Doc. N° 2154

Revista Brasil-Europa

Prof. Dr. A. A. Bispo, Dr. H. Hülskath (editores) e curadoria científica
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105 - 2007/1


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O ÓRGÃO "ARP SCHNITGER" DE 1701
ENCONTRADO NO MOSTEIRO CRÚZIO DE SÃO SALVADOR,
MOREIRA DA MAIA, PORTUGAL

 

Calimerio Soares (2007)1

1 - Introdução.

A musicologia histórica vem se desenvolvendo gradativamente ao longo dos últimos quase trinta anos no Brasil, principalmente, com a criação e implementação dos cursos de pós-graduação em música em nível de mestrado e doutorado na área. Entretanto, há ainda muito a ser feito em prol desta apaixonante área de estudo, sobretudo no que concerne a uma melhor veiculação e intercâmbio de informações entre os vários acadêmicos brasileiros e estrangeiros.

No campo da pesquisa histórico-musicológica, ainda encontramos no Brasil a falta de uma bibliografia específica e abundante neste setor, além das muitas dificuldades de toda ordem encontradas e enfrentadas pelos pesquisadores no afã de prosseguir seus respectivos trabalhos de investigação.

No campo da organologia - sobretudo no que concerne ao instrumento órgão de tubos - a pesquisa se torna ainda muito mais difícil de ser desenvolvida, uma vez que o acesso às informações é sempre dificultado pela própria natureza do assunto, além das dificuldades de se encontrar bibliografia abundante e condizente com as necessidades peculiares do investigador.

Neste campo, as informações têm chegado ao Brasil com um enorme atraso para o conhecimento dos pesquisadores, sendo que - em circunstâncias mais favoráveis - poderiam ser divulgadas com maior eficiência entre todos os estudiosos interessados.

O advento da Internet tem proporcionado maior facilidade e agilidade na veiculação da informação entre os pesquisadores. Foi através desta facilidade e agilidade virtuais que fomos - há algum tempo - surpreendidos com a notícia de que havia sido encontrado e restaurado no Mosteiro Crúzio de São Salvador de Moreira, na Maia, um dos dois pequenos órgãos enviados a Portugal pelo próprio Arp Schnitger, no ano de 1701!


2 - O Mosteiro Crúzio de São Salvador de Moreira, Maia, Portugal.

Sobre o Mosteiro de Moreira, o Dr. José Augusto Maia Marques2 (da Câmara Municipal da Maia), assim escreve:

Explicando o significado da palavra Crúzio, D. Geraldo J. A. Coelho Dias3 (OSB/FLUP) assim a define:


3 - O órgão Arp Schnitger de 1701.

Em 1853-54, Siwert Meijer4, organista em Groningen (Holanda), com base nos manuscritos originais de Arp Schnitger (1648-1719), escreveu que em 1701, Schnitger enviara dois órgãos novos para Portugal, cada um com 12 registros, dois teclados e um fole.

Em 1974, Gustav Fock5, biógrafo de Arp Schnitger, com base nos escritos de Meijer, declarou que "o paradeiro destes dois órgãos é até hoje desconhecido".

No artigo sobre as caixas de órgãos portugueses setecentistas, o organista e musicólogo luso-germânico, Dr. Gerhard Doderer6 - comentando sobre as influências nórdicas que a organaria em Portugal sofrera entre os séculos XVII e XVIII por mestres organeiros neerlandeses e alemães - informa-nos sobre os "dois órgãos"7 enviados por Schnitger à Portugal.

Digna de nota é a observação feita pelo Pe. Manuel Valença8 em seu livro A Arte Organística em Portugal, II volume:

 

Arp Schnitger
Órgão Arp Schnitger (Foto Orguian)

Finalmente, por volta de 1986-87, um destes "dois órgãos" enviados por Arp Schnitger a Portugal em 1701 é encontrado e - a partir de 1998 - restaurado pelo mestre organeiro alemão Georg Jann9 (da ORGUIAN, Santo Tirso, Portugal) no Mosteiro Cruzio de São Salvador de Moreira, na Maia, cidade localizada 10 quilômetros a norte do Porto.

O que vale destacar desta maravilhosa descoberta é a assinatura encontrada do próprio Arp Schnitger. O organeiro Georg Jann assim a descreve:

Após o restauro, o instrumento apresenta a seguinte disposição:

2º Manual (47 teclas, oitava curta)
Holzflöte 8'
Prinzipal 4' (Prospekt)
Disposição do Órgão
de S. Salvador de Moreira - Maia - Portugal
Arp Schnitger 1701 - Georg Jann 2000
1º Manual (47 teclas, oitava curta)
Gedakt 8'
Holzflöte 4'
Quinte 2 3/2'
Octave 2'
Quinte 1 1/3'
Octave 1'
Sesquialtera 3f
Mixtur 4f
Dulzian 16'
Trompete 8'
Extensão do órgão: C D E F G A B H cº - c3
Nº de tubos: 799 (+ 7 mudos)
2 manuais acoplados
não há pedaleira
Someiro não dividido
Registos inteiros
Fole de cunha com três pregas +
Fole bombeador com alavanca
Diapasão: Lá 443 hz
Afinação: em mesotônico
Composição dos registos compostos
Mixtur
Sesquialtera
C 1/2 1/3 1/4 1/6
G 2/3 1/2 1/3 1/4
1 2/3 1/2 1/3
11/3 1 2/3 1/2
c1 2 11/3 1 2/3
g1 22/3 2 11/3 1
c2 4 22/3 2 11/3
C 1 2/3 2/5
2 11/3 4/5
c1-c3 4 22/3 13/5

 

Novos teclados
Novos teclados (Foto Orguian)

4 - Dois órgãos congêneres das Catedrais de Mariana (Minas Gerais, Brasil) e de Faro (Algarve, Portugal). Schnitger ou Ulenkampf: A quem atribuir a verdadeira paternidade?

Os dois belíssimos órgãos congêneres encontrados nas Sés Catedrais de Faro e de Mariana (cada um com 18 registros, dois teclados e um fole) foram objetos de um importante e detalhado estudo comparativo, de autoria do Pe. Dr. Marcello Martiniano Ferreira11. Publicada no ano de 1991, esta tese de doutoramento - que foi apresentada em 1985 no Pontifício Instituto de Música Sacra em Roma - defende a autoria de ambos os instrumentos como atribuída ao organeiro alemão Arp Schnitger (1648-1719).

Orgao de Faro Orgao de Mariana
Faro
Mariana

Desde antes da publicação do artigo de Ivo Porto de Menezes12 e do certificado de autoria do célebre organista e regente alemão Karl Richter (1926-1981)13 em 1985, muito se tem especulado a respeito da autoria do instrumento instalado na Sé Catedral de Mariana como sendo de João Henriques Ulenkampo (Johann Heinrich Hulenkampf), dileto artífice e aluno de Arp Schnitger em Hamburgo e que se transferira para Portugal nas primeiras décadas do século XVIII.

Entretanto, as recentes descobertas e pesquisas realizadas ao longo dos últimos anos vêm contradizendo a afirmação do Revmo. Pe. Dr. Marcello M. Ferreira sobre a autoria de ambos os instrumentos (Faro e Mariana) como tendo sido construídos pelo próprio Arp Schnitger. São de autoria do Dr. Gerhard Doderer importantes estudos publicados na Alemanha14, em Portugal15 e no Brasil16, através dos quais é reforçada a hipótese sobre a paternidade dos ditos instrumentos atribuída a Ulenkampf.

Ainda assim, por ocasião do primeiro restauro por que passou o órgão de Mariana (entre os anos de 1977 a 1984), a pesquisadora e musicóloga mineira, professora Maria Conceição Rezende17 (à época, responsável pelo Museu da Música da Arquidiocese de Mariana), anotou e publicou que:

Mais adiante, apresenta-nos uma outra informação importante, que é também observada no artigo do Prof. Ivo Porto de Menezes:

Se tais anotações subsistem inscritas na caixa do órgão (infelizmente, ainda não nos foi possível examiná-las 'in loco'), apresentam dois importantes aspectos: o primeiro informa que Ulenkampf residiu por mais algum tempo em Lisboa e o segundo, atesta que a paternidade de ambos os instrumentos hoje instalados nas Catedrais de Mariana e de Faro é, de fato, atribuída a Johann Heinrich Ulenkampf.


5 - Conclusão:

Graças ao detalhado trabalho de autoria do Pe. Dr. Marcello M. Ferreira, dispomos de prova irrefutável sobre a semelhança técnica e estética de construção entre esses instrumentos congêneres hoje instalados nas catedrais de Faro (construído em 1716) e de Mariana (construído provavelmente por volta de 1723), cuja paternidade é atribuída a Ulenkampf. Este mestre organeiro aprendeu a arte de construir órgãos com Arp Schnitger, em Hamburgo.

Portanto, podemos - com toda a certeza - considerar ambos os instrumentos como verdadeiras jóias históricas: duas obras primas oriundas da grande arte organária da escola de Arp Schnitger.

A localização futura do paradeiro do segundo pequeno órgão enviado em 1701 por Arp Schnitger a Portugal, colocará um ponto final a todas as especulações em torno do assunto.

 

NOTAS:

1 CALIMERIO SOARES é compositor e professor adjunto da Universidade Federal de Uberlândia. Doutor em Música pela Universidade de Leeds, Inglaterra. Membro da Academia Brasil-Europa de Ciência da Cultura e da Ciência e conselheiro do Institut für Studien der Musikkultur des portugiesischen Sprachraumes e.V.

2 MARQUES, José Augusto Maia. Mosteiro de Moreira: Uma centralidade irradiante, in O Mosteiro Crúzio de Moreira: História Arte Música, coordenação de António Maria Mendes Melo, Moreira da Maia, Ed. Fábrica da Igreja de Moreira da Maia, junho/2000: 15-23.

3 DIAS, Geraldo J. A. Coelho. O Mosteiro de São Salvador: Os Crúzios em Moreira da Maia: História e Arte, in O Mosteiro Crúzio de Moreira: História Arte Música, coordenação de António Maria Mendes Melo, Moreira da Maia, Ed. Fábrica da Igreja de Moreira da Maia, junho/2000: 25-46.

4 MEIJER, Siwert. Bijdragen tot de geschiedenis van het orgelmaken, in Caecilia, Allgemeen muzikall tijschrift van Nederland (Utrecht, 1853-54).

5 FOCK, Gustav. Arp Schnitger und seine Schule (Kassel, 1974): 263.

6 DODERER, Gerhard. Caixas de Órgãos Portugueses Setecentistas: Exuberante Simbiose de Beleza e Técnica in Separata de FORUM, Braga, Museu Nogueira da Silva, 1996: 101-115.

7 Ibid. página 106.

8 VALENÇA, Manuel. A Arte Organística em Portugal - Depois de 1750, 2º volume, Braga, Editorial Franciscana, 1995: 187 e seguinte.

9 JANN, Georg. Como descobri e restaurei o órgão Arp Schnitger em Moreira da Maia, in O Mosteiro Crúzio de Moreira: História Arte Música, coordenação de António Maria Mendes Melo, Moreira da Maia, Ed. Fábrica da Igreja de Moreira da Maia, junho/2000: 64-77.

10 Ibid. página 69.

11 FERREIRA, Marcello M. Arp schnitger: Dois Órgãos congêneres de 1701. Niterói (RJ, Brasil), 1991.

12 MENEZES, Ivo Porto. O templo e a música, in Mariana: arte para o céu. Coordenação de Paulo Mendes Campos. Belo Horizonte, Comissão Pró-restauração da Catedral e Órgão da Sé de Mariana, 1985: 72-83.

13 Ibid. página 83.

14 DODERER, Gerhard, Ausgewählte Aspekte brasilianisch-europäischer Musikbeziehungen des 18. Jahrhunderts in Brasil-Europa 500 Jahre: Musik und Visionen - Brasil-Europa 500 anos: Música e Visões, Bericht des Internationalen Kongresses - Anais do Congresso Internacional, Köln, 3. bis 7. September 1999 - Colonia, 3 a 7 de setembro de 1999, unter der Schirmherrschaft der Botschaft der Föderativen Republik Brasilien - sob o patrocínio da Embaixada da República Federativa do Brasil na Alemanha; ed. Antonio Alexandre Bispo, Colonia, Akademie Brasil-Europa, Institut für Studien der Musikkultur des portugiesischen Sprachraumes e.V., Instituto Brasileiro de Estudos Musicológicos I.B.E.M., 2000: 366-371. http://www.revista.akademie-brasil-europa.org/CM66-05.htm

15 DODERER, Gerhard. Relações Musicais Luso-Brasileiras do Século XVIII: Dois casos particulares, in A Música no Brasil Colonial: 1º Colóquio Internacional, Lisboa, 9 - 11 de Outubro de 2000 / Fundação Calouste Gulbenkian, Serviço de Música; pref. Rui Vieira Nery - Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Serviço de Música, 2001: 389-416.

16 DODERER, Gerhard. O órgão da Sé Catedral de Mariana: um caso particular no relacionamento musical luso-brasileiro, in revista Brasiliana nº 9, Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Música, Setembro de 2001: 10-15.

17 REZENDE, M. Conceição. A Música na História de Minas Colonial. Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; Brasília, INL, 1989.

18O nome de João Henriques Ulenkampo é também encontrado como Johann Hinrich ULENKAMP (também HULENKAMPF).

19Ibid. página 508.

20Conf. MENEZES, Ivo Porto, página 81.