Doc. N° 2335

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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113 - 2008/3
Paseo Caminito: Tango e côr na valorização de imagens e bens de áreas degradadas
Buenos Aires. Trabalhos da A.B.E. 2008
A.A.Bispo
As grandes cidades da América Latina experimentam de forma particularmente
intensa um problema urbanístico e arquitetônico que não é apenas
do continente. A degradação de áreas urbanas, sobretudo de periferias
pela perda de suas funções, por transformações econômicas e sociais,
pela ocupação de terrenos para moradia de menos privilegiados
e outros fatores é um dos graves fenômenos de todas as partes
do mundo.
Muito diversas entre si são as concepções e ações para a recuperação
de áreas urbanas assim deterioradas. Ao lado de projetos de reurbanização
radical, há aqueles planos de transformação de antigas áreas em
zonas residenciais de alto nível qualitativo ou complexos culturais.
Isso pode ser observado por exemplos em portos, estações e fábricas
que perderam a sua função em várias cidades da Europa e da América.
Há, porém, entre outros, um caminho menos ambicioso e dispendioso,
e talvez mais sensível. Trata-se da tentativa de recuperação dos
valores culturais próprios de antigos bairros. Essa concepção
procura conservar a memória dos respectivos contextos, conservando
não apenas construções e espaços, mas sim elementos que surgem
como importantes para uma identidade diferenciadora da população
local no conjunto global da metrópole. Trata-se, assim, de uma
perspectiva que implica em outro conceito de patrimônio: o patrimônio
que não é apenas representado por monumentos, mas por bens culturais
não-materiais.
Um exemplo notável dessa concepção é o "Paseo Caminito" de Buenos
Aires. Hoje, o Caminito apresenta-se quase que como um centro
cultural de vida popular, onde artistas apresentam e comercializam
obras, tornando-se um dos atrativos culturais de toda a metrópole.
De caminho degradado a centro cultural
Na zona em questão havia, no passado, um antigo riacho de nome Puntin. Essa denominação era diminutivo de ponte em dialeto genovês. Sobre o leito do córrego desaparecido, colocaram-se os trilhos de uma ferrovia à Enseada. Essa estrada de ferro deixou de funcionar na década de vinte. O local transformou-se em depósito de lixo.
Em meados da década de 50, a área foi concedida à municipalidade da cidade de Buenos Aires. A zona foi reurbanizada, e o Caminito foi inaugurado no dia 18 de outubro de 1959.
Inspiração pictórica e tango
Os espaços foram enriquecidos com esculturas, baixo-relêvos, cerâmicas.
recebendo o seu nome atual por sugestões de moradores. Essa sua
denominação, Caminito, foi inspirada em idéia de Quinquela Martin,
pintor de renome, e remonta a tango de Juan de Dios Filiberto,
com letra de Gabino Coria Peñalosa, por sua vez inspirado em paisagem
de Chilecito, na província La Rioja.
O colorido do bairro também foi de iniciativa de Quinquela Martín.
Nessa época, passava a modificar a sua prática de trabalho, substituindo
o cavalete à pintura a espaço aberto.
Oscar Juan de Dios Filiberto (La Rosa 1885-1964), compositor e
mestre de banda, filho do dançarino Juan Filiberto Mascarilla,
embora tendo estudado no Conservatório Pezzini Stiatessi, de Buenos
Aires, alcançou renome sobretudo como compositor de tangos. A
partir de 1915, escreveu tangos que permaneceram populares através
das décadas, tais como Caminito (1924, com G. Coria Peñaloza), Porteñita (1928) Clavel del aire (1930). Com a Orquesta Porteña, produziu várias gravações.
Há uma lógica consistente no relacionamento entre o popular tango
Caminito de Oscar Juan de Dios Filiberto, a conformação sócio-histórica
e urbana da região ao redor do antigo caminho ferroviário e a
proposta pictórica de Quinquela Martin, também celebrado com placa
comemorativa.
Inúmeras possibilidades de interpretação do universo assim criado
abrem-se para os estudos culturais. Mais do que um resgate de
um mundo sócio-cultural ou de sua memória, como muitas vezes considerado,
trata-se antes de um construto cultural que procura emprestar
valor a configurações humanas e sociais marcadas por estigmas
desprestigiadores no passado.
Situações altamente instáveis de imigrados, imersos em mundos
conflitantes, premidos pela necessidade de sobrevivência e impulsionados
pelo desejo de se imporem no novo mundo correspondem de fato a
configurações de cunho tanguista. Nem todos os imigrantes, porém,
podem ser enquadrados numa tipologia criada ou valorizada apenas
a posteriori e que considera pouco diferenciadamente a complexidade
de processos transformatórios de identidade.
Apesar de toda a labilidade e desejos de vencer no novo ambiente,
situações de pobreza e humildade, penúria e sujeira, tristeza
e desespero não podem ser igualadas indiferentemente a ambientes
questionáveis de meio ou baixo-mundo. O visitante do Caminito
leva a sensação desconfortante de que, nesse projeto altamente
simpático nos seus objetivos, há o perigo de uma estetização inadequada
de uma história de sofrimentos. Apesar dessa sensação dúbia, o
Caminito impressiona pela vitalidade que demonstra, pelas possibilidades
que oferece de trabalho e de ações culturais e pelo fato de haver
conservado um conjunto representativo da história urbana que,
sob outras condições, já teria sido há muito substituído por outras
construções.
Entre as muitas questões que se levantam coloca-se a da possibilidade
de ser o Caminito modêlo a ser seguido em outros contextos. Na
economia de suas propostas, facilmente exequível nas suas realizações,
poderia ser visto como caminho viável para a valorização de bairros
humildes, para a conservação respeitosa de identidades e de histórias
comunitárias e para a melhoria de vida de seus moradores de outras
cidades do continente.
Sem dúvida, o caminho "Caminito" tem sido aquele já seguido em
vários casos em outros países, sobretudo em conjuntos arquitetônicos
e ambientais com potencial turístico.
Bastaria, porém, pintar com cores vivazes as moradias de favelas
para superar os profundos problemas sociais, humanos e urbanos
a elas inerentes?
A lição do Caminito poderia aqui ser vista não no sentido de um
mascaramento, mas no de um necessário respeito e de uma sensibilidade
para universos e valores, para a história e para as soluções das
comunidades faveladas, superando-se de vez a expectativa irrealizável
do passado de que esses bairros possam vir a ser arrasados e substituidos
algum dia por outro tipo de edifícios e estruturas urbanas. O
debate urbanológico e arquitetônico necessitaria aqui orientar-se
culturológicamente e procurar novas concepções para além dos caminhos
ditados por ideários abstratos de cunho estético-artístico e tecnológico.
Os reais problemas que a solução "Caminito" levantam, porém, são
de outro teor. Recordando que o bairro assim valorizado na sua
configuração histórica e social organizou-se ao redor de uma antiga
ferrovia transformada em depósito de lixo, e que essa ferrovia
tinha sido construída sobre o leito de um riacho que secara, percebe-se
que o verdadeiro problema é de natureza ecológica. O córrego que
marcara no passado a região já não mais existe e não foi recriado
pelo projeto Caminito. A degradação natural conserva-se como fato
consumado e, sob esse aspecto, o colorido mundo criado cosmetologicamente
surge quase que como expressão cínica e grotesca de uma perspectiva
decididamente antropocêntrica. A proposta de ampliação do conceito
de patrimônio cultural que se encontra por detrás de um projeto
como o do Caminito não considera de forma suficiente o patrimônio
natural e que cada vez mais surge como fundamento e verdadeiro
fim de toda a discussão patrimonial.

Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).