Doc. N° 2278

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria
científica
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111 - 2008/1
Estudos euro-indo-latinoamericanos e a pesquisa do Barroco
Do universo barroco do Sul da Alemanha ao Paraguai e ao Império
Mogul
Reflexões em Agra e na região de Augsburg, Alemanha. Trabalhos da A.B.E. 2007/08
A.A.Bispo
Não só igrejas barrocas da Antiga Índia Portuguesa

Os estudos histórico-culturais dedicados a contextos euro-indo-brasileiros relacionam-se de modo especial com a pesquisa do Barroco. Até os anos oitenta, tal afirmação seria compreendida sobretudo no sentido de uma constatação do significado do Barroco em igrejas de Goa e de outras antigas possessões portuguesas na Índia e de sua comparação com o Barroco na Europa e no Brasil.
Enfoque processual
Em publicações e eventos da A.B.E. tem-se procurado já há anos
colocar a questão sob uma outra perspectiva, salientando-se o
processo global posto em vigência pela ação missionária desde
as primeiras décadas do século XVI em várias partes do mundo.
A partir das exigências práticas que determinaram a metodologia
da conversão e em contínua reflexão e revisão de concepções, a
atividade missionária lançou as bases de um desenvolvimento processual
que levou às expressões que se convencionou denominar de barrocas.
Não se trata, assim, de estudar o Barroco como uma expressão européia transplantada tanto ao Brasil como à antiga Índia Portuguesa mas sim de considerar essas expressões como resultados de um processo amplo de caminhos de cristianização seguidos em contextos globais, de experiências recíprocas e codeterminadoras de orientação de ordens missionárias sediadas na Europa.
Essa mudança de perspectiva trouxe e traz consideráveis conseqüências para os estudos culturais e histórico-artísticos. Para a pesquisa do Barroco na sua processualidade torna-se imprescindível a consideração do trabalho missionário no Ocidente e no Oriente, ou seja, em particular dos elos indo-brasileiros.
Seriam esses contextos globais indo-brasileiros que permitiriam então o estudo adequado do Barroco na própria Europa. Os estudos histórico-culturais das relações Índia-Brasil teriam, assim, uma relevância extraordinária.
Impulsos missionários de exterior e de interior
Se, porém, o estudo do processo colocado em ação pelos missionários no Brasil e na Índia pertencem sobretudo à história missionária de povos não-cristãos, o processo de conversão correspondente a ser considerado na Europa refere-se sobretudo ao fortalecimento da catolicidade, à prevenção e à re-conversão, ou seja, à recatolização de regiões reformadas.
Essa diversidade fundamental de situações e, ao mesmo tempo, a similaridade dos objetivos - a catolização - devem ser consideradas de forma mais diferenciada e nos seus vínculos recíprocos. A consideração do Barroco no contexto da Contra-Reforma passa, assim, a exigir mais cuidados diferenciadores e atenção a seus pressupostos da história missionária.
Contrareforma e processos interculturais
Um momento importante na dinâmica do processo desencadeado pelo ímpeto missionário externo - e posteriormente atuante na missão interna européia - seria o do retorno ao Exterior de expressões desenvolvidas no contexto intereuropeu.
Em estudos e debates da A.B.E. desenvolvidos nos últimos anos procurou-se salientar a transferência de concepções e de expressões artísticas e culturais de regiões da Europa Central recatolizadas à América Latina (relatos de alguns desses trabalhos podem ser consultados em números anteriores deste órgão).
Sobretudo a influência histórico-musical de regiões submetidas à Companhia de Jesus no mundo germânico do Tirol, da Áustria e do Sul da Alemanha na prática musical em missões dos jesuítas da América do Sul foi objeto de particular consideração em cursos e seminários.
A dinâmica por assim dizer auto-poética desse processo pode ser considerada com relação a determinadas fases do seu desenvolvimento. Assim, constatar-se-ia um retorno à Europa de impulsos despertados pelos sucessos obtidos em regiões de missão. O significado dessas relações recíprocas e de múltiplas frutificações para a história cultural - em particular para a história da música em contextos globais - não pode ser suficientemente salientado.
Tem-se levantado e analisado as fontes históricas que permitem o estudo bastante pormenorizado da ida de missionários de regiões católicas e recatolizadas da Europa Central de língua alemã para a América do Sul e a respectiva transferência de práticas devocionais, de instrumentos musicais e de expressões artísticas. Por sua vez, as adaptações, as transformações ocorridas e os seus desenvolvimentos posteriores são objeto de estudos da história cultural de orientação antropológica e de outras disciplinas.
Pouco se tem considerado, porém, as relações desses contextos euro-sulamericanos com a história das relações entre a Europa e a Índia da mesma época. Também aqui houve a ida de missionários da Europa Central de língua alemã, religiosos preparados para a prática da missão e que levaram consigo os pressupostos culturais adquiridos no ambiente católico-barroco da Baviera e de regiões circunvizinhas.
Região de Augsburg - Índia
Se para a América do Sul o grande nome dessa história de relações interculturais é o do Pe. Antonio Sepp S.J. (1655-1733), tantas vezes considerados em trabalhos da A.B.E., para a Índia é o do jesuíta Heinrich Roth (Dillingen 1620 - Agra 1668).
Dillingen, nas proximidades do Danúbio, é uma cidade situada na Suábia bávara. Famosa pelo arquivo dos Fugger e pela sua faculdade teológico-filosófica, a sua história remonta a um burgo do conde de Dillingen, documentado já em 973. A partir de 1257, passou à esfera religiosa de Augsburg, tendo permanecida marcada por esse vínculo através dos séculos. No castelo local, desde o século XV, residiam os bispos de Augsburg.
Uma das mais influentes personalidades na história cultural da cidade foi o bispo Otto Truchseß de Waldburg, (1514-1573), cardeal a partir de 1544, eminente promotor da restauração da unidade religiosa na Europa. Realizou, em Dillingen, em 1543, 1548 e 1567 os primeiros sínodos em terra alemã após o Concílio Tridentino. Em 1549, fundou um Collegium litterarum, posteriormente transformado em universidade, desde 1563 sob a responsabilidade da Sociedade de Jesus. A fundação de uma impressora para a publicação de obras literárias e científicas deveria auxiliar a tarefa propagadora de manutenção e recuperação da unidade religiosa. Dillingen tornou-se, assim, umc centro da Contra-Reforma na Europa (hoje abriga uma Academia de Especialização de Professores). Sob a influência jesuíta, a cidade floresceu, e os seus muitos monumentos são testemunhos desse período de apogeu na formação de teólogos e missionários: a igreja da Companhia (1610-1617), a igreja paroquial (1619-28), o edifício da Universidade (1688/9), o Colégio dos Jesuítas com a igreja conventual (1736-1738). A arquitetura externa e sobretudo a do interior das igrejas, como a da nave da igreja paroquial de São Pedro, com afrescos de Josef Wolker e estuques de Joseph Eistle (1735), a da igreja de estudos, com obras de estucadores da escola de Wessobrunn e a sala dourada da Universidade (1761-64) comprova o apogeu do Barroco nesse período de consolidação do movimento recatolizador.
Foi nessa esfera religioso-cultural barroca da região de Augsburg que tanto A. Sepp como H. Roth obtiveram formação religiosa e cultural.
Imagens de Augsburg. Trabalhos da A.B.E. 2007. Fotos A.A.B.
Heinrich Roth e conseqüências da missão mogul

Heinrich Roth entrou na Companhia de Jesus com apenas 19 anos, em 1639. Ao contrário do caminho seguido pelos missionários que vinham de Portugal, chegou à Índia por via terrestre, em 1651, com o objetivo de se dedicar à missão. Em 1653, deu início à missão mogul. Para tal, adquiriu grandes conhecimentos de línguas, entre elas do urdu e do persa, tornando-se o primeiro alemão a dominar o sânscrito. Chegou a escrever uma gramática dessa língua e é considerado como o primeiro erudito do sânscrito na Europa.
Assim como os acontecimentos nas missões do Paraguai tornaram-se conhecidos na Europa através de cartas e textos de A. Sepp, a importância da ação de Roth deve ser vista sobretudo na transmissão de conhecimentos da Índia à Europa em época do apogeu de erudição enciclopédica da Sociedade de Jesus.
Em 1664, acompanhando J. Grueber a Roma, transmitiu os seus conhecimentos
de sânscrito e do Hinduísmo ao grande erudito jesuíta Athanasius
Kircher (1601-1680), famoso autor da Musurgia (1650), que os aproveitou na sua obra China monumentis illustrata (1667).
Em 1665, retornou à India. Nesse ano publicou-se, em Aschaffenburg,
um livro sobre o reino mogul baseado nas suas informações (Th.
Ray, Relatio rerum notabilium Regni Mogur). Essa se transformaria numa obra histórica de difusão de conhecimentos
relativos ao império indo-islâmico no Ocidente.
Os trabalhos deverão ter prosseguimento.
Observação: o texto aqui publicado oferece apenas um relato suscinto
de trabalhos. Não tendo o cunho de estudo ou ensaio, não inclui
notas e citações bibliográficas. O seu escopo deve ser considerado
no contexto geral deste número da revista. Pede-se ao leitor que
se oriente segundo o índice desta edição (acesso acima).