Doc. N° 2325

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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113 - 2008/3
Patrimônio natural dos países do Cone Sul e patrimônio cultural: Petrohue
Petrohue.Trabalhos da A.B.E., 2008
A.A.Bispo
A aproximação dos países do Cone Sul do continente americano,
impulsionada pela criação do Mercosul, traz conseqüências múltiplas
para os estudos culturais. Promove a cooperação científica e a
consideração recíproca de instituições, projetos e linhas de pesquisa
e de reflexão. A atualidade das discussões relativas ao binômio
Cultura/Natureza, sobretudo aquelas que dizem respeito aos esforços
de desenvolvimento de um conceito de cultura orientado ambientalmente
e segundo critérios de respeito à vida faz com que ações de proteção
do patrimônio natural surjam como verdadeiros atos culturais.
O próprio conceito de patrimônio cultural adquire, assim, uma
dimensão muito mais ampla, incluindo necessariamente os bens naturais
e a vida animal. A discussão relativa ao patrimônio cultural,
hoje marcada pela ampliação do conceito patrimonial a bens do
quotidiano e a bens imateriais, intangíveis, alcança um nível
ainda mais abrangente. Bens a serem protegidos não seriam apenas
os monumentos, edifícios de valor histórico-artístico, os seus
contextos urbanos, nem também complexos representativos da identidade
de comunidades e bairros, também não apenas bens intelectuais
e artísticos, mas sim e sobretudo atos e instituições destinados
à proteção do patrimônio natural.
Reservas, Parques Nacionais e outros organismos similares passam
a ser, sob essa perspectiva, expressão maior da cultura de nações,
de muito maior significado e relevância do que edifícios históricos,
casas de ópera, igrejas ou qualquer outro bem construído material
ou imaterialmente pelo homem. Seria de fato irresponsável e indesculpável
para as futuras gerações que bares e confeitarias de fins do século
XIX sejam conservados e que se destruam florestas, cachoeiras,
lagos e rios.
O nível cultural de nações passaria a ser medido em primeira linha
pelos órgãos e estatutos que teriam criado e mantido para a proteção
do seu próprio patrimônio natural. Expressão deficitária de cultura
seria a inexistência ou a ineficiência de institutos criados para
esse fim, assim como a destruição do patrimônio natural e da vida
animal representaria expressão por excelência de falta de cultura.
As discussões relativas ao binômio Cultura/Natureza, em desenvolvimento
no âmbito do programa de mesmo nome da A.B.E. sugerem, assim,
a necessidade não apenas de ampliação do conceito de patrimônio
cultural, mas sim também a da revisão de conceitos de Cultura,
fomentando uma reconsideração crítica da compreensão desse termo
vigente em disciplinas de cunho antropológico-cultural da atualidade
e que já foram, há décadas atrás, progressistas e atualizadoras.
A concepção ampla do conceito de cultura que hoje se impôs, considerando,
e com razão, sob esse termo não apenas expressões de uma esfera
elevada ou privilegiada, mas sim todas as expressões do homem,
surge como insuficiente ampla por não considerar a referência
à natureza e, na sua imprecisão, apta a ser novamente discutida.
Um grande movimento editorial, de concertos, de projetos, a intensidade
da vida social e cultural de cidades, a valorização de bens culturais
da vida sócio-cultural pouco significam se essa mesma sociedade
permite a destruição de bens naturais insubstituíveis.
Sob o pano de fundo desse debate, aqui apenas insinuado, os estudos
culturais que procuram considerar as novas situações criadas pelos
esforços integrativos necessitam considerar as fontes históricas
que documentam bens naturais, movimentos e instituições destinados
a protegê-los e suas conseqüências. Parte significativa dessas
fontes é constituida por relatos de viajantes, e essas obras oferecem,
ao mesmo tempo, subsídios para a consideração das relações entre
o patrimônio natural e o cultural no âmbito de contextos euro-latinoamericanos.
Natureza do Chile na literatura de viagens
Entre os relatos de viagens que tratam mais pormenorizadamente
do patrimônio natural do Chile no conjunto de observações realizadas
no Brasil, na Argentina e em outros países pode-se mencionar a
pouca considerada descrição de viagem de Willi Ule, realizada
no âmbito de um projeto da Sociedade de Geografia de Berlim apoiado
pelo príncipe Heinrich, em 1910/11. (Quer durch Süd-America von Professor Willi Ule, Hamburg: Uhlenhorst
s/d). Após visitar várias regiões brasileiras, atravessou a Argentina,
alcançando o Chile através dos Andes.
Em capítulo de título "O vale do rio Petrohue e o Lago Todos los
Santos", o Dr. Wilhelm Müller, no seu livro dedicado às belezas
naturais e culturais da América do Sul, publicado há 80 anos,
ofereceu uma primeira descrição minuciosa do Parque Nacional Chileno
aos leitores europeus. (Wilhelm Müller, Das schöne Südamerika: Reisen in Argentinien,
Brasilien, Chile und Perú, 2a. ed. Berlin: Globus 1928). O significado desse texto reside no fato de ser um dos primeiros
a focalizar especificamente um parque nacional sulamericano sob
a perspectiva de valores naturais e culturais da Humanidade.
A partir da Ensenada, acompanhado por um engenheiro do Govêrno
chileno, o viajante suiço empreendeu uma viagem a cavalo pelo
vale do Petrohue e pelo Parque Nacional. A sua descrição é entusiástica.
Para êle, não existiriam muitas regiões da terra que pudessem
ser comparadas nas suas belezas naturais com esse vale e com as
florestas das costas sul-orientais do vulcão Calbuco e que se
prolongavam até o litoral do Oceano Pacífico.
Tratava-se de uma paisagem que pouco haveria mudado no decorrer
dos séculos. O Govêrno Chileno tinha procedido de forma modelar
ao declarar essa região paradisíaca a Reserva do Estado e a Parque
Nacional.
Engenheiros e botânicos percorriam a serviço do Govêrno esse território
para investigá-lo. Vulcões cobertos de neve elevar-se-iam nobres
nos seus cumes rochosos acima do infindável verde das florestas.
Corredeiras agitadas encantariam os solitários visitantes.
"Dirigimos os nossos passos primeiramente às costas do Petrohue.
A maior parte do vale do Petrohue é literalmente forrada pelas
lavas e cinzas de ambos os vulcões, o Osorno e o Calbuco. Infindos
campos de lava interrompem a magnífica vegetação, formada por
numerosas espécies de Mirtáceas, Muermo, Murta, Louro, Ericáceas
e outras. Do fundo de riachos lavados pela chuva resultam cortes
notáveis das massas endurecidas de lava. Quanto mais nos aproximamos
das costas do Orsono e do Calbuco tanto mais se elevam as formações
rochosas eruptivas e que diferem entre si de acordo com a idade
da erupção. Em regra, encontramos torres formadas livremente por
massas petrificadas arredondas e escantilhadas, de colorido negro
ou cinza, com concavidades a modo de bolhas e que devem ser vistas
como restos de formações de gás originado na erupção. Às margens
do Llanquihue, esses pedaços de lava, de dimensões que variam
do tamanho de um punho ao de um homem, rolam literalmente para
dentro do lago.
Particularmente notáveis são as grandes corredeiras do Petrohue
há cerca de 10 quilômetros a sudeste da Ensenada. As correntes
turbilhantes desse magnífico rio se atiram alí, formando várias
cascadas de 15 a 20 metros de altura, de forma trovejante e borbulhante
nas profundezas. O leito do rio se estreita nessas corredeiras,
formando gargantas apertadas e rochosas, nas quais a água cristalina
da corrente se despeja em cachoeiras selvagens nas profundidades,
por entre árvores da floresta nativa agitadas pelo vento." (op. cit. 110-111)
Em visita a Petrohue, representantes da A.B.E. puderam verificar
a contínua validade dessa descrição na atualidade. Esse fato,
após oito décadas da publicação da obra, documenta a conservação
desse patrimônio natural e a eficiência do Parque Nacional. Permite
também ler a publicação de fins da década de 20 a partir da experiência
real do presente. As espécimes vegetais já mencionadas por W.
Müller encontram-se indicadas em quadros que orientam o visitante
e o introduzem nos estudos da flora regional, sensibilizando-o
à sua percepção e apreciação.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).