Doc. N° 2320

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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113 - 2008/3
Hagiografia hispânica e identidade comunitária sob a perspectiva
integrativa latino-americana
San Isidro Labrador
San Isidro, Grande Buenos Aires. Trabalhos da A.B.E. 2008
A.A.Bispo
Sob os novos impulsos integrativos despertados nos países do Cone
Sul no contexto do Mercosul, assumem renovado significado questões
de natureza cultural que dizem respeito a processos unificadores
e diferenciadores das várias nações envolvidas.

Trabalhos da A.B.E. 2008. Fotos H.Hülskath
Como países de formação colonial ibérica, o Catolicismo romano,
difundido através dos colonos e da ação missionária desempenhou
fundamental papel e representa base religioso-cultural do universo
comum dos vários países. O estudo de processos integrativos não
pode, assim, deixar de considerar a história da propagação religiosa
de cinco séculos.
Entretanto, apesar de sua unidade - justificada nas características
do Cristianismo e na universalidade defendida pela Igreja -, a
história religiosa na América Latina também é marcada por traços
distintos decorrentes sobretudo da origem dos colonizadores, missionários
e da história das ordens atuantes.
Sob este aspecto, a hagiografia surge como área de relevância
para os estudos histórico-culturais que procuram considerar aspectos
de diversidade na unidade de concepções e expressões religioso-culturais
da região.
O culto de santos vinculados com a história nacional, regional
e local de colonos e religiosos foi sempre um dos principais esteios
de manutenção da memória com o país de origem. Mesmo na atualidade,
em comunidades de imigração mais recente, observa-se o significado
do culto de determinadas expressões marianas e de santos para
a identidade de grupos e comunidades. O estudo das transformações
que ocorrem na intensidade e nas expressões dessas formas de culto,
de sua difusão e assimilação por outros círculos da sociedade
pode fornecer subsídios para análises de processos culturais integrativos.
Tanto a Espanha quanto Portugal possuem um diversificado e rico
patrimônio de expressões marianas e de culto de santos de fortes
vínculos regionais. A história de vultos beatificados e santificados
está em muitos casos estreitamente unida à história ibérica no
seu todo e nacional de seus dois países. Alguns de seus personagens
históricos e heróis foram elevados à honra dos altares. Certos
nomes passaram a fazer parte de um patrimônio comum de culto,
apesar de diferentes intensidades, unidos que estiveram com a
história mais antiga da Península ou com a Reconquista. Outros,
porém, permaneceram mais ligados com a história e a cultura religioso-popular
das respectivas nações.
Vários são os fatores que necessitariam ser aqui considerados
e que elucidariam o vir-a-ser de tradições e as suas transformações
nas diferentes épocas e regiões. Neste contexto bastaria apenas
lembrar que uma Santa Isabel, Rainha de Portugal, ou um São Gonçalo
de Amarante, venerados naturalmente sobretudo por portugueses
e seus descendentes, relativamente pouca expressão assumem em
regiões de formação colonial espanhola, enquanto que vários vultos
considerados modelares à conduta humana e espiritual da história
da Espanha são pouco conhecidos no Brasil.
No âmbito de intuitos de aproximação entre a América de língua
portuguesa e a de história colonial espanhola cumpre, assim, dar
particular atenção àqueles homens e mulheres pouco conhecidos
que são alvo de culto nos países vizinhos, que emprestam o seu
nome a igrejas, cidades, bairros e ruas, e que assumem assim papel
referencial e determinador de identidades.
San Isidro
Entre os santos espanhóis menos divulgados no Brasil cita-se São
Isidro (conhecido porém, como o prova cachoeira de mesmo nome
na Serra da Bocaina). Homem da Idade Média, nascido ao redor de
1070 e morto a 15 de maio de 1130, tem a sua sepultura na igreja
de Sto. André, em Madrid. A sua beatificação deu-se em 1619, por
intermédio de Felipe III, que a solicitou a Paulo V. Em 13 de
maio de 1622, deu-se a sua canonização, sob Gregório XV, ao lado
de outros santos (Santa Teresa, São Inácio, São Francisco Xavier,
São Felipe Neri), ou seja, em época marcada pelos impulsos contra-reformatórios
e pelo fomento especial da ação missionária a partir de Roma através
da criação da Propaganda fide.
A história e as estórias relacionadas com São Isidro salientam
a sua origem humilde, de pais sem formação escolar mas empenhados
na vida religiosa, a sua orfandade, a sua vida dedicada ao trabalho
como peão de campo e auxiliar de agricultura de D. Juan de Vargas,
proprietário de uma quinta nas proximidades de Madrid, e à condução
modelar de uma família. Com o seu culto vincula-se o de sua mulher,
a beata Maria Toribia, conhecida na tradição por Santa Maria de
la Cabeza, uma vez que a sua cabeça é levada em procissão a pedido
de chuvas.
O seu próprio nome, Isidro, evoca uma outra personalidade de excepcional
significado para a hagiografia ibérica, Santo Isidoro de Sevilha,
este porém muito mais antigo e de significado para a vida espiritual,
de estudos e da ciência. Santo Isidro, porém, considerado como
padroeiro dos camponeses e agricultores, que passou a vida lavrando
a terra de outros, apresenta-se naturalmente mais próximo da realidade
existencial dos colonos espanhóis que se dirigiam às novas regiões
da América. Sobretudo o fato de Isidro ter tido de abandonar Madrid
por ocasião da sua tomada pelos muçulmanos e ter sofrido em lugar
estranho com a falta de emprêgo, a dificuldade de alcançar a confiança
dos locais, além da saudade da terra natal, o insere no rol dos
santos vinculados com a imigração.
A estória de Isidro salienta também o fato de que a pobreza e
a condição de estrangeiro não dispensa o homem do dever de ajudar
ao próximo e mesmo de socorrer os outros seres viventes. Assim,
louva-se o fato de Isidro não apenas dar partes daquilo que ganhava
como diarista aos pobres, como também às aves durante o inverno.
Através dos séculos, a sua vida foi apresentada aos colonos e
migrantes espánhóis como exemplo de que a vida de trabalho não
deve prevalecer sobre a vida espiritual: acusado de começar tarde
na sua labuta ou menos trabalhar por causa de dedicar parte de
seu tempo a deveres religiosos, soube demonstrar que o trabalho
que assim realizava mais rendia.
A vida de Isidro foi decantada por Calderón de la Barca, Lope
de Vega e muitos outros escritores espanhóis. Um estudo mais pormenorizado
da história de São Isidro e de suas interpretações em hagiografias
e homilias pode oferecer significativos subsídios para o conjunto
de normas de conduta inerentes a sistemas culturais determinadores
de identidade de comunidades de trabalhadores em países de formação
espanhola. Constata-se, por exemplo, freqüentes menções à humildade
e paciência com relação à inveja e à calúnia, à dignidade e às
virtudes que caracterizariam o "castellano viejo", tais como laboriosidade,
honradez e discreção. Um tal estudo oferece também subsídios para
a consideração das normas transmitidas pela religião aos trabalhadores
com relação a seus empregadores, assumindo assim relevância para
estudos de história trabalhista.
O "ora et labora" da tradição beneditina, formulado a partir da
vida monacal, contemplativa, encontra no contexto do culto a Santo
Isidro uma versão muito mais próxima do homem trabalhador. Não
é formulada a partir da vida contemplativa, mas sim da perspectiva
da vida ativa. O seu sentido, porém, permanece o mesmo.
San Isidro, Buenos Aires
Um dos grandes templos dedicados a Santo Isidro é aquele da localidade
de mesma denominação na região da grande Buenos Aires. A igreja
atual, atualmente em fase final de recuperação arquitetônica,
é um dos mais muitos exemplos de arquitetura neo-gótica dos países
latino-americanos, um caso porém especial pela qualidade construtiva
e artística do projeto.
A história da localidade remonta aos primórdios de Buenos Aires.
Poucos meses após a fundação, por Juan de Garay, em 1580, da cidade
sob a invocação da Santíssima Trindade e do Porto de Buenos Aires,
o seu fundador deu início à repartição de terras em chácaras ao
redor do Rio de la Plata. A região então chamada de Pago de la
Costa correspondia, assim, nas suas características agrícolas,
àquela das quintas citadas na lenda de São Isidro. A ereção de
uma capela sob essa invocação, porém, deveu-se a um imigrante
basco, Domingo de Acassuso, chegado a Buenos Aires em 1681. Foi
resultado de um sonho, em 1706. Soldado e comerciante, realizou
também atividades no funcionalismo colonial, entre outras como
tesoureiro das caixas reais. As implicações de moral trabalhista
inerentes à história de Santo Isidro poderiam ser aqui interpretadas
em função das atividades de Acassuso. As chácaras da região exerceram
papéis de importância na história argentina. A "Chacara do Bosque
Alegre", local relacionado com a história da indepêndencia, abriga
hoje o Museu Histórico Juan Manuel de Pueyrredón.
(...)
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).