Doc. N° 2326

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1999 by ISMPS e.V. © 2006
nova série by ISMPS e.V.
Todos os direitos reservados - ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501
113 - 2008/3
Instituições em destaque
Museu Chileno de Arte Precolombino
Exposição: "Morir para gobernar: Sexo y poder en la sociedad Moche"
Santiago de Chile. Trabalhos da A.B.E. 2008
A.A. Bispo
A aproximação de áreas científicas e de estudiosos dos diferentes
países americanos vem recebendo impulsos com o desenvolvimento
de processos integrativos no âmbito do Mercosul.
Algumas disciplinas culturais já possuem há muito rêdes de cooperação
desenvolvidas e contam com instituições que realizam intercâmbios
e empreendimentos científicos internacionais.
Este é o caso de várias áreas da Antropologia Cultural e da Arqueologia.
No caso do estudo das culturas indígenas, a crescente aproximação
dos países latinoamericanos acentua a sensibilidade para o fato
de que os estudos indígenas não podem ser limitados a fronteiras
nacionais estabelecidas nos últimos séculos.
A imagem das culturas indígenas foi configurada por correntes
de pensamento de cunho nacional-integrativo, que partiram ou partem
de expectativas de assimilação dos povos nativos e que até mesmo
levam anacrônicamente a focalizar o passado dessas culturas a
partir de delimitações geográficas de nações que muito posteriormente
se estabeleceram.
O próprio interesse de estudiosos e do público em geral dos vários
países é dirigido antes às culturas indígenas que caem no próprio
território, o que se reflete até mesmo no uso de qualificações
nacionais "índios brasileiros", "índios peruanos" , ou simplesmente
em formulações tais como a de "nossos índios".
A consideração de grupos de regiões que hoje pertencem a nações
distintas é, entretanto, uma exigência para os estudos especializados,
para a reconstrução da própria história de comunidades e também
uma oportunidade para o presente momento de esforços de aproximação
dos países hispano-americanos entre si e com o Brasil.
Um caso particular que pode demonstrar as possibilidades que se
abrem com a aproximação latino-americana é o representado pelas
reflexões encetadas por ocasião de uma visita de representantes
da A.B.E. a uma exposição realizada no Museu Chileno de Arte Precolombiana.
Museu Chileno de Arte Precolombino
O Museu Chileno de Arte Precolombino, situado na histórica Real Casa de la Aduana (antiga alfândega, construída em 1807), é considerado por muitos como sendo o mais importante museu do Chile e um dos mais significativos museus do gênero do continente americano. A sua exposição permanente apresenta mais de 3000 objetos. Nela estão representadas numerosas culturas pré-colombianas de um período de 10.000 anos. Os objetos representam povos de várias regiões do continente, do México ao sul do Chile. Poucos museus antropológicos e arqueológicos podem ser comparados com o Museu Chileno de Arte Precolombino quanto ao cuidado científico e museológico da apresentação e apreciação dos materiais.
Exposição "Morir para Gobernar"
O Museu Chileno de Arte Precolombino realizou, de outubro de 2007 a março de 2008, a exposição Morir para Gobernar: Sexo y poder en la sociedad Moche. A exposição foi apoiada pela Municipalidade de Santiago e da Fundação "Família Larraín Echenique". O evento foi organizado em colaboração com o Museo Larco, de Lima, Perú, e contou com a colaboração do Instituto Nacional de Cultura, do Perú, e das embaixadas de ambas as nações nos respectivos países. A exposição foi inspirada em proposição do arqueólogo Dr. Steve Bourget, especialista na cultura Moche.
Esse arqueólogo, Ph D. pela Universidade de Montreal (1994) e professor associado da cadeira de História da Arte da Universidade de Texas, Austin, efetuou investigações entre 1995 e 1998 na Huaca de la Luna, principal localidade da cultura Moche, revelando um local de sacrifícios coletivos associados a entêrros. Os resultados de suas pesquisas foram divulgados em reportagens e programas de televisão. Em 2004, iniciou um novo projeto na Huaca del Pueblo, no vale de Zaña, com o objetivo de estudar o desenvolvimento político e cultural da sociedade Moche ao norte do Pampa de Paijan.
Os Moches ocuparam, dos séculos I a VIII de nossa era. vastas áreas da costa norte do Perú. Foi talvez a primeira sociedade andina a alcançar o nível de complexidade social de um Estado. Tiveram vários centros políticos na sua longa história. Desenvolveram uma economia baseada no cultivo do milho e outras plantas. Realizaram trabalhos de irrigação da zona desértica, em impressionante trabalho de engenharia de canais. Não chegaram a possuir um sistema de escrita, mas desenvolveram contactos comerciais a longa distância, importando objetos básicos para as suas confecções, vestimentas e rituais. Das terras baixas do Amazonas adquiriam penas, plantas e sementes. O centro da vida religiosa, social e política dos Moche eram os Huacas, pirâmides construídas com adobes de barro. Nelas eram sepultadas pessoas de relêvo e nelas realizavam-se os mais importantes rituais.
Cultura visual: representações sexuais
Steve Bourget dedicou-se sobretudo ao estudo da cultura visual
Moche. Nesse trabalho, salientou o contexto ideológico, o sistema
dual e a questão de uma possível organização tripartida. Sob esse
pano de fundo, concentrou-se nas representações sexuais. Como
salienta, os estudos iconográficos da cultura Moche podem basear-se
na existência de um surpreendente conjunto de vasos que representam
atos sexuais, tanto em cenas individuais como em diversas combinações
de participantes. A maior parte das vasilhas rituais foi encontrada
em contextos funerários. Muito freqüêntes são representações de
atos de onania, homosexualidade, sodomia e sexo oral.
O autor inicia o seu ensaio publicado no catálogo da exposição
(Morir para gobernar/dying to rule: Sex and power in Moche Society,
ed. Luis e. Cornejo B., Santiago de Chile. Museo Chileno de Arte
Precolombino, 2007)) com a consideração de cenas que mostram atos sexuais, procurando
explorar suas relações múltiplas e complexas com a morte, o sacrifício,
a fertilidade e o conceito do Mundo do Além. Os indivíduos envolvidos
em representações de cópula não-vaginais são em geral humanos,
personagens esqueletizados ou indivíduos com mutilações faciais.
Ao contrário, na cópula vaginal, o homem geralmente possui atributos
que o autor considera como sobrenaturais, tais como cinturões
de serpente, aparecendo emoldurado por aves antropomorfizadas.
Há também animais e - pelo que tudo indica - vítimas de sacrifício
copulando com mulheres.
O autor procura demonstrar que as cenas que não representam cópula
vaginal têm relação com um conceito de inversão ritual. Seriam
cenas de fertilidade invertida, relacionadas com crenças relativas
à morte e ao trânsito ao outro mundo. As cenas que mostram cópula
vaginal estariam associadas com a vida no Mundo do Além. A separação
entre essas categorias não se basearia no tipo da ação, mas sim
no tipo dos atores que participam. O autor não aceita a hipótese
explicativa de que a cópula anal, tão freqüentemente representada
signifique apenas uma prática então utilizada de contrôle da natalidade.
Salienta que o homem, nessas cenas, é representado com lábios
e nariz extirpados ou como figura esquelética, o que o identificaría
como um cativo e possível vítima de sacrifício. No caso de representações
de masturbação, as mulheres que nelas participam aparecem freqüentemente
realizando o ato com seres esqueléticos, e estes seguram por vêzes
flautas-pã. As cenas parecem reunir os principais elementos de
um ritual funerário: o gênero feminino, oferendas, música e atividade
sexual. O uso das cores vermelho e branco nas figuras poderia
simbolizar a vida e a morte. O autor define a complexidade da
iconografia Moche como sendo a de um sistema de "metáforas incrustadas".
No seu capítulo dedicado ao tema "Sexo, Morte e Fertilidade",
o autor trata das relações entre sexo e entêrro em várias representações
em vasilhas. A proximidade simbólica entre as atividades sexuais
e a morte é fortalecida por um grande número de cenas que mostram
mulheres associadas a seres cadavéricos e a sujeitos ambíguos
que poderiam ser identificados como morto-vivos. Numa das cenas
consideradas, o autor considera com mais detalhes a passagem do
mundo dos vivos ao dos mortos: numa vasilha, um ser cadavérico,
no interior da mesma, segura as pernas de uma pessoa que procura
libertar-se de seu punho, que seria o punho da morte. Essa pessoa
é modelada com a parte inferior de seu corpo dentro da vasilha,
aparecendo a outra metade fora dela. A parede da vasilha, nesse
caso, significaria a separação. (pág. 78-79)
Na cultura Moche, a importância social dos defuntos teria tido
um impacto na qualidade dos bens funerários, não porém na natureza
básica do ritual. Este teria sido mais do que uma expressão de
respeito. A morte de um individuo terminaria com a viagem de sua
alma ao outro mundo. Com base nos dados estudados, o autor crê
possível sustentar que certos ritos de sacrifício e sexuais representaram
um componente privativo dos rituais funerários das pessoas de
mais prestígio na sociedade Moche, atores chaves na reprodução
simbólica da fertilidade necessária para uma sociedade agrícola
que se desenvolvera num deserto. (pág. 82)
Questões de interpretação
A partir de discussões levadas a efeito no âmbito de trabalhos
da A.B.E., tanto relativos a indígenas do Brasil como à arqueologia
da cultura e do saber em geral, levantam-se questões a respeito
das interpretações subjacentes à exposição "Morir para Gobernar".
Pergunta-se se o fator reprodução, de central significado nas
tentativas de elucidação das cenas, não deveria ser explicado
de forma mais aprofundada.
Havendo também aqui uma compreensão do universo caracterizada
pela distinção entre um mundo desta vida, terreno, e o Mundo do
Além, como é bem explicado, haveria também uma distinção entre
o mundo marcado pela reprodução e aquele para além da cadeia reprodutiva.
O homem com especiais poderes espirituais, por assim-dizer sacerdotais,
o curador, o xaman ou o pajé, seria aquele que participaria do
mundo que estaria para além da esfera marcada pela reprodução.
Sabe-se que em diferentes culturas esse indivíduo com poderes
especiais já morreu para este mundo, fato marcado por escoriações
corporais, jejuns e pela não-consecução de atos que levam à reprodução.
Essa explicação justificaria a representação de indivíduos masculinos
em cópulas não-vaginais como "morto-vivos", cadavéricos, com lábios
extirpados ou destinados ao sacrifício.
Essa interpretação elucidaria também a cena representada na vasilha,
na qual uma pessoa está sendo segurada por um homem no seu interior.
Ao contrário da explicação fornecida, este não seria o "punho
da morte", mas sim, ao contrário, o do curandeiro ou médico que,
com os seus poderes espirituais, tenta evitar que a alma da pessoa
atravesse a barreira representada pela parede da vasilha.
O mundo, assim, surge como uma vasilha, como um pote, no qual
os viventes se encontrariam. Ora, essa imagem corresponde a antigas
concepções de Matéria como meio moldável que recebeu forma em
processo hilemorfo, ou seja, abre caminhos para interpretações
muito mais profundas do universo de concepções.
Essa interpretação do homem que pratica atos que não levam à reprodução
nas cenas como sendo aquele que já participa do outro mundo, não-material,
e portanto espiritual, pneumático, pode explicar também o surgimento
simbólico de um instrumento de sôpro, a flauta-pã como um dos
seus atributos. Também aqui poder-se-ia estabelecer pontes com
o que se sabe a respeito da simbologia desse instrumento, ainda
tão divulgado em culturas indígenas da atualidade e de contextos
delas derivados.
Ao contrário da explicação oferecida, as cenas que representam
cópulas vaginais não estariam assim relacionadas com o Mundo do
Além, mas sim com a deste mundo, mundo material, repleto de água,
verdadeira vasilha ou pote. Que os indivíduos apresentam aqui
com serpentes ou rodeados de aves antropomorfizadas, esse fato
pode ser explicado pela animalidade deste mundo material dominado
pelas forças da reprodução, ou seja, uma interpretação exatamente
oposta àquela oferecida.
Tal concepção forneceria também uma explicação totalmente diversa a possíveis representações em atos de cópula de homens a serem sacrificados. A consecução de um ato que potencialmente levaria à reprodução representaria antes uma intensificação de seus elos com este mundo, ou seja, um impedimento de sua libertação após a morte (por assim dizer redenção) e, assim, um castigo a mais. Sob esse aspecto, tornam-se compreensíveis referências a práticas similares em descrições relativas a indígenas do passado no Brasil, quando prisioneiros a serem mortos recebiam até mesmo mulheres com as quais podiam se relacionar.
O título da exposição, portanto, "Morir para gobernar", deveria
ser entendido em outro sentido àquele proposto: quem "morre para
governar" é o indivíduo que já tem parte com a vida do Além, que
pela sua natureza não participa do processo reprodutivo desse
mundo, um processo que é responsável pela sua permanência.
Este mundo de reprodução surge até mesmo - em singular correspondência
a antigas concepções de outras culturas - com conotações femininas.
O homem "esquelético", "morto-vivo", flagelado, ou seja, aquele
com poderes espirituais, surge nas cenas compreensivelmente como
contrariando a vontade da mulher que utiliza, o que se manifesta
nas expressões de asco que nelas se denotam.
Os debates já desenvolvidos pela A.B.E. podem, assim sugerir novas elucidações para as representações constatadas pela arqueologia Moche. Por outro lado, esses estudos oferecem subsídios relevantes para uma arqueologia do saber, não apenas de significado para os estudos das culturas indígenas do Brasil.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).