se entrasse apenas de pés descalços. Segundo a tradição, um estrangeiro que, sem o saber, não observou essa prática, teria caído morto. O respeito por essas áreas prendia-se àquele pela memória dos ancestrais da comunidade. Acreditava-se que ali se encontravam enterrados membros de um povo cristão da antiga Armorica que teria sido totalmente extinto por pagãos. No dia do "pardon", os peregrinos, em joelhos, davam voltas ao redor do cemitério. As práticas estavam vinculadas com o culto de santos e eram marcadas por uma simbologia centralizada na pedra. Numa das extremidades do cemitério, sete pedras redondas, colocadas em ordem de tamanho, aos pés do calvário, atestavam o poder de S. Hervé. Segundo a tradição, um padeiro da localidade havia-lhe recusado uma esmola e teve, por isso, seus pães transformados em pedra. Esta seria uma das justificativas dadas pela tradição ao simbolismo da pedra, sempre presente nas construções. Percebe-se, aqui, o estreito elo, contrastante, entre o pão e a pedra.
Em Plougastel, à Fête des Trépassés apresentava ritos particularmente singulares: o rito do bara ann anaon ou pão das almas, e o rito do govezen ann anaon, ou árvore das almas. O bara ann anaon era um pequeno pão de crosta dourada, fabricado por pessoas da paróquia e levadas de porta em porta na noite de Todos os Santos. Perguntava-se: "Quereis comprar um pão das almas?" O dinheiro era usado para a celebração de missas pelas almas dos defuntos. Na cerimônio do gwezen ann anaon, havia uma pequena árvore, onde o tronco era escoriado e as esfarpas talhadas em ponta. Em cada uma colocava-se uma maçã. Em Plougastel, sob a cruz do cemitério, o sacristão levantava uma árvore desse tipo. A aquisição da árvore era resultado de um voto, por exemplo de casais sem filhos. O comprador passava então a vender as maçãs.
Para o estudioso da antiga mitologia e da cristianização de antigos edifícios de concepções, ter-se-ia aqui uma expressão do mistério da ressurreição. Em região marcada por atividades agrícolas e, portanto, por vínculos estreitos com a terra, o símbolo - parábola - da semente que morre ao ser plantada para manifestar-se posteriormente nos inumeráveis grãos desempenha papel fundamental no edifício das concepções. Essa simbologia da mãe-terra e do grão de trigo no ciclo anual inseria-se no contexto global das concepções filosófico-naturais. Seria do conjunto das concepções relacionadas com os elementos que se explicaria o papel simbólico da pedra na cultura mortuária. Nos cemitérios da Bretanha, até mesmo grandes pedras de monumentos megalíticos foram transportadas para as áreas paroquiais, onde passaram a servir como pedestal para objetos funerários ou para lanternas dos mortos. Esse fato sugere a transformação de sentidos de pedras e rochas de remotos monumentos à época da cristianização através de sua inserção na área sagrada. Ao mesmo tempo, porém, testemunha a auto-consciência dos cristãos com relação a expressões culturais anteriores.
Tais testemunhos do processo cristianizador através da metamorfose
da linguagem simbólica não foram porém sempre bem entendidos.
Pelo contrário, foram combatidos como restos de práticas pagãs.
Os estudiosos de tradições populares, assumindo esse ponto de
vista, acreditaram que, apesar das proibições da Igreja, ter-se-ia
aqui resíduos de cultos pré-cristãos sobreviventes em costumes
bretões ligados a pedras, árvores e fontes.

Trabalhos da A.B.E. 2008. Fotos de A.A.Bispo
A simbologia da vida que morre para renascer não pode, desde os
seus fundamentos filosófico-naturais, não pode ser considerada
sem a água e as fontes. O significado simbólico da água corrente
nas áreas mortuárias bretãs se manifesta na existência de fontes
muitas vezes integradas no conjunto monumental. Um desses exemplos
é a de Saint-Jean-du Doigt, emoldurada na Renascença pelo escultor
Jacques Lespaignol.
A narrativa oral bretã apresenta vários exemplos de elucidações
de cunho histórico para o surgimento de locais de cunho numinoso,
em particular de fontes. Com relação à localidade acima citada,
conta-se que um jovem arqueiro de Plougasnou, a serviço de um
senhor normando, teria tido uma grande devoção por um dedo de
S. João Baptista conservado numa capela de nome Saint-Jean-du-Day.
Ao retornar do combate, até mesmo as árvores se curvavam diante
de sua presença e os sinos tocavam por si. Ao chegar na igreja
de Plougasnou, as velas se acenderam por si próprias e a relíquia
que levava saltou sobre o altar. Mais tarde, Jean V, Duque da
Bretanha, mandou construir um repositório para abrigá-la, transformando
num dos grandes polos de peregrinação. Percebe-se, assim, o elo
simbólico que une o fogo espiritual que imbuiu o Precursor não
apenas com o símbolo da semente e o culto dos mortos mas também
com a simbologia da água.
No dia 2 de novembro, nenhum pescador arriscava-se em sair ao mar devido ao vento dos mortos. Segundo a tradição popular, em dois dias do ano, o dos Finados e no Natal, os falecidos saíam do abismo e peregrinavam em procissão através das aldeias do litoral. De igrejas submarinas ouviam-se sinos e vozes de celebrantes por debaixo das águas. Em memória das vítimas infortunadas, praticava-se no litoral, sobretudo na ilha de Sein, a vigília dos mortos como tro ann anaon, ou ronda dos manes. Após a missa do dia de Todos os Santos, o cura designava 8 homens para desempenhar o papel de manes. À noite, após os três noturnos dos mortos, quatro deles entravam na igreja para tilintar vidros. Os outro quatros, com sininhos, caminham pela aldeia, parando perante as residências, sobretudo aquelas onde tivesse havido casos de falecimento durante o ano, cantando:
Christenien, divunes, Da pedi Doue gan aun anaon tremenet, Da lavarat eur pater hag eun ave.
Cristãos, acordai-vos; pedi a Deus pelas almas dos defuntos. E dizei em vossa intenção um pater e uma ave. Do interior, respondiam: Amen.
Na Ilha de Sein, como em muitas comunidades do litoral, se alguém morria no mar, reservava-se um terreno para êle no cemitério paroquial. No cemitério de Ploubazlanec havia uma parede dos desaparecidas na Islândia. Havia cruzes, coroas, placas, inscrições. Cada desaparecido tinha o seu túmulo com alguma areia em caixa de madeira branca. Cria-se que, no dia dos mortos, os desaparecidos levantavam-se do abismo e vinham tomar posse desses túmulos.
Dentre os elementos mais característicos dos cemitérios bretões incluem-se os oratórios do caminho da cruz, os bancos para a oração, os calvários e os ossários. Entre os principais oratórios, contam-se os de Servel, do século XVIII. Os púlpitos ao ar livre são mais numerosos. Quatro exemplares mais destacados são os de Notre-Dame-de-Terminou, em La Forêt, em Pleubian e em Plougrescant,. Nas grandes solenidades, dali se prega o evangelho. Escadas interiores permitem que se suba à plataforma superior.
Principal exemplo dos ossários é o de Saint-Thégonnec que, com
sua ornamentação, colunas de ordem coríntia, niches, cariátides
no frontão, já tem sido visto como um "palácio da morte". Após
5 anos de sepultura, os ossos são desenterrados e para lá transferidos.
No passado, todo o domingo eram visitados pelos paroquianos. Em
procissão solene, às vésperas de todos os Santos, uma procissão
ao redor do edifício entoa um gwerz recolhido no século XIX por M.A. Le Braz:
"Allons au charnier, chrétiens. Contemplons les reliques - de
nos frères, soeurs, pères, mères. - Ici plus de noblesse, de richesse
ni de beauté. - La mort et la terre ont tout confondu. - eh bien,
en ce lamentable état où vous voyez réduits les défunts, - leur
silence parle plus haut que l'éloquence des vivants..."
No ato da exumação, membros da família escolhiam os ossos; os crâneos ou "chefs" eram colocadas em pequenas caixas de madeira branca ornamentadas com lágrimas negras para serem suspensas nas paredes ou alinhadas sobre as janelas do edifício. Uma abertura em forma de coração permitia que se visse o crâneo. Uma inscrição indicava a procedência. Ci-gît le chef de... Requiescat in pace. Amen. Se o ossário estava repleto, então se processavam os segundos funerais. Os ossos, para serem transportados, apenas podiam ser tocados por crianças inocentes ou por fiéis que haviam comungado.
A transferência dos ossos era precedida por uma "missão". As ossadas
formavam uma grande pirâmida. À noite, acendiamm-se candelabros
de velas ao redor. A vigília era feita por marinheiros e a igreja
era decorada por fora e por dentro de negro. Em procissão, com
o clero vestido de negro, os ossos eram levados para uma fossa
aberta num canto do cemitério. A procissão dava três voltas ao
redor da igreja; os sacerdotes e todos os participantes, após
passar os ossos pela face, pelos olhos e pela boca, os depositam
no túmulo.
Um uso tradicional e que demonstrava a presença dos mortos na
vida era o de a êles perguntar a opinião dos ancestrais a respeito
de um matrimônio. Após terem os familiares dado o consentimento,
indagava-se as almas dos ancestrais.
(...
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).