Doc. N° 2321

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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113 - 2008/3
"Estilo colonial" à luz das perspectivas integrativas do Cone
Sul
Reconsiderações interculturais do "Plano La Serena" de "Renacimiento
colonial"
La Serena, Chile. Trabalhos da A.B.E., março de 2008
A.A.Bispo
No âmbito dos intuitos integrativos despertados pelo Mercosul,
cumpre que se reconsidere temas histórico-culturais a partir de
visões comparativas e do interrelacionamento de processos históricos.


Trabalhos da A.B.E. 2008. Fotos H. Hülskath
Naturalmente, os estudos relacionados com a época colonial readquirem
novo significado, uma vez que o campo de tensões luso-espanhol
nas áreas de denominação e influência passa a ser reconsiderado,
procurando-se agora sobretudo vínculos comuns, para além das diferenças.
A questão, porém, não tem caráter apenas epocal, voltada a um
passado que ter-se-ia encerrado com a emancipação política das
várias nações. Como vem sendo debatido há anos em eventos da A.B.E.,
trata-se antes de reconsiderar-se o processo desencadeado pela
colonização e cristianização, ou seja de se redirecionar a atenção
à processualidade do colonialismo e, assim, também à sua vigência
em período posterior à independência política dos respectivos
países e à sua atualidade presente.
Também nesse enfoque processual, porém, pode-se dirigir a atenção
primordialmente às diferenças ou às estruturas e expressões comuns
nos diversos contextos. Como discutido em congressos da ABE (sobretudo
no de 2002), inclui-se, nessa visão processual do Colonialismo,
não apenas a história colonial anterior à independência das nações
americanas. Também a colonização por imigrantes de períodos posteriores
deve ser aqui considerada.
Esse vínculo dos estudos coloniais com os da imigração salienta
a sua relevância para análises de mecanismos e expressões de identidades
culturais. Tal constatação chama a atenção para o significado
dos estudos coloniais (de processualidade colonial) e pós-coloniais
sob a perspectiva do atual interesse por temas integrativos, uma
vez que estes incluem explicitamente visões de fortalecimento
de uma identidade latino-americana abrangente, quiçá supra-nacional
(Veja texto na edição anterior deste órgão).
Pensamento relativo ao Colonialismo como parte da História do Colonialismo
Um dos muitos aspectos dos estudos dedicados ao Colonialismo (e
Pós-Colonialismo) diz respeito à própria história do pensamento
concernente a conceitos, visões históricas e valorizações. Trata-se,
assim, de se considerar contextualmente as variações e transformações
que podem ser constatadas nas diferentes épocas e regiões, e isso
tanto na perspectiva das várias gerações dos próprios migrantes-colonos
como na dos estudiosos. Também e sobretudo, no caso, deve ser
levada em consideração traços indicadores de continuidades por
detrás das diferentes concepções e avaliações.
A posição de pensadores, artistas, arquitetos e pequisadores relativamente
à problemática colonial é marcada por contradições. Atitudes fundamentalmente
críticas com relação à história política, econômica e social do
colonialismo ibérico não impedem um interesse por vezes entusiástico
e apaixonado pelo patrimônio por êle deixado, sobretudo pelas
expressões do Barroco nas artes, na música e na arquitetura. Essa
admiração tem levado a singulares releituras, reinterpretações
e reatualizaçoes. Como demonstrado e debatido por ocasião dos
eventos da ABE pelos 500 anos do Brasil, procura-se reaproveitar
criativamente traços populares nas expressões do passado colonial
e, vice-versa, de elementos barrocos na cultura popular, em especial
da música. Ora, esses intuitos levantam questões não só de análises
musicais mas sim e principalmente de análises culturais e de processos
relativos a identidades.
Contradições na avaliação do Colonial
Aspectos contraditórios concernentes à avaliação do Colonial e
do Barroco podem ser constatados na história do pensamento e das
artes do século XX e é sob esse pano de fundo que as atitudes,
os conceitos e as manifestações atuais devem ser compreendidas.
De um lado, como discutido por ocasião dos trabalhos da ABE
dedicados aos 100 anos de Oscar Niemeyer -, o próprio Modernismo,
sobretudo na arquitetura, foi marcado por um interesse de revalorização
de elementos considerados barrocos e como tais decantados até
o presente, um singular fenômeno que não se mostra isento de curiosos
mal-entendidos.
Paralelamente, e por assim dizer em conflito com tendências modernas
nas artes e na arquitetura, o século XX conheceu um Neo-Colonial
e um Neo-Barroco de cunho eclético-historicista tardio que apresenta
irradiações até o presente. Residências de bairros mais privilegiados
de várias metrópoles as manifestam. Seria uma tarefa a ser empreendida
pelos estudos histórico-culturais analisar até que ponto a ação
de imigrantes foi determinativa nesse desenvolvimento.
No Brasil, sabe-se que a difusão de um neo-barroco luso-colonial,
por exemplo através da obra de Ricardo Severo, foi estreitamente
vinculada com questões de identidade luso-brasileira e da própria
identidade lusitana, correspondendo a tendências estilísticas
expressas em várias edificações em Portugal, na Madeira e nas
antigas dependências coloniais da África e da Ásia.
O Neo-Colonial foi, assim, não apenas expressão local de um certo
conservadorismo ou até mesmo reacionarismo estilístico, mas inseriu-se
em processos coloniais mais abrangentes.
Desenvolvimentos similares podem ser constatados em países hispânicos
da América Latina.
Assim o debate atualizador segundo os intuitos integrativos do
Mercosul, deve superar limitações impostas pela perspectiva lusa
e luso-brasileira.
O "Renascimento Colonial" de La Serena
Com o objetivo de desenvolver as discussões a partir de observações
in loco, a A.B.E. escolheu a cidade de La Serena, no Chile.
Essa cidade, a segunda mais antiga do país, importante centro
urbano e porta de entrada para o Norte chileno, possui particular
renome pelo seu patrimônio arquitetônico colonial e neo-colonial.
Fundada em 1544 como Villanueva de La Serena logo após Santiago,
pelo capitão Juan Bohón, a sua origem é imputada ao intento de
Pedro de Valdivia de consolidação do empreendimento da conquista.
Com a sua criação como local avançado de pouso de tropas, pretendia-se
nada menos do que manter de forma permanente o contato com o Vice-Reino
do Perú. Significativamente, foi alvo de ataques indígenas, sendo
que uma das revoltas, em 1549, levou à destruição do povoado.
A sua refundação, pelo Capitão Francisco de Aguirre, também sob
ordens de Pedro de Valdívia, deu-se sob a invocação de São Bartolomeu.
Foi elevada à cidade já em 1552. A história de La Serena, devido
à sua situação costeira e estratégica, foi marcada por constantes
ataques de piratas e corsários no século XVII, entre êles Francis
Drake, Bartolomeu Sharp e Edward Davis. A cidade foi fortificada
em 1700.
Uma nova fase de apogeu de La Serena iniciou-se nos anos 20 do
século passado. O desenvolvimento da mineração do ferro trouxe
possibilidades de emprêgo que atraiu novos grupos populacionais.
Esse aumento da população e o desenvolvimento econômico foram
acompanhados por transformações urbanas e arquitetônicas. Significativamente,
essa remodelação da cidade não se deu segundo tendências mais
avançadas da arquitetura e do urbanismo internacional mas sim
segundo inspirações neo-coloniais.
Plano Serena
O "Plano Serena", desenvolvido entre 1940 e 1952, emprestou à
cidade uma imagem caracterizada por certa homogeneidade e que
a destaca entre as outras cidades do Chile. Sob a argumentação
de que se procurava resgatar a sua identidade, criou-se um estilo
visto como próprio, de inspiração barroca e que passou a ser conhecido
como "Renacimiento Colonial". Se edifícios e residências de cunho
neo-barroco no Brasil caracterizam determinadas ruas e espaços,
tem-se, no caso de La Serena, toda uma cidade que se apresenta
como Colonial/Neo-Colonial. Representa, assim, um caso bastante
significativo para o estudo in loco de questões relacionadas com
o processo colonial, suas fases, suas diferenças e continuidades
nas várias épocas e regiões e com as questões de identidade que
com êle se relacionam.
As contradições que se detectam nesse Renascimento Colonial são
sensíveis e se manifestam sobretudo na esfera que, no caso, deveria
ser o cerne de todos os impulsos relacionados com a história colonial:
na sacral. As igrejas de La Serena, assim como em geral nas do
Chile, apresentam não mais a opulência barroca ou mesmo a magnificência
da história estilística do século XIX, mas sim a nobreza severa
do neoclassicismo da catedral local ou daquele despojamento criado
pelos movimentos de restauração litúrgica de fins do século XIX
e início do século XX. O "Renascimento Colonial" de La Serena
surge, assim, sob essa perspectiva, como expressão de um movimento
restaurativo abrangente, guiado por modêlos considerados ideais
do passado, expressão máxima de um Catolicismo que procurava recuperar
a pureza do culto. O "Renascimento Colonial", apesar de todas
as similaridades com expressões neo-barrocas do Brasil, apresenta
diferenças com relação a essas, ou talvez, manifeste de forma
mais evidente os reais fundamentos conceptuais a elas subjacentes.
G.R.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).