Doc. N° 2307

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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112 - 2008/2
França-Argentina-Brasil
Periodismo como objeto de estudos interculturais em contextos
do Mercosul
110 anos do edifício de La Prensa
Trabalhos da A.B.E., Buenos Aires 2008
A.A.Bispo
A Casa de la Cultura do Govêrno da Cidade de Buenos Aires encontra-se
instalado em edifício adquirido pelo Govêrno da Cidade em 1992,
de particular relevância histórico-cultural do centro da metrópole
argentina, hoje Patrimonio Histórico de la Ciudad y Monumento
Histórico Nacional.

Trata-se da antiga sede do jornal La Prensa, construído entre
1895 e 1898. Já o edifício, concebido como palácio da imprensa,
indica a importância do órgão jornalístico como porta-voz de classes
influentes da sociedade argentina do século XIX e primeiras décadas
do XX. Trata-se, assim, não apenas de um extraordinário exemplo
de arquitetura urbana do historismo ecleticista, único representante
do "estilo de Charles Garnier", criador da Ópera e do Casino de
Montecarlo,
Trata-se de um edifício de grande carga simbólica e representante
do papel desempenhado pelo jornalismo na história sócio-cultural
sulamericana. A simbologia do edifício é posta em evidência pela
monumental estátua "La Farola", que coroa a fachada do prédio.
A imprensa surge aqui personalizada em portadora de um periódico
à esquerda e do facho de luz à sua mão direita, luz do esclarecimento
e da educação dos povos. Essa estátua de bronze, de 4000 quilos,
e cinco metros de altura, representa a deusa Minerva, símbolo
da sabedoria.A estátua foi, porém, pelo que tudo indica, inspirada
na representação da Liberdade como líder do povo, de Eugène Delacroix,
foi obra do escultor francês Maurice Bouval.Trazida da França
em 1898 e içada por meio de elevadores a 50 metrs de altura em
novembro do mesmo ano, representou um acontecimento que atraiu
acima de 20000 pessoas.
Liberdade, esclarecimento, educação e formação cultural surgem
aqui como ideais inseridos em conjunto mais amplo de concepções
que, pelo que sugere símbolos constatáveis na ornamentação e em
pisos, possuia conotações maçônicas. Por décadas determinou a
sirene do diário a vida da cidade. Inaugurada no dia 29de julho
de 1900, quando anunciou o assassinato do rei Umberto I da Itália,
a sirena serviu para anunciar os acontecimentos mais atuais que
ocorriam no mundo e na nação.
Além dos espaços destinados a fins específicos da imprensa, que hoje surpreendem pelos meios técnicos avançados para a época, o edifício impressiona sobretudo pelas suas salas representativas, em primeiro lugar pelo seu salão de concertos e conferências. Assim como hoje importantes jornais do Brasil e de outros países mantém salas de concertos e eventos, já a La Prensa fazia construir, em fins do século XIX, uma das mais opulentas salas para fins culturais da cidade, significativamente conhecida como Salão Dourado. O piso é elaborado com diferentes madeiras nobres, as paredes com aplicações de madeira, o brasão de bronze, de três metros de diâmetro, foi mandado vir de Paris. O teto pintado. com Palas Atena e 7 musas, foi obra de Nazareno Orlandi, artista que realizara afrescos para a igreja de el Salvador. O uso simbólico da letra P, constatável no palco da orquestra, traz conotações com o nome do fundador e com as iniciais das palvras Prensa, Periodismo e Palabra. Importante notar a representação de uma cena bíblica, da vida de Ester, aquela que salvou os judeus da Pérsia.
O fundador de La Prensa foi o advogado José Clemente Paz, a 18 de outubro de 1869, mais tarde embaixador em Paris, grande propagador da cultura e das artes francesas na Argentina. Em 1889, por ocasião da Exposição Universal em Paris, adquiriu o projeto para o seu palácio particular do arquiteto Louis Marie Henri Sortais (1860-1911), hoje sede da Asociación Amigos de la Lírica.
Primeiramente, o diário La Prensa estava sediado em edifício situado na calle Moreno. Nesse local, o órgão desenvolveu-se, tornando-se um periódico de grande influência no mundo da imprensa em língua espanhola. Em 1894, adequiriu-se para a nova sede um terreno na Avenida de Mayo, época em que essa via se tornava a principal artéria de uma metrópole cosmopolita de orientação européia.
A construção foi confiada aos arquitetos argentinos Gainza e Agote, de formação francesa. Na sua realização atuaram técnicos e artistas estrangeiros e argentinos.
O projeto previu um pátio central para o qual convergem os vários espaços para as atividades do órgão. O prédio consta de 6 anderes superiores, térreo e dois subsolos. A estrutura metálica foi produzida em Paris pela firma Moisant, "Laurent, Savey y Cía.". Essa renomada firma tinha sido aquela que havia fabricado a estrutura para edifícios importantes de Paris, tais como o do "Bon Marché" e do Gran Palais. Também os mosaicos e os trabalhos em ferro vieram da França. A calefação veio da Suíça e os elevadores dos Estados Unidos.
Os apartamentos do terceiro andar, destinado para empregados e seus familiares, foram também utilizados para acomodar visitantes que vieram a Buenos Aires. Entre os mais renomados artistas que ali viveram menciona-se Giacomo Puccini, em 1905.
De excepcional significado para os estudos culturais é a biblioteca, criada por José C. Paz e desenvolvida por seu filho, Ezequiel, hoje com 100.000 volumes.
Na Sala Dourada realizaram conferências escritores, artistas e políticos de vários países da América e da Europa. Ainda hoje é utilizada para esses eventos, como o demonstrou recente visita do presidente do Brasil.
Aspectos da história de La Prensa referentes ao Brasil: Gastón Talamón e H. Villa Lobos
Durante muitas décadas, o musicólogo argentino Gastón Talamón exerceu a crítica musical do diário La Prensa. Foi um dos maiores divulgadores e apreciadores da obra de Heitor Villa-Lobos.
Para o estudo do papel desempenhado por Heitor Villa-Lobos na
Argentina tem-se subsídios em estudo de Gastón Talamón, primeiramente
escrito em 1947, como apêndice de um livro ("Hector Villa-Lobos en la Argentina", Presença de Villa-Lobos
10, Rio de Janeiro: MEC/DAS/Museu Villa-Lobos 1977, 67-73). Após
lembrar que pequenas peças do compositor brasileiro já tinham
sido executadas em Buenos Aires nos anos imediatamente posteriores
à Primeira Guerra por artistas como Ricardo Vines e Artur Rubinstein,
e que a revista Música de America, em 1921, ter publicado a "Caboclinha",
o marco fundamental da presença de Villa-Lobos na capital argentina
foram os dois concertos por êle dirigidos e consagrados à sua
obra, em 1925. Esses eventos foram promovidos pela Asociación
Wagneriana e pela Sociedad Cultural de Conciertos. O primeiro
concerto realizou-se a 31 de maio de 1925 no salão La Argentina.
O significado desses concertos foi relevante, representando a
iniciação do público portenho nas novas tendências musicais de
então: "Así cabe al gran compositor brasileño el honor de haber fijado
con sus obras, en los anales de la vida musical de Buenos Aires,
una de las fechas más importantes de su cultura" (pág. 68). Para Talamón, esse fato seria extremamente importante
para o amor próprio da comunidade de países sulamericanos.Os dois
concertos de 1925 deixaram tão forte impressão que determinaram
um livro, embora baseado no conhecimento de apenas alguns exemplos
da obra do compositor brasileiro, "pois os muitos quilômetros
que separam o Rio de Janeiro de buenos Aires foi uma circunstância
pouco propícia para tomar contato direto com muchas obas de verdadeira
significação". (pág. 71)
Comentários do jonal La Prensa sobre o primeiro concerto de Villa-Lobos na Argentina, a 31 de maio de 1925:
"Heitor Villa-Lobos é em parte de suas obras um desses cantores
[da beleza da América]. Através da sua fecunda obra, sobretudo
nos últimos anos, sente-se às vezes palpitar mais que em produções,
muito interessantes e belas, por certo, de outros compositores
do país irmão, a grande alma sonora do Brasil. Alma nova e libre
de prejuízos escolásticos; alma de um povo jovem e vigoroso, que
quer cantar com próprio acento; que tem consciência de seu valor
e de sua força e que, concentrando-se em si mesmo, aspira crear
sua própria beleza, mediante um soberbo esforço, que também pode
assinalar-se nos demais países continentais."
(...)
Essas qualidades, bastariam para dar transcendência e interesse
à produção de Villa-Lobos, se independentemente daquelas, ela
não se impora também por seus méritos puramente musicais (...)
Essas características da obra de Villa-Lobos explicam o porque
de seu êxito na Argentina, cujo público vê nele o representante
da nossa América, fiel tradutor de seus ideais estéticos, de suas
emoções humanas, de sua alma, em uma palavra" (pág. 73)
.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).