Doc. N° 2286

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
© 1989 by ISMPS e.V. © Internet-edição 1999 by ISMPS e.V. © 2006
nova série by ISMPS e.V.
Todos os direitos reservados - ISSN 1866-203X - urn:nbn:de:0161-2008020501
111 - 2008/1
Inglêses na História Cultural do Brasil e da Índia
Enfoques transnacionais
200 anos da abertura dos portos (1808),
140 anos de "Explorations of the Highlands of the Brazil" de Richard
Burton (1868)
Atividades da A.B.E. 2007/2008. Karauli e Jaipur, India
A.A.Bispo
A obra Ingleses no Brasil, de Gilberto Freyre, tratando de aspectos da influência britânica
sobre a vida, a paisagem a cultura do Brasil, lançou as bases,
há 60 anos, de um campo de estudos que ainda continua a merecer
análises e, sobretudo, reflexões relativas a perspectivas de abordagens
(Gilberto Freyre, Ingleses no Brasil: Aspectos da influência britânica sobre a vida,
a paisagem e a cultura do Brasil, Rio de Janeiro/São Paulo: José Olympio 1948, Coleção Documentos
do Brasil 58).
No seu prefácio, Octavio Tarquinio de Sousa salientou que o autor
dava continuidade, com esse ensaio, ao tipo de trabalho inaugurado
com Casa Grande e Senzala: "Gilberto Freyre dá-anos um imenso rol de tudo quanto se ficou
a dever aos ingleses, desde o uso do chá, da cerveja e do pão
de trigo, até o bife com batatas, a residência em subúrbio, o
water-closet e - last but not least - o juri e o habeas-corpus." (pág.17)
Entretanto, o prefaciador aponta para a história mais antiga das
relações entre a Grã-Bretanha e o mundo português: "Menos aparentes, mais distantes, de segunda mão, se assim se
pode dizer, mas antigas. Influencias através de portugueses que
aqui chegaram já contagiados delas; influencias de alguns contactos
diretos. Porque o certo é que Portugal de longa data gravitava
na órbita britânica. Ao tratado de Methuen, de 1703, instrumento
de dominação econômica inglesa sobre o reino luso, precederam
varios outros, animados do mesmo espírito". (op.cit. 14)
Novos enfoques
Os estudos das relações culturais anglo-brasileiras podem e devem ser continuados e aprofundados com a consideração mais pormenorizada sobretudo da história cultural da industrialização e da tecnologia e suas conseqüências para a vida de diferentes classes sociais do Brasil de fins do século XIX e primeira metade do XX.
Os monumentos arquitetônicos representados pelas estações ferroviárias, as obras de engenharia de pontes e túneis, a arquitetura de casas e colonias de trabalhadores ferroviários e industriais, - entre outros aspectos menos evidentes -, ainda oferecem muitas possibilidades para reflexões. Entretanto, os estudos de caso já realizados - por exemplo relativamente à Estação da Luz ou a Piranapiacaba, em São Paulo - mostram vínculos e similaridades com outros contextos do vasto império britânico e de seu raio de ação.
Essa menção vale, aqui, para salientar as oportunidades que se abrem a estudos abrangentes da ação cultural inglêsa no mundo, inserindo os estudos de obras, fatos e processos brasileiros no contexto maior da história cultural do imperialismo britânico. A atualidade desses estudos se evidencia com o crescente interesse por questões pós-coloniais e interculturais.
Estudos Anglo-Brasileiros e a Índia
Nenhum país poderia ser mais adequado para estudos da influência inglêsa em contextos internacionais do que a Índia, a ex-"principal jóia" do império britânico. A presença do passado britânico é ainda viva em instituições e na própria vida intelectual do país, e o corrente idioma inglês é a demonstração mais evidente da força dos elos culturais ainda vigentes.
O desenvolvimento da literatura indiana dos últimos séculos, da
revalorização do passado cultural, da procura de identidade religiosa
e cultural deu-se a partir e em relação de tensões com a história
do mundo britânico nos seus contextos globais. Já a colonia indiana
na Grã-Bretanha, com a sua intensa vida intelectual, cultural
e religiosa própria é uma demonstração de que esses processos
são recíprocos e que a India não foi apenas uma porta de entrada
do Ocidente no Oriente mas também do Oriente no Ocidente.
Na força dos elos históricos e político-culturais com a Inglaterra,
a Índia não pode ser comparada evidentemente com o Brasil. O passado
colonial do Brasil é fundamentalmente vinculado com o mundo lusitano,
falando-se significativamente antes de "influências" com relação
ao mundo anglosaxão. Entretanto, uma perspectiva global do desenvolvimento
histórico parece permitir o detectar de mecanismos e de suas fundamentações
permitindo o reconhecimento de sistemas e processos menos aparentes.
"Orientações" - "Oriente-Ações" - Direcionamento ao Oriente e penetrações
Não se pode esquecer, nos estudos euro-indianos, que os primeiros representantes da Europa que se estabeleceram na Índia foram os portugueses com Vasco da Gama, em 1498. A orientação de Portugal era dirigida ao Oriente e, na divisão do mundo a ser descoberto coube-lhe essa parte, enquanto que a Espanha voltava-se ao Ocidente. O Brasil foi descoberto no decorrer de uma viagem à Índia e esse contexto indo-brasileiro exige acentuada atenção nas focalizações histórico-culturais em dimensões globais.
Entretanto, enquanto na América os portugueses conseguiram colocar em ação processos que levaram a uma ampliação extraordinária de sua esfera, determinando o idioma e a história cultural de gigantesca colonia e nação, as suas possessões na Índia, apesar de todo o seu significado histórico-cultural, religioso e estratégico no Oriente, permaneceram aparentemente antes pontuais. Não levaram a que a antiga "India Portuguesa" representasse o passado imediato da Índia atual. Esse papel que a Portugal não coube foi desempenhado sobretudo pelos inglêses. O estudo desses mecanismos poderosos de "penetração" britânica na Índia pode contribuir assim para a análise de situações globais da história cultural nas quais também o Brasil se insere.
Significado da abertura dos portos do Brasil
Das observações do citado prefaciador da obra de Gilberto Freyre
cumpre mencionar sobretudo que acentua o significado da abertura
dos portos do Brasil às nações amigas, em 1808, como sendo a grande
data que marcaria a história cultural das relações anglo-brasileiras:
"Sem hesitações, os ingleses se convenceram de que encontrariam
no Brasil excelente oportunidade para a expansão de sua industria
e de seu comercio; e, aproveitando-se como bons realistas, das
circunstancias favoraveis, continuaram a mesma política que vinham
ponto em prática com Portugal: obter o máximo de favores, o máximo
de lucros." (pág. 15)
Significativamente, a História Geral da Civilização Brasileira, editada sob a direção de Sérgio Buarque de Holanda, trata da
Presença Inglêsa em alentado capítulo do seu segundo tomo, dedicado ao processo
de emancipação do Brasil: "Uma das conseqüências mais importantes da vinda da família real
portuguesa foi o fortalecimento no Brasil da influência britânica.
Da velha metrópole transferia-se para o Brasil a presença inglesa.
As necessidades do governo português, primeiro, e depois os problemas
iniciais do Brasil independente, favoreceram a posição dos ingleses,
que souberam aproveitar as circunstâncias para defender seus interesses,
sobretudo comerciais." (O Brasil Monárquico I: O Progresso de Emancipação, 4a. ed., São Paulo/Rio de Janeiro 1976, pág. 64)
Qual era a situação na Índia à época da abertura dos portos no
Brasil? O processo de tomada de posse territorial inglêsa já estava
em andamento há décadas. Madras estava em poder britânico desde
1639 e Bombay desde 1661. Em 1765, o Grão-Mogul transferira à
Companhia de Comércio das Índias Orientais a administração de
Bengala; o govêrno de Madras e Bombay passaram ao Governador Geral
de Bengala, então W. Hastings. A conquista gradativa de novos
territórios alcançava uma nova dimensão com a submissão dos soberanos
Marathas.
A abertura dos portos no Brasil ocorreu, assim, numa fase de fundamentação
de estruturas e de início de sua consolidação com uma por assim
dizer conquista "espiritual" à moda da Inglaterra. Apenas a seguir
dar-se-ia continuidade a expansões territoriais: primeira guerra
contra afganos, em 1838-42; anexação de Sind em 1843, dos Sikh,
em 1849, até então reinando no Pandschab desde o Marajá Rancschit
Singh (+1839) e, em 1852, do sul de Birma.
Esses territórios, se não submetidos diretamente à administração
inglêsa, permaneceram sob o poder de soberanos indianos presos
por meio de contratos à Coroa britânica. Essa estrutura de dependência
das esferas indianas historicamente soberanas parece ter sido
de fundamental importância para a concretização do domínio britânico.
Poderes locais fundamentados na história, na simbologia e em tradições
culturais transformaram-se em mediadores e agentes do poder externo.
Não se pode porém esquecer que também movimentos humanitários
e correntes de ideais de desenvolvimento social, de justiça e
de saber da Grã-Bretanha se difundiram e frutificaram através
desses canais. Isso ocorreu sobretudo após um certa modificação
da orientação exclusivamente econômica vigente até 1833. Entre
as medidas esclarecedoras, cumpre citar o combate do costume da
queima de viúvas. Como meio de estabilização do poder difundiu-se
o sistema de ensino e o idioma inglês, criando canais para a ascensão
sócio-cultural e para um papel a ser exercido por indianos no
universo indo-britânico.
Richard F. Burton e Lord Stanley
De Santos, em 23 de julho de 1868, Richard F. Burton, que havia
sido Presidente da Sociedade de Antropologia de Londres, oferecia
o seu livro ao Lord Edward Geoffrey Smith Stanley, 14° Conde de
Derby, então primeiro ministro (1866-1868) e que havia sido colega
de estudos de antropologia do autor, "cuja cultura universal, larga e esclarecida, adquirida não só
em seu gabinete de estudo, mas ainda na observação direta, pelas
viagens e pelo conhecimento dos homens, promete à nossa terra
natal, a política de larga visão e de sólidos fundamentos que,
durante o último terço de século, teve a mesma sorte que outras
boas intenções" (Explorations of the Highlands of the Brazil: with a full account
of the Gold and Diamond mines. Also canoeing down 1.500 miles
of the grreat river São Francisco, from Sabara to the Sea. By
Captain Richard F. Burton F.R.G.S. etc., London: Tinsley Brothers, 1869; Viagens aos Planaltos do Brasil 1868, Trad. Américo Jacobina Lacombe, São Paulo/Rio/Recife/Porto
Alegre: Companhia Editora Nacional 1941, pág 13.)
Lord Stanley um dos mais destacados nomes do Conservadorismo do
século XIX (líder do partido 1846-68; primeiro ministro 1852,
1858-59 e 1866-68, desempenhou importante papel na história colonial
(subsecretário para as Colonias entre 1827-38, introdutor, em
1833-34 do regimento que aboliu a escrevidão). No período de sua
administração, em 1858, foi criado o Secretariado de Estado para
a India (Secretary of State for India ou India Secretary). As prerrogativas da Companhia Britânica das Índias Orientais
foram transferidas para a Coroa. Com essa inovação, o subcontinente
indiano passou a estar submetido pela primeira vez diretamente
à Grã-Bretanha (British Raj). Procedeu-se, assim, à fundamentação
de uma situação política que duraria até a independência da Índia,
em 1947.
A guerra civil de 1857/59 foi um dos marcos decisivos no desenvolvimento
histórico-colonial da Índia. Tratou-se de uma rebelião de soldados
indianos de tropas britânicas, na sua maior parte muçulmanos (Sepoy Rebellion, Great Mutiny, Revolt of 1857). Esse motim é considerado por muitos na Ásia como expressão
da primeira guerra de independência indiana. Tudo indica que foram
sobretudo motivos culturais - desprêzo inglês por concepções culturais
locais - que causaram a rebelião. Os motinados marcharam a Delhi
para oferecer os seus serviços ao imperador mogul. A rebelião
se expandiu pelo Norte da India, então ainda em várias áreas sob
o controle dos príncipes Maratha.
A relevância histórico-cultural desses acontecimentos não pode
ser suficientemente salientada. As suas conseqüências, com o reforçamento
da supremacia britânica, representou a época do fim do império
indo-islâmico dos moguls, fundado por Babur, em 1526. Em maio
de 1858, o imperador Bahadur Shah Zafar II (1837-1857) era exilado
para Burma. Ao mesmo tempo, Lord Stanley abolia a Companhia das
Índias Orientais. Proclamou-se o direito britânico aos príncipes,
chefes e povos da India.
A reorganização administrativa do domínio imperial britânico no
sub continente marcou a segunda metade do século XIX. Em 1877,
a Rainha Vitória recebeu o título de Imperatriz da India. Em Londres
criou-se um Secretário de Estado da India, o Governador-Geral
passou a ser Vice-Rei, com sede em Calcutá e ao qual estavam submetidos
governadores provinciais e, a estes, oficiais de distrito. O Indian
Civil Service permaneceria por décadas reservado a britânicos
de nascença. Até 1910 havia relutância em permitir que até mesmo
indianos educados britânicamente assumissem cargos de importância
na administração e política. Famílias britânicas e seus servidores
viviam separados, à distância das povoações indianas. Clubs particulares
tornaram-se símbolos de exclusividade. Em os aspectos esclarecidos
e esclarecedores da ação britânica cumpre lembrar que, em 1883,
tentou-se romper a barreira entre as raças com a introdução de
leis trabalhistas.

Tradução dos Vedas de Max Müller a Pedro II°
Não se pode esquecer, também, o impulso que os europeus deram aos estudos culturais relativos à Índia sob as condições criadas pelos inglêses. Foi nesse contexto que se difundiram também os conhecimentos da antiga filosofia do Hinduismo no Ocidente. Em 1877, o Governo das Índias, através do bibliotecário da Real Sociedade Asiática, da Grã-Bretanha, Robert Cust, enviava exemplares dos Vedas Sânscritos, em grandes volumes, a D. Pedro II°, na tradução dos mesmos por Friedrich Max Müller (1823-1900). Esse indólogo alemão, introdutor da Linguística Comparada e dos estudos mitológicos no mundo língua inglêsa, é considerado como fundador das Ciências Comparativas das Religiões. O recebimento da obra pelo imperador brasileiro foi acusado pelo Barão de Penedo, então Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário do Brasil na Grã-Bretanha. (Dom Pedro II e a Cultura, Rio de Janeiro: Arquivo Nacional 1977, 186).
Vida de cunho indo-britânico dos marajás
A situação marcada pela dependência dos soberanos da Grã-Bretanha marcou a história cultural dos respectivos estados indianos, entre outros do Rajasthan. Os soberanos locais foram honrados por visitas oficiais britânicas e procuraram desenvolver estilos de vida e de representação que uniam características aristocráticas inglêsas a particularidades de sua própria cultura. Estilos altamente refinados de vida, ao mesmo tempo de esplendor exótico, quase que de auto-exotismo, marcaram décadas da história indiana de meados do século XIX até a proclamação da independência.
Hábitos aristocráticos ingleses, tais como de caçadas e de esportes
hípicos foram assimilados pelas classes sociais mais privilegiadas.
Quase que em crise de identificação cultural, membros dessas famílias
consuetudinárias procuravam demonstrar-se mais aptos no exercício
desses esportes do que os próprios inglêses. De fato, muitos indianos
de estirpe alcançaram prêmios em competições esportistas na Europa.
Antigas residências, hoje transformadas em museus e pousadas,
com mobiliário eclético e valioso da época, apresentam aos visitantes
quadros e fotografias que documentam esse esplendor de uma época
marcada por labilidade e anseios de auto-afirmação. Percebe-se,
por exemplo na antiga residência de Karauli, uma certa nostalgia
do passado britânico que poderia dar ensejo a considerações comparativas
com a singular nostalgia que se constata também no Brasil com
relação ao passado colonial.
(...)
Os trabalhos tiveram e terão prosseguimento.

Participação de marajás em competições na Inglaterra.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).