Doc. N° 2333

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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113 - 2008/3
Flora americana e simbologia cristã: Passiflora incarnata
O Santo Cristo do artista português Manoel do Coyto e a mística
do mosaico da Catedral de Buenos Aires
100 anos do piso da Catedral de Buenos Aires
Buenos Aires. Trabalhos da A.B.E. 2008
A.A.Bispo
Dentre as catedrais dos países do Cone Sul, a de Buenos Aires
salienta-se por sua complexidade estilística particularmente surpreendente
e que resulta sobretudo do classicismo de sua fachada.

Trabalhos da A.B.E. 2008. Fotos H. Hülskath
Por muitos comparado com a Santa Madalena de Paris, porém mais
antigo, o templo, com as suas 12 colunas externas, representantes
dos doze apóstolos, insere-se de forma harmoniosa no conjunto
de conotações parisienses da metrópole argentina. Ao entrar no
edifício, porém, o visitante que conhece a Santa Madalena de Paris
constata a profunda diferença espacial entre os dois templos e
que reflete diferentes tradições religioso-culturais.
Mística da Paixão
Aspecto a ser salientado na consideração histórico-cultural da
catedral de Buenos Aires é o significado da mística da Paixão.
Que as origens de Buenos Aires se relacionam do modo mais profundo
com fundamentos teológicos não pode haver dúvida, uma vez que
a sua fundação ocorreu sob a invocação da Santíssima Trindade.
Sendo as primeiras missões na Argentina aquelas dos franciscanos,
já chegados na expedição de Mendoza, em 1534, compreende-se o
significado do pensamento e da prática mística na história religiosa
argentina. Quatro anos após a sua chegada já existiam fundações
em Asunción e, ao redor de 1550, em Tucumán, Cordoba, Santiago
del Estero, Salta e Rioja. A vinda dos jesuítas foi devida a um
bispo franciscano, J. Carillo OFM, de Tucumán, que em 1586 chamou
jesuítas do Perú e do Brasil e que fundaram colégios. A consideração
da ação jesuítica, inclusive no território das Missões, de fundamental
importância para a história cultural dos países sul-americanos,
pressupõe, assim, a ação anterior dos franciscanos e, portanto,
de uma visão religiosa marcada pela mística.
Santo Cristo de Buenos Aires
Significativo é o fato de que uma das imagens mais veneradas e valiosas culturalmente da catedral é a do Santo Cristo, intronizada sob o bispo Frei Cristóbal de la Macha y Velazco, no dia 29 de dezembro de 1671. Essa veneração é de particular significado para os estudos brasileiro-argentinos, uma vez que a veneração do Santo Cristo era particularmente intensa entre ilhéus, sobretudo da Madeira. Significativamente, a imagem do Santo Cristo de Buenos Aires foi obra de um imaginário português, Manoel do Coyto.
Piso da catedral
Uma atenção especial dedica-se na atualidade ao piso da catedral,
agora em fase final de recuperação. Esse piso tem relações estreitas
com a história da Argentina, uma vez que fêz parte da decoração
do templo motivada pelo Centenário da Revolução de Maio, em 1910.
Instalado entre 1907 e 1911, foi obra de Carlos Morra, um membro
da Comissão Catedralícia do Centenário.
Transcorridos agora quase 100 anos da inauguração, e às vésperas
das comemorações do bicentenário da Revolução de Maio, o piso
vem passando por trabalhos de restauração.
O piso perfaz 2600 metros quadrados, com mosaicos venezianos vindos
da Inglaterra. Substituiu um piso mais antigo, de 1830. Enquanto
o velho piso era ornamentado com rosas brancas e negras, escolheu-se
para o novo motivos de natureza simbólica relacionadas com a mística
da Paixão e da Cruz.
Entre os motivos representados e de imediata compreensão destacam-se
os cravos, os instrumentos da crucificação e a coroa de espinhos.
Além dessas evidências, porém, constata-se o emprêgo de um símbolo
floral, o da Passionaria, representado por flores de várias cores,
brancas, rosadas e lavanda. Se os outros motivos reproduzem literalmente
objetos da história da Paixão, tem-se aqui um símbolo que, para
a sua compreensão, exige a consideração do pensamento e das expressões
místicas. Para os estudos euro-latinoamericanos, a flor da Paixão
assume particular significado, pois representou uma interpretação
mística da flora do continente e uma contribuição americana à
simbologia cristã-européia, universalizando-se.
O motivo da flor relaciona-se desde os primeiros séculos cristãos
com a mística da cruz. Através dos séculos essa imagem permaneceu
viva sobretudo através do hino Crux fidelis, cantado na Semana
Santa. A cruz, como nova árvore da vida, floresce e germina espiritualmente.
Crux fidelis, inter omnes Arbor una nobilis: Nulla talem silva
profert, Fronde, flore, germine. dulce lignum, dulci clavo, Dulce
pondus sustinens. (Venantius Fortunatus, séc. VI)
A Flor da Paixão
A flor da Paixão, com ca. de 400 tipos, muitos dos quais em forma
de lianas,cujos frutos eram apreciados pelos indígenas, chamou
a atenção de um médico espanhol que atuava no Peru, em 1569. Tudo
indica que as suas folhas eram utilizadas para fins medicinais.
Segundo outra tradição, já o Papa Pio V teria conhecido a flor,
trazida por um espanhol, em 1568. Outros afirmam que a primeira
flor da Paixão teria sido trazida por um jesuíta a Bologna, em
1609. Sempre se salienta que foi um religioso da Companhia de
Jesus que, em 1633, teria interpretado pela primeira vez essa
flor como um símbolo da Paixão de Cristo(Passiflora incarnata).
A denominação Passiflora encontra-se em J.B. Ferrari (+Siena 1633).
A coroa radial representa a coroa de espinhos, os pistilos os
três cravos, 5 folhas duplas dos dedos das mãos de Cristo, as
folhas não lobadas as lanças dos soldados romanos, as folhas das
pétalas os 12 apóstolos. três folhas outras a Santíssima Trindade
e o nó do fruto o cálice da última ceia. A partir de 1651, o nome
generalizou-se.
O mosaico do piso da catedral de Buenos Aires reflete o surgimento
de um novo interesse pela Flor da Paixão no século XIX. Ao redor
de 1840, o senador belga R.J. F. de Biolley tentara cultivá-la
na sua casa de campo Hombret, próximo a Vervier. (...)
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).