Doc. N° 2323

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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113 - 2008/3
Suíça-Países do Cone Sul
"Suíça Chileno-Argentina" na literatura suíça
80 anos do relato de viagens do Dr. Wilhelm Müller, Zürich
Puerto Montt e Puerto Varas, Chile. Trabalhos da A.B.E. 2008
A.A.Bispo
O livro do médico Wilhelm Müller, atualmente reconsiderado pela
passagem dos 80 anos da sua viagem (Das schöne Südamerika: Reisen in Argentinien, Brasilien, Chile
und Perú, 2. ed., Berlin: Globus, 1928) abre com um capítulo dedicado à viagem de inverno de 1928 do
vapor "Augustus" ao Rio de Janeiro, um dos mais confortáveis transatlânticos
da época.
Partindo de Gênova, a rota incluiu Barcelona, o estreito de Gibraltar,
de onde a nave tomou a direção da então capital do Brasil.
O segundo capítulo, dedicado ao Rio de Janeiro, inicia-se com
a constatação:
"Dessa cidade pode-se dizer com segurança que é, quanto à sua
localização e beleza paisagística, a mais bela do mundo."
Esse teor de admiração pelo Brasil dá o cunho também a outros
capítulos dedicados ao Rio e a São Paulo.
Uma região que supera a Suiça em beleza
No capítulo 7 da sua obra, o autor descreve as suas viagens pelos
lagos e vulcões da "Suíça Chileno-Argentina".
Dando continuidade à sua viagem pelas regiões quasi antárticas
através da rota de Magalhães, Wilhelm Müller atingiu Puerto Montt
e, daí, realizou uma longa viagem pelo interior da assim-chamada
"Suíça Chileno-Argentina", uma região que se caracteriza pela
riqueza de seus lagos e vulcões.
Puerto Montt é descrito como uma cidade pequena e pitoresca, na
qual viviam numerosos teuto-chilenos.
"Essas pessoas têm olhos azuis e cabelo loiro, mantendo a sua
língua até a terceira ou quarta geração, provavelmente ainda por
mais tempo. Fixaram-se aqui há mais ou menos 70 anos e falam tão
bem o espanhol como o alemão. Os soldados e os oficiais usam um
uniforme que é muito similar ao antigo uniforme alemão. É notável
de se observar como esses teuto-chilenos se transformaram sob
o ar sul-americano e sob o clima chileno. Desapareceram os traços
rudes do rosto, o caráter se adaptou ao clima mais suave, são
exteriormente simpáticos e possuem algo suave na sua aparência
e no seu modo de ser. Trata-se de um tipo humano totalmente novo,
nem alemão nem chileno." (pág. 105/6)
Realizou a viagem em parte a pé, em parte por navio e de automóvel,
e, nas cordilheiras, a lombo de burro. Constatou que essa região,
com os seus lagos, superaria a Suíça em beleza. A viagem durou
três semanas e o levou de Puerto Montt, no Oceano Pacífico, a
Puerto Varas no Lago Llanquihue. Desta última cidade dirigiu-se
à Ensenada, localizada entre os vulcões Osorno e Calbuco e ao
Rio Petrohue. Atingiu então o Lago Todos los Santos e Puella.
Atravessando as florestas do Sul do Chile e as cordilheiras, chegou
a território argentino, passando pelo Puerto Blest no Lago Nahuel
Huapi e atingindo Bariloche.
Nascer do sol por detrás dos vulcões Osorno e Calbuco. O Lago Llanquihue
"Acima das águas silenciosas do Llanquihue espairece a luz da
lua. No Oriente eleva-se lentamente a claridade. Os dois vulcões
majestáticos emolduram a oriente em indescritível solenidade o
lago silencioso. Como dois gigantes, as duas montanhas elevam-se
das águas como duas marcas perenes da época do berço da terra.
Ao sudeste juntam-se ao Calbuco os cumes em parte cobertos de
neve das Cordilheiras. Uma manhã verdadeiramente divina! Não há
palavras suficientes para descrever tamanha beleza natural. Frio
é o ar e puro como no primeiro dia. O amplo lago se espraia em
cinzento-prateado. Atrás levanta-se orgulhosa a pirâmide quase
simétrica do Osorno coberto de geleiras. O seu declive oriental
se dilui em série de colinas suaves e que depois se elevam novamente
para formarem a formação de crateras bizarra do ainda ativo Calbuco.
Acima das silhuetas de ambos os vulcões começa a surgir o dia.
O firmamento, amarelo-alaranjado e amarelo-enxôfre, acorda e deixa
desaparecer as últimas estrêlas no azul matinal. O momento do
surgir do sol é extasiante. Lagos e florestas surgem mergulhados
em luz. Da água azul clara do lago elevam-se névoas que se dissipam
tais como espíritos. A Criação não poderia ter feito uma manhã
mais grandiosa." (pág.108-110)
(...)
Essa descrição entusiástica na apreciação de um suíço auxilia
o visitante brasileiro dessa região a perceber, por detrás do
aspecto exterior cultivado mas aparentemente sem maior significado
de Puerto Varas possibilidades para reflexões mais profundas.
Compenetra-se, de repente, da similaridade das casas com atributos
alemães que depara na região com aquelas de várias regiões do
Brasil, da Serra Gaúcha, de Santa Catarina, de Campos de Jordão.
Percebe, assim, traços comuns que não dizem somente respeito à
aparência externa de edifícios mas a muitos outros aspectos da
vida quotidiana e do modo de pensar. Intui que também expressões
recentes no desenvolvimento urbano, na construção de hotéis, casas
comerciais e no próprio artesanato são resultados de configurações
histórico-culturais e sociais comuns àquelas de várias regiões
do Brasil.
Há assim acima de fronteiras nacionais mundos profundamente relacionados surgidos da imigração européia e da colonização mais recente. Há superposições e interferências de situações culturais surgidas da colonização ibérica e da colonização centro-européia nos diversos países do Cone Sul. Os debates relativos à integração não podem, assim, restringir-se a processos desencadeados nos primeiros séculos pelos conquistadores e primeiros missionários. Quer se queira ou não, a imigração centro-européia criou, a partir de meados do século XIX realidades que intermeiam as nações. As chances integrativas dessa realidade - apesar de todas as diferenças - não podem ser substimadas. Somente estudos supra-nacionais, realizados em cooperação de estudiosos dos vários países poderão detectá-las e analisá-las.
G.R.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).